Presidente discursou. Dividiu a crise em pedacinhos. Analisou cada ramo da mesma. E nalguns casos foi até à folha. Acabou por apelar à seiva. Não nos convidou a podar a árvore. Disse muitas vezes república. Misturando o 5 de Outubro com Cícero, São Tomás de Aquino e o Infante D. Pedro. E repetindo as sebentas de Aristóteles e Montesquieu, concluiu que “a república foi, é, tem de ser, o único regime em que a sociedade civil se institucionaliza para defender o bem comum, por oposição aos regimes de dominação pessoal e aos regimes oligárquicos, nos quais o poder se organiza para impor os interesses de um déspota ou de uma minoria”. Disse que aquilo que não é república só pode ser oligarquia ou monarcia, sem dizer que a república , enquanto democracia, pode ser demagogia, ou despotismo de todos, isto é, que pode degenerar, como a aristocracia pode volver-se em oligarquia e a monarquia em tirania. Por outras palavras, fez demagogia de palavras, não percebendo que o Aristóteles que parafraseou em dó menor sempre fez análise dinâmica, explicando que todos os regimes em concreto são ao mesmo tempo monarquias, aristocracias e democracias, isto é, regimes mistos. Sampaio sabe que neste regime republicano ele é monarquia, tal como a assembleia é democracia e o poder judicial, aristocracia. E que o óleo comunicador entre eles é uma partidocracia que degenerou, dado que não interessa responder ao “quem manda?”, mas antes ao “como se controla o poder de quem manda?”. Hitler era chanceler de uma república. Tal como Salazar ou Estaline. E as monarquias britânica, sueca ou norueguesa são, neste sentido, mais republicanas, mais democráticas, menos oligárquicas e mais aristocráticas, onde o inferno da prática não está cheio das nossas “boas intenções”. Mas concordamos com a seguinte afirmação: “Temos que continuar a afirmar a abertura da sociedade em todos os domínios, opondo às velhas hierarquias e aos velhos privilégios, o mérito, o talento e a qualidade, assegurando as boas condições para a sua expressão”. Reparando, contudo, que há novas hieraquias clandestinas, novos privilégios inadmissíveis, falta de meritocracia e atentados à igualdade de oportunidades e ao princípio da justiça. Sampaio, neste sentido, jamais será citado. Aristóteles, São Tomás, Montesquieu e Popper continuarão clássicos nestes domínios na classificação tripartida das formas de poder. Na análise social, Sampaio reconhece que “nos últimos anos, é patente um crescendo do pessimismo entre nós”. Sabemos que ele partilha “as suas inquietações” e reconhece “a seriedade das suas dificuldades”. Que “nunca escondi a gravidade da crise”. Mas não o elegemos para ser analista nem notário. Mas para influenciar e mandar. Não concordamos com a seguinte observação:”Não há uma democracia forte sem um Estado forte – e em verdade só há um Estado forte em democracia”. Depende do conceito de fortaleza. Porque um Estado grande pode ser fraco. Porque uma democracia forte pode ter um povo enfraquecido. Preferia dizer que em democracia o Estado é a própria democracia, o Estado somos nós todos. É mentira que “Os partidos são os mal-amados da democracia representativa”. Só porque “os partidos políticos estão hoje separados da opinião pública por uma muralha, à qual todos os dias são acrescentados tijolos”. Ontem não era assim. Amanhã pode também não ser assim. A democracia é mais importante do que os partidos. Se os partidos estão mal, mudem-se os partidos, para salvarmos a democracia e a própria ideia de democracia. Os franceses tiveram De Gaulle. Os italianos, a operação mãos limpas. Os alemães, a grande coligação. os britânicos, fizeram com que os trabalhistas ocupassem o lugar dos antigos liberais e refizeram os conservadores e os trabalhistas. Aqui, regressamos a Soares e a Cavaco, fazendo com que a democracia corra o risco de se tornar salazarenta . E o Presidente da República num venerando chefe de Estado. Subscrevemos o que disse sobre “a questão da corrupção”. Mas julgamos que tudo vem fora do tempo. Se há cinco ou dez anos seria útil ouvirmos de Belém que “parte significativa dos casos que chegam aos Tribunais indiciam que os dinheiros, ou pelo menos parte deles, não se terão destinado, apenas, a aproveitamento pessoal”. Que “a regeneração da imagem dos partidos, essencial para o bom funcionamento da democracia e para a participação empenhada dos cidadãos na vida política, exige, por isso, um tratamento adequado da questão da corrupção”. Que “a moralidade mais elementar e o sentimento de justiça continuarão gravemente diminuídos, enquanto for possível exibir altos padrões de vida, luxos, e até reprováveis desperdícios, e, ao mesmo tempo, apresentar declarações fiscais de indigência”. Que se impõe “por isso, a revisão criteriosa das leis anti-corrupção, que estabeleçam com maior precisão e rigor os casos a que se aplicam e tornem mais severa a punição dos infractores. Depois, não me cansarei de o repetir, é preciso reforçar os meios de investigação, pois sem investigação não há provas e sem provas não há punição. Mas não chega. A defesa da República exige mais. Quem enriquece sem se ver donde lhe vem tanta riqueza, terá de passar a explicar à República “como” e “quando”, isto é, a ter de fazer prova da proveniência lícita dos seus bens”. Hoje soa a tardio e exige-se mais. Porque já não somos independentes: “a resposta à crise nacional é, em boa parte, uma resposta europeia, se bem que as nossas especificidades tendam a tornar as medidas indispensáveis mais gravosas e mais penosas, como resulta dos limites e da fragilidade dos sistemas de protecção social portugueses… A resposta à crise portuguesa está, numa parte significativa, na resposta comum à crise europeia”. Mas mais vale tarde do que nunca. Se “as eleições são a seiva da República”, esperemos que o presidente a eleger não queira ser apenas notário do sistema, fazendo excelentes prognósticos nos últimos minutos do jogo, quando estamos a perder. Aconselhamos o próximo a ler Aristóteles, São Tomás, Montesquieu e Popper. E a perceber que os poderes presidenciais e a legitimidade desse supremo magistrado, eleito por sufrágio universal e directo, nada tem a ver com o 5 de Outubro, dado que, com este o colégio eleitoral foi drasticamente reduzido, face à monarquia liberal, até perdendo em possibilidade de participação popular nas comparações objectivas que podem ser feitas com o sidonismo e o 28 de Maio.
Monthly Archives: Outubro 2005
Fiquei desolado com as autarquíadas
Confesso que só agora me sentei à tecla, à procura das novas do dia, tentando encontrar um motivo de interesse para um postal. Fiquei desolado com as autarquíadas. A única compensação para a agrura veio-me de bárbara, a minha, que já me expressou toda a solidariedade, conforme o “mail” que junto: manifesto desde já o meu apoio incondicional. Para dar um pézinho de dança num mercado de rua estarei ao seu lado nesse projecto de serviço público pelo povo de Valbom. Anexo também, em imagem, um pequeno excerto do que irá ser desencadeado a partir do próximo dia 10, tendo em vista a conquista das simpatias populares e do posterior acesso à junta de paróquia da Senhora do Ó. Não engraxo os eleitores, dou-lhes com o pezinho e com a experiência grisalha da barba branca.
Junta de paróquia da Senhora do Ó
Confesso que só agora me sentei à tecla, à procura das novas do dia, tentando encontrar um motivo de interesse para um postal. Fiquei desolado com as autarquíadas. A única compensação para a agrura veio-me de bárbara, a minha, que já me expressou toda a solidariedade, conforme o “mail” que junto: manifesto desde já o meu apoio incondicional. Para dar um pézinho de dança num mercado de rua estarei ao seu lado nesse projecto de serviço público pelo povo de Valbom. Anexo também, em imagem, um pequeno excerto do que irá ser desencadeado a partir do próximo dia 10, tendo em vista a conquista das simpatias populares e do posterior acesso à junta de paróquia da Senhora do Ó. Não engraxo os eleitores, dou-lhes com o pezinho e com a experiência grisalha da barba branca.
posted by JAM | 10/04/2005 06:19:00 PM
Eclipsados e pategos, olhemos o sol de frente, mas com adequada protecção
Os clips nunca foram boa protecção para um patego
Com dragões e leões em depressão, depois de Sócrates ir à tenda do líder líbio, em dia de eclipse solar, o maior desde 1912, verificámos que o fenómeno não devia ter sido observado sem adequada protecção, especialmente no santuário de São Bartolomeu de Argozelo, em Vimioso, Bragança, lá para lá do Marão. A temperatura baixou, os animais recolheram ao curral e um súbito vento chegou, para que as faúlhas andassem à solta na serra da Boa Viagem e levassem o fogo a chegar à malha urbana da Figueira da Foz.
Nada melhor do que sermos fiéis europeístas e deixarmos aderir os turcos
O brilho do dia diminuiu e ninguém reparou nas muitas centenas de cartazes autárquicos, onde podemos ler que João Soares oferece não sei quantas piscinas e centros de saúde para os saloios, enquanto o adversário diz que aumentou exponencialmente as refeições escolares no seu mandato, como pode ser confirmado em fernandoseara.ponto.come.
As faúlhas desceram a serra em menos de meia hora e a cidade ficou um forno
Porque Sintra não pára, há que escolher entre o Senhor Prego e o Senhor Carreira quanto à Terrugem, tal como em Mafra quem quiser livrar-se do Ministro e não apoiar Leonor Coutinho, tem a hipótese do Professor Pardal Morcela, enquanto na Amadora há que observar o repuxo da Falagueira e, em Oeiras, reparar no esparso bigode do Martins e na laca da Zambujo, apesar de estar em aberto um regresso ao passado, embrulhado num futuro que pode estar de volta, isaltinadamente. E não foi por isto que uma caravana do PS foi alvejada a tiro em Arouca, mas sem qualquer relação com os insultos que Rio sofreu em Aldoar.
A filarmónica de Taveiro em campanha, antes de ganhar o campeonato nacional de bandas
O resto do país prefere a 1ª Companhia, não discute a candidatura de Alegre, não se excita com hipótese de Portas e não lê a entrevista do andar por aí de Pedro Santana Lopes. Sabe que a Dina do Kickboxing deu às vilas Diogo, que o Peseiro foi recebido com lenços brancos, que o Koeman disse “porcaria” em castelhano e que na Contra-Informação puseram Cavaco e Soares disfarçados de mortos-vivos, depois de nos recordarem que o Marques Mendes é que deu a SIC ao dono do “Expresso” e a TVI ao casal Moniz, o que traz aves com gripe no bico, no dia de reabertura oficial da caça às rolas, em teatros de tiro ao alvo com reservado direito de admissão.
O primeiro esboço do meu cartaz de campanha já está pendente nalgumas janelas, por gentileza de bárbara…
É por isso que, depois de muitos apelos da população do Valbom dos Gaviões, decidi voltar à política activa dentro de quatro anos, começando já a partir do dia 10 o meu processo de candidatura à junta de paróquia da Senhor do Ó. Apenas me falta convencer a minha bárbara, com minúsculas e tudo, para me acompanhar na manobra, dado que, com ela do meu lado, sempre poderei peregrinar todas as feiras da batata e da cebola das redondezas, que os saloios não sabem ainda aceder ao http:/www, apesar de já haver “wireless” junto à capela da terra, mesmo diante do talho do Quim Zé.
Da charanga presidencial às guardadoras de cabras
Manhã de Lisboa, caminhada nestas vizinhanças da minha casa, onde também estaciona o supremo magistrado da nação e a carrinha do peixe fresco, onde vou à procura de pescada. Por aqui, assisto ao cerimonial da GNR, com o povo a dizer que “eles querem é festa”. Paro, cerimoniosamente, quando a charanga emite os acordes de “A Portuguesa” e noto o garbo das mulheres nesta cavalaria da Ajuda. Recordo que, em nota enviada aos jornais pela Presidência da República, Sampaio diz que se referiu à inversão do ónus da prova em matéria fiscal e à possibilidade de poder passar-se a considerar um novo crime no código penal o enriquecimento ilícito. Sampaices… Delicio-me com a nova edição das obras completas de Camões e, passando os olhos pelos jornais, noto que uma guardadora de cabras de Melgaço ganhou 68580 euros no sorteio do passado dia 12 de Agosto do Euromilhões, mas só anteontem soube que tinha sido premiada, graças a um alerta estampado na primeira página de um jornal local. Recordo que ontem na televisão o ex-presidente do Tribunal de Contas proclamou, alto e bom som, que o Ministério Público não tem actuado face às denúncias da instituição. Reparo que também o presidente Sampaio, depois de um leonino discurso, teve nota oficiosa à Peseiro. Como confirmou o fiscalista, marido da magistrada Mizé, o novo crime proposto pelo presidente já está em vigor desde o ano de 2000 e não passa de mera tradução de uma lei norte-americana de há cerca de duas décadas. Sampaio volta a meter discursos em certas poças, à semelhança do que emitiu sobre a limpeza coerciva das matas. As charangas da GNR afastam o palácio da realidade. Nunca pus em causa o brio, a isenção, ou sentido de honra da pessoa do nosso supremo magistrado, nem duvido da garbosa biografia militante e da aprimorada educação, clássica e cosmopolita. É por estas loisas que não tenho perdido meu tempo ao dedicá-lo à análise do mais recente “reality show” de uma televisão de sucesso. Cheguei à conclusão vivida do que vem nos manuais sobre o modelo de teatrocracia dos presentes sistemas democráticos: tudo isto é triste, tudo isto não é fado, tudo isto é um jogo sistémico, num clube com rigoroso direito de admissão, onde as regras escritas do Estado de Direito são constantemente ultrapassadas pelas regras dos encenadores do jogo. Não há partidos, há partidocracia. Não há cidadania nem liberdade de pensamento, há democratura. Que o diga o candidato da coligação PND/PPM à câmara municipal do Porto que não entrou no debate da RTP, apesar de ter por si um parecer da Comissão Nacional de Eleições, bem menos forte do que o critério jornalístico da direcção televisiva, sufragado pelo silêncio cúmplice dos candidatos sistémicos, que nem esboçaram um simples registo da ocorrência. Nesta democracia, os pequeninos e os intrusos não podem torcer o pepino. Liberdade, liberdade, quem a tem, chama-lhe sua. O jogo eleitoral tem regras semiclandestinas a que todos os políticos de sucesso obedecem. E Carrilho, sem dúvida, um dos nossos melhores professores de filosofia no activo, quando foi transformado em visitador de mercados, com a Bárbara ao lado, deve ter compreendido que, neste reino do vale tudo, ninguém escolhe os melhores, mas os que, por acaso, podem ser melhor formatados pelas regras de um concurso, onde dominam as Cinhas e os Zé Castelo Branco. É por isso que as próprias boas intenções de Sampaio cedem perante a elefantíase legiferante e a fealdade de um simbólico de Estado, onde acabam por preponderar os que melhor se enquadram nas regras da “quinta das celebridades”. Os nossos candidatos autárquicos não passam de meros “nomeados” pela produção do jogo e o povo, de há muito, que deixou de ser soberano: apenas ratifica as escolhas previamente feitas pelos encenadores do jogo. Por outras palavras, uma democracia que não consegue relacionar-se com a meritocracia e um pluralismo que cede à servidão voluntária do caciquismo e dos meandros corruptos dos pequenos donos do poder não serão regenerados por discursos. A palavra perdeu sentido! Os analistas da coisa, como este sujeito escrevente, podem dramatizar ou adocicar, enquanto muitos outros lavam as mãos como Pilatos, mas foi Guilherme d’Oliveira Martins que acabou nomeado para o Tribunal de Contas e não Saldanha Sanches, apesar de continuar no subliminar das gentes aquele mau feitio de certos antigos militantes da extrema-esquerda para quem importa que os ricos paguem a crise, não reparando que a questão social de hoje tem mais a ver com a clandestinidade dos novos-ricos e a tristeza acabrunhada dos novos-pobres. Pobre lusitana republiqueta que não consegue transformar em potencialidade mobilizadora a circunstância de haver 400 000 candidatos autárquicos e de haver alguma qualidade no debate dos Rio, Zézinhas, Sá Fernandes, Assis, Carrilho e Carmona, belos exemplares na nossa zoologia partidocrática, perdida entre patos-bravos e aparelhistas.
Porque hoje é domingo…vou acariciar a urze
Como o Sobre o tempo que passa já tem mais do que um ano de vida e começa a ficar muito plenificado de si mesmo, apesar de ter constante colaboração da minha irmã Maria Teresa Bracinha Vieira, decidi abrir estas páginas, de forma regular, a alguém de uma geração com uns anitos abaixo dos meus, pelo que, a partir de amanhã, terei várias colaborações de Epifânio Estrupa Caçapa. Hoje não digo nada, porque é domingo, porque é Outono, porque é Outubro, porque houve um atentado em Bali, porque o Oceano Ártico está a derreter e porque as aves migratórias estão a atravessar os céus com a gripe das aves no bico. Logo, tentarei nada dizer de autárquicas ou de presidenciais, porque, infelizmente, todos nos estamos a nivelar por baixo das portas, metidos num sobrescrito cor de rosa, onde antigamente metíamos o elefante da mesma cor, conforme a anedota. Mas como os dias de anos são quando um homem quiser, adeus, adeus, até ao meu regresso, que será amanhã, se Deus quiser. Vou até ao Valbom dos Gaviões, para acariciar a urze.
posted by JAM | 10/02/2005 10:52:00 AM