Jun 09

Que tenham a força da razão!

Fazem-nos recordar a velha história dos meados da década de setenta, antes e depois da invasão indonésia, quando alguns ocidentais da Europa Central, muito católicos e ainda austro-húngaros, não contabilizavam duzentos mil mortos de um povo dispensável, só porque o ministro da guerra de Jacarta era católico e o maior Estado Islâmico do mundo podia passar a dispor de uma província também católica, com um ministro que até mandava recados para os democratas-cristãos portugueses, para estes intercederem junto do governo de Lisboa, a fim de o autorizarem a visitar Fátima. Felizmente que havia padres de outra memória de futuro, incluindo o português Padre Felgueiras, e que houve um papa chamado João Paulo II e um presidente norte-americano que ainda seguia Woodrow Wilson e teve suficiente pressão da nossa parte. Que tenham a força da razão! Como a tiveram os anarco-sindicalistas deportados na ilha durante a Segunda Guerra Mundial que ajudaram à resistência contra o Eixo, mas que, em 1945, até o deportador reconheceram como Portugal…

 

Jun 09

Do Pato Donald ao Bloco Central, quando ainda há luar

Volvido mais de um quarto de século, apenas podemos confirmar que o país de hoje é mais continuidade do que evolução face a essa encruzilhada pós-revolucionária. Apesar da integração no projecto europeu, apesar da queda do muro, apesar de Delors, apesar do soarismo presidencial e apesar do cavaquismo governativo. O país continua a esquecer-se do Padre António Vieira, de poeta Fernando Pessoa e do professor Agostinho da Silva. E até continuam alguns frustrados revolucionários em jantaradas com ministros de Salazar , planeando grisalhos regressos ao PREC, ou conspiratas de alcatifa, para que, depois de degolarem a abrilada pela traição, possam ascender ao supremo poder da chefia dos escravos que aceitam ser dos tais contínuos que já não há, para que a revolução passe à mexicana situação do revolucionário institucional, inimigo da tolerância e das saudades de futuro, e tudo continue como dantes, porque felizmente dizem que há luar. Prefiro continuar a ler, ver e sonhar à Walt Disney. Porque vejo, ouço, mas vou calando. Porque devo.

Jun 08

Ontem há-de ser amanhã. Continuamos a ser o sempre.

Mais um dia que vem nascendo, mais uma folha de calendário, mais um pedaço de passado que leio no meu breviário das efemérides: em 1958, nesta data, o regime do velho Estado que se dizia novo assinava a sua certidão de óbito em termos de legitimidade, com a realização das últimas eleições presidenciais por sufrágio universal e directo. Porque a oposição foi impedida de fiscalizar as mesas de voto. Porque o Supremo Tribunal de Justiça até fingiu proclamar os resultados do sufrágio: 75% para Tomás, 23% para Delgado… Porque Salazar há-de desabafar para colaboradores: se a campanha de Delgado se tivesse prolongado por mais um ou dois meses, ele tinha ganho as eleições. Ele ganhou mesmo as eleições. Porque gerou um golpe de Estado consticional, cuja concretização foi, contudo, adiada para o ano de 1974.

 

O escritor Ferreira de Castro, bem qualificava o modelo da salazarquia, ao dizer que o regime do Estado Novo é um permanente inimigo da inteligência nacional… as ditaduras, por muito que durem, são um regime sem futuro. Anote-se! Basta recordar que, no ano seguinte, se dava a Revolta da Sé e surgia o exílio de D. António Ferreira Gomes. Já não bastava comprarem os maravilhas com avenças, para os fazerem, pouco depois, subsecretários e ministros, só porque se assemelhavam a Kennedy e diziam pensar como Kissinger, mesmo que ainda continuem a navegar nas águas salobras da decadência, apoiando e conspirando, nos salamaleques de salão, cujos ácaros nos causam alergias.

 

É por isso que prefiro recordar que ontem ao fim da tarde se deu o acaso procurado de um encontro de gente de blogues, a propósito do lançamento do livro de um cão com pulgas, com reportagem do jumento, do bunker, do tomar partido, do pululu e do macroscópio, onde coube a este gavião fingir que sabia jogar às cartas, para todos homenagearem uma autora que se confessou discípula de mestre Agostinho, na presença do ofício diário. Porque a Fátima, ao efabular a sua verdade, ao permitir o distanciamento de escrever, quebrou, uma a uma, as cordas que a ligavam a uma realidade que utilizou como pretexto para fazer uma viagem pela memória, por essa terra de ninguém onde o outro, que é o leitor, pode reflectir sobre aquilo que na verdade somos. Deu ao romance o nome de Judas Iscariotes, o tal que, auxiliando o outro à ressurreição, acabou, a posteriori, condenado pelos aparelhos de poder que se auto-santificam.

 

Estou, evidentemente, a falar do romance São Judas Iscariotes que a nova editorial Cosmos lançou e que, autora e editor, me deram a honra de apresentar, para poder fazer um apelo a certo conceito cósmico de pátria, onde se escreve a dúvida existencial com brutais palavras de todos os dias, onde se viaja pela complexidade da memória, com a angústia criativa de um vazio de sistema salvífico, fazendo muitas perguntas sem a ilusão de poder haver decretinas respostas, ou interpretações autênticas, vindas de fora para dentro, ou de cima para baixo. Ontem há-de ser amanhã. Continuamos a ser o sempre.

Jun 07

Viva a taxa europeia sobre os SMS e os “mails” e a reportagem da RTP sobre o turismo também europeu da extrema-direita caçadora que saiu caçada

Talvez para se comemorar esta data de 1979, quando ocorreram as primeiras eleições directas para o Parlamento Europeu, fiquei a saber que, no Partido Popular Europeu, que é uma das duas principais multinacionais partidárias supranacionais do “contenente”, circula a ideia de ser lançada uma taxa europeia para as mensagens de telemóvel e para o próprio uso do “mail”, cuja receita seria afecta ao funcionamento da instituição parlamentar que se senta em Bruxelas e, de vez em quando, em Estrasburgo.

 

Louvo, naturalmente a ideia, mas ainda não a vi expressa nas inúmeras mensagens electrónicas que recebemos do nosso superdeputado Carlos Coelho. Apenas receio que se trate de manobra de propaganda dos eurocépticos visando o futuro referendo sobre a futura constituição dita europeia. Ou de contra-informação norte-americana, atacando mais um dos excelentes relatórios do mesmo deputado europeu do PPE.

 

Ontem gostei mais de ver a reportagem televisiva sobre o turismo intra-europeu da chamada extrema-direita, que é coisa que gosta de fazer caçadas e normalmente sai caçada. Verifiquei que as nossas forças da ordem gostam de ver televisão e que, como também são caçadores, caçaram imediatamente quem disse que ia para a rua pôr a ordem nova. O político que tal proclamou, conforme dizem os jornais, é profissionalmente aquilo a que chamam “segurança”.

 

Julgo que, de acordo com a legalidade, se ainda houvesse PIDE ou DGS, bem como regras do tempo da Constituição de 1933, as forças da ordem velha teriam que fazer o mesmo do que fizeram estas, com a mesma exemplar diligência com que, além de caçarem estas caricaturas, irão amanhã caçar os defensores da violência pintada de esquerda, centro ou direita. Basta recordar que, entre os primeiros detidos da PIDE, fundada em 1945, com alguma inspiração britânica, estavam vários nazis refugiados em Lisboa, como se Salazar se tivesse esquecido que Herr Hitler mandara assassinar na Áustria o seu companheiro de ideias corporativas e beatas, Herr Dolfuss. Quem tiver dúvidas, basta ler os folhetos de defesa dos nazis feitos no imediato pós-guerra por Alfredo Pimenta e ir aos arquivos da polícia política do Estado Novo, à secção permanente que mantinham, na luta contra os adeptos da suástica e similares.

 

Julgo que a RTP começa a sair da casca com este tipo de reportagem sobre o nosso quotidiano, depois da que fez, uma semana antes, com a violência nas escolas. Sugiro que a próxima visita das câmaras passe por umas reuniões de acampamentos trotskistas, para , depois, filmarem conspirações de pedófilos, assaltantes de rua, mafiosos, “hooligans”, aderentes ao terrorismo fundamentalista, etc., a fim de ficarmos a saber como temos necessidade de polícias, tribunais e prisões, desses “aparelhos” movidos a repressão que garantem ao Estado o monopólio legítimo da violência legítima. Do que vi na televisão, a reportagem foi exemplar, não havendo sequer necessidade de um carimbo ideológico nas lentes usadas, pelo tradicional recurso aos teóricos da esquerda revolucionária que ganham a vida como congreganistas do “caça-fascistas”, tal como outros procuram os fantasmas dos que querem enforcar o último padre nas tripas do último papa, e vice-versa.

Jun 07

No Partido Popular Europeu

No Partido Popular Europeu, que é uma das duas principais multinacionais partidárias supranacionais do “contenente”, circula a ideia de ser lançada uma taxa europeia para as mensagens de telemóvel e para o próprio uso do “mail”, cuja receita seria afecta ao funcionamento da instituição parlamentar que se senta em Bruxelas e, de vez em quando, em Estrasburgo.  Apenas receio que se trate de manobra de propaganda dos eurocépticos visando o futuro referendo sobre a futura constituição dita europeia. Ou de contra-informação norte-americana, atacando mais um dos excelentes relatórios do mesmo deputado europeu do PPE. Ontem gostei mais de ver a reportagem televisiva sobre o turismo intra-europeu da chamada extrema-direita, que é coisa que gosta de fazer caçadas e normalmente sai caçada. Verifiquei que as nossas forças da ordem gostam de ver televisão e que, como também são caçadores, caçaram imediatamente quem disse que ia para a rua pôr a ordem nova. O político que tal proclamou, conforme dizem os jornais, é profissionalmente aquilo a que chamam “segurança”. Julgo que, de acordo com a legalidade, se ainda houvesse PIDE ou DGS, bem como regras do tempo da Constituição de 1933, as forças da ordem velha teriam que fazer o mesmo do que fizeram estas, com a mesma exemplar diligência com que, além de caçarem estas caricaturas, irão amanhã caçar os defensores da violência pintada de esquerda, centro ou direita. Basta recordar que, entre os primeiros detidos da PIDE, fundada em 1945, com alguma inspiração britânica, estavam vários nazis refugiados em Lisboa, como se Salazar se tivesse esquecido que Herr Hitler mandara assassinar na Áustria o seu companheiro de ideias corporativas e beatas, Herr Dolfuss. Quem tiver dúvidas, basta ler os folhetos de defesa dos nazis feitos no imediato pós-guerra por Alfredo Pimenta e ir aos arquivos da polícia política do Estado Novo, à secção permanente que mantinham, na luta contra os adeptos da suástica e similares.  Julgo que a RTP começa a sair da casca com este tipo de reportagem sobre o nosso quotidiano, depois da que fez, uma semana antes, com a violência nas escolas. Sugiro que a próxima visita das câmaras passe por umas reuniões de acampamentos trotskistas, para , depois, filmarem conspirações de pedófilos, assaltantes de rua, mafiosos, “hooligans”, aderentes ao terrorismo fundamentalista, etc., a fim de ficarmos a saber como temos necessidade de polícias, tribunais e prisões, desses “aparelhos” movidos a repressão que garantem ao Estado o monopólio legítimo da violência legítima. Do que vi na televisão, a reportagem foi exemplar, não havendo sequer necessidade de um carimbo ideológico nas lentes usadas, pelo tradicional recurso aos teóricos da esquerda revolucionária que ganham a vida como congreganistas do “caça-fascistas”, tal como outros procuram os fantasmas dos que querem enforcar o último padre nas tripas do último papa, e vice-versa.

Jun 07

No Partido Popular Europeu

No Partido Popular Europeu, que é uma das duas principais multinacionais partidárias supranacionais do “contenente”, circula a ideia de ser lançada uma taxa europeia para as mensagens de telemóvel e para o próprio uso do “mail”, cuja receita seria afecta ao funcionamento da instituição parlamentar que se senta em Bruxelas e, de vez em quando, em Estrasburgo.

Apenas receio que se trate de manobra de propaganda dos eurocépticos visando o futuro referendo sobre a futura constituição dita europeia. Ou de contra-informação norte-americana, atacando mais um dos excelentes relatórios do mesmo deputado europeu do PPE.

Ontem gostei mais de ver a reportagem televisiva sobre o turismo intra-europeu da chamada extrema-direita, que é coisa que gosta de fazer caçadas e normalmente sai caçada. Verifiquei que as nossas forças da ordem gostam de ver televisão e que, como também são caçadores, caçaram imediatamente quem disse que ia para a rua pôr a ordem nova. O político que tal proclamou, conforme dizem os jornais, é profissionalmente aquilo a que chamam “segurança”.

Julgo que, de acordo com a legalidade, se ainda houvesse PIDE ou DGS, bem como regras do tempo da Constituição de 1933, as forças da ordem velha teriam que fazer o mesmo do que fizeram estas, com a mesma exemplar diligência com que, além de caçarem estas caricaturas, irão amanhã caçar os defensores da violência pintada de esquerda, centro ou direita. Basta recordar que, entre os primeiros detidos da PIDE, fundada em 1945, com alguma inspiração britânica, estavam vários nazis refugiados em Lisboa, como se Salazar se tivesse esquecido que Herr Hitler mandara assassinar na Áustria o seu companheiro de ideias corporativas e beatas, Herr Dolfuss. Quem tiver dúvidas, basta ler os folhetos de defesa dos nazis feitos no imediato pós-guerra por Alfredo Pimenta e ir aos arquivos da polícia política do Estado Novo, à secção permanente que mantinham, na luta contra os adeptos da suástica e similares.

Julgo que a RTP começa a sair da casca com este tipo de reportagem sobre o nosso quotidiano, depois da que fez, uma semana antes, com a violência nas escolas. Sugiro que a próxima visita das câmaras passe por umas reuniões de acampamentos trotskistas, para , depois, filmarem conspirações de pedófilos, assaltantes de rua, mafiosos, “hooligans”, aderentes ao terrorismo fundamentalista, etc., a fim de ficarmos a saber como temos necessidade de polícias, tribunais e prisões, desses “aparelhos” movidos a repressão que garantem ao Estado o monopólio legítimo da violência legítima. Do que vi na televisão, a reportagem foi exemplar, não havendo sequer necessidade de um carimbo ideológico nas lentes usadas, pelo tradicional recurso aos teóricos da esquerda revolucionária que ganham a vida como congreganistas do “caça-fascistas”, tal como outros procuram os fantasmas dos que querem enforcar o último padre nas tripas do último papa, e vice-versa.

Jun 06

Sobre a mão invisível e os homens livres que fazem a história

Há dias em que, quando começamos a bloguear, não sabemos que linhas nos acontecerão neste escrever-nos todos os dias. Sabemos apenas que anteontem se comemoraram os dezassete anos dos acontecimentos de Tian An Men, coisa que aconteceu um pouco antes da queda do Muro, e, agora, reparamos que, tudo como dantes, com o homem de sempre, sem fim da história, com os américas a fingir que mandam no mundo, com os comunistas sem ideologia a policiar a China e com muitos outros “big brothers” a continuar este “animal farm”, de um capitalismo sem freio gerido ou ditatorializado por socialistas de muitas características, incluindo o barrete de saloio e os olhos em bico, nomeadamente o de papagaio. Por mim, que sempre fui pouco dado a exotismos regeneradores, chamem-se cientismos, cursos de cristandade, esquerda revolucionária, espiritismo, budismo ou numerologia, tenho agora de enfrentar esta cultura dominante da globalização, esta moda que demora a passar de moda e que, desde o pós-guerra, nos tenta unidimensionalizar de forma “hollywoodesca”, mesmo quando se disfarça em teses de doutoramento ou crítica literária. Fazemos da bandeira e da bola a nossa identidade e tudo sublimamos com um eventual golo de Ronaldo ou uma bastonada policial no dorso de um desordeiro, como se o futebol não fosse a continuação da guerra por outros meios e esta uma ilusão de jogo sem regras. Sinto que, entre o poder-ser e o ser, entre as expectativas e as realizações, continuamos um império frustrado que vai de Baucau a Marienfeld. Mas Scolari tanto não vai ser o húngaro Bella Gutman, como nem sequer pode atingir a dimensão magriça de Otto Glória. Já não somos pátria de Vicente e Eusébio e na Académica já não joga o macaísta Rocha. O velho futebol lusotropical, desse imenso império colonial, apenas serve de breve droga para o infinito silêncio desta frustração, onde só alguns sinais de mistério nos revolvem. E não é por acaso que a geração grisalha que nos governa foi buscar o “slogan” regenerador a John Kennedy, para termos a ilusão salvífica dos “action men”. É por isso que reparo em duas efemérides de hoje: o assassinato de outro Kennedy, o Robert, em 1968, e o nascimento de um tal Adam Smith, no ano de 1723. O tal que em 1776 publicou An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, onde, numa simples nota de pé de página, considerou que há uma espécie de ordem onde o homem é levado por uma mão invisível a apoiar um objectivo que não fazia parte da sua intenção. Mas o que dele ficou foi, sobretudo, o que viríamos a designar pelo princípio hedonístico do interesse pessoal, segundo o qual os homens procuram melhorar a sua situação económica, procurando o máximo de satisfação com o mínimo de esforço, salientando que os motivos egoísticos e a espontaneidade das instituições realizam inconscientemente a providência. Porque Deus escreveria direito por linhas tortas, a coisa mais próxima de tal pré-liberalismo protestante tem a ver com o acaso procurado do bushismo que, entre nós, vai sendo traduzindo por vanguarda pelos chamados “neolibs” e “neocons” que, invandindo a chamada direita, me fazem fugir dela como Mafoma do toucinho, perdoe-nos o presidente do Irão, que não quis dizer diabo da cruz, para não irritar os crentes cá das alfurjas.  Sou mesmo liberalão, mas de outra família menos providencialista. Considero que não é a história nem Deus que fazem a história, mas o homem, os limitadíssimos homens que, somando individualismos de sonho, razão, vontade e imaginação, conseguem escrever a história, mesmo sem saber que história vão fazendo, onde a mão invisível não é a da Providência, mas dessa criação divina que é a liberdade de cada um e todos os homens que assumam a humildade de servir de simples operários de correntes profundas que atravessam a história, feita, assim, co-criação de homens livres.

Jun 06

Canalhocracia. Bonzos. Endireitas. Canhotos. I República

Hoje, sem novas significativas vindas de Marienfeld e com pouco mais de uma centena de GNRs pacificando Timor, segundo um duplo espectáculo televisivo que criou, nos dois lugares, a ilusão do veni, vidi, vinci que antes de o ser já o era, prefiro assinalar duas efemérides: o desembarque na Normandia do dia D, no ano de 1944, e a circunstância de D. Pedro V, no ano de 1856, ter chamado a oposição a governar, instaurando o pluralismo na monarquia liberal, numa atitude semelhante à que o povo provocou em 1979, com a vitória da oposição de direita, coisa que não aconteceu com a I República, pois a primeira vez que os oposicionistas venceram umas eleições, em 1921, logo se promoveu o assassinato de António Granjo, o jovem e talentoso líder de um governo liberal anti-afonsista, que se opunha aos bonzos do situacionismo.  Aproveitando a deixa, não posso deixar de citar um mail recebido que Pedro Valente que, depois de uma interessante conversa que mantivemos, descobriu uma citação de Rodrigues Sampaio, na altura Vice-Presidente da Câmara dos Senhores Deputados: porque eu quasi que me chego a assustar de que acabe o deficit entre nós, com medo de que, acabando elle, acabe o systema parlamentar!”. In Acta da sessão da Câmara dos Senhores Deputados, de 10 de Junho de 1867, p.1874.  Como o Dr. Pedro Valente me confessa, demorei um bocadinho a confirmar a citação e a fonte porque se trata de um período em que as actas parlamentares foram publicadas no Diário de Lisboa e não estão ainda completamente digitalizadas. Porque tal frase precede em mais de meio século a linha, mais conhecida, de Armindo Monteiro: “A história do deficit é a história das finanças portuguesas”. Com efeito, este último tem a capacidade de resumir, em cinco palavras, o debate em redor das finanças públicas portuguesas. Mas a citação de Rodrigues Sampaio tem uma força profética fabulosa.

Jun 04

Atentado anarquista contra o ditador e o perfil dos novos ministros

Nesta data, no ano de 1936, Salazar esteve para se transformar num santinho do altar, ao estilo do franquista Luís Carrero Blanco, ao ser vítima, falhada, de atentado bombista, onde entrou Emídio Santana e o grupo anarco-sindicalista que o Estado Novo desarticulara, deixando a nossa classe operária e o processo de subversão do Estado sob a égide da oposição celular e estalinista do PCP e da estética neo-realista. Afinal só cairia da cadeira em fins da década de sessenta e lá da tumba de Santa Comba ainda veria o regime aguentar-se mais meia década, porque, por cá, os regimes não caem à bomba nem à urna, caem de pôdres.

 

Depois de tantas críticas que aqui fiz a Diogo Freitas do Amaral, quero manifestar-lhe o meu sincero estimo as melhoras, para que o execelente professor e razoável dramaturgo possa voltar ao seu melhor. Julgo que, dentro do socratismo, os novos ministros eram inevitáveis, embora, dentro do PS se pudessem mobilizar figuras como Francisco Seixas da Costa, se o Primeiro-Ministro optasse por criar uma alternativa ao gamismo e ousasse dar voz a um criador. Mesmo para a defesa, se se optasse por uma glória que ainda sabe jogar, ainda anda por aí um José Medeiros Ferreira que também é açoriano como o Amado e da Nova como o Severiano. Mas estes dois cumprirão no essencial da presente renovação na continuidade, como era estratégia da coabitação presente e dos objectivos de consenso nacional do presente silogismo, onde Luís Marques de Almeida foi para Bruxelas e Armando Marques Guedes ainda é o patrão do Instituto Diplomático, como o não reclama toda a inteligência nacional que pensa as relações internacionais. Assim, tanto os militares no activo como os diplomatas em idêntico estado vão respirar de alívio e colaborar com gente de bem e inteligência superior, o que, sendo menos mau, já é muito bom. Até eu darei, com estes ministros, tudo o que achar de patriótico interesse, mesmo que não me seja pedido. Com eles, volto a ser humilde soldado institucional do interesse nacional.

Jun 02

Soprando as cinzas que, por vezes, nos pesam em amargura

A coragem e a palavra dada apenas se cumprem entre gente de princípios, entre homens e mulheres livres, os quais raramente coincidem com a chamada gente de poder, entre os que, quando estão aflitos, proclamam que ninguém os amedronta ou ninguém os cala, para, depois do caldo entornado, dizerem que estão de consciência tranquila.

 

Entre a fauna do poder, quase todos consideram que a vida é um jogo, com sucessivos episódios onde, ora se ganha, ora se perde, onde os que hoje perdem, nunca perdem tudo, porque tudo se transacciona com os que lhes sucedem nas meias vitórias. E nestes sucessivos jogos de soma zero da barganha, onde um mais um pode ser igual a menos do que um, raramente se vislumbra aquela mais valia da criação, a que muitos dão o nome de cultura, daquilo que se acrescenta sobre o cru do vazio humano.

 

Outra é a minha concepção do mundo e da vida, talvez mais peninsularmente dramática. Onde não há eternos palcos nem sucessivos jogos, mas uma longa linha de marítimo horizonte, onde sonhar é procurar passar os próprios limites, embora se reconheça a pequenez da nossa dimensão individual, como ser incapaz de captar todos os mistérios da criação.

 

Continuaremos presos entre o lodo e as estrelas, entre o paradoxo de vivermos e morrermos, onde até podemos viver morrendo, se tivermos uma qualquer causa pela qual valha a pena morrermos sem morrermos, inserindo-nos naquelas correntes de ideias que nos dão eternidade além de nós. Que até pode ser soprarmos as cinzas do ódio que recobrem as brasas aviváveis do amor

 

 

 

Imagem picada em Luar na Lubre

 

Por isso, vou transcrever o galego Madrigal á cibdá de Santiago de Federico García Lorca:

 

Chove en Santiago

meu doce amor.

Camelia branca do ar

brila entebrecida ô sol.

 

Chove en Santiago

na noite escura.

Herbas de prata e de sono

cobren a valeira lúa.

 

Olla a choiva pola rúa,

laio de pedra e cristal.

Olla no vento esvaído

soma e cinza do teu mar.

 

Soma e cinza do teu mar

Santiago, lonxe do sol.

Ãgoa da mañán anterga

trema no meu corazón.