Comentando as causas que envolvem a vergonhosa fuga de cérebros, nada melhor do que ver a agenda de um professor catedrático numa universidade pública, onde mais de metade do tempo do que deviam ser aulas se gasta em dilatórias reuniões de conselhos, com bailados de discussões de primas-donas em torno de actas, códigos de procedimentos administrativo, relatórios de avaliações e outras apreciações com que a burocracia mental da governação daquilo a que chamam Europa está enredando os portugueses, ensarilhados pelas ervas daninhas da subsidiocracia, dependente da nomeação decretina, do favor partidário, do clientelismo e da cunha , quase nos obrigando à filosofia da mão estendida e do dobrar da espinha. As universidades públicas começam a ser ameaçadas pelo conceito de escolas de regime, onde o grau de pretensa cientificidade tende a ser directamente proporcional à proximidade com um qualquer grande chefe da partidocracia, do gabinete ministerial ou das boas graças que uma qualquer luminária mantenha com um mecenas, se possível banqueiro. Daí que possamos passar para a forma de colégios de mandarinato, onde o saber se transforma num instrumento do poder e onde a cultura pode deixar de rimar com homens livres. Porque estes, fartos de manipulações de corredor e de golpadas de salão, começam a perguntar onde fica o exílio, nem que seja o da solidão criativa, a única que ainda nos propicia um mínimo de independência crítica, sem a qual não há liberdade, identidade, autonomia e até aquele bem cada vez mais escasso a que os antigos davam o nome de independência nacional. Confesso que, sobre a matéria, padeço daquele conceito de bem educado, bebido na pequena burguesia de rurícolas origens, assente num amadurecimento feito em democracia pluralista e Estado de Direito, onde aprendi a resistir à opressão, procurando estar sempre de acordo com os meus princípios, crenças e valores, mesmo que momentaneamente tenha que enfrentar uma maioria flutuante dos que preferem a vontade de todos dos interesses, à vontade geral do todo. Neste domínio, não aceito consensos de campanha eleitoral, preferindo o consenso dos que pensam de forma racional e justa e fazem um esforço para passar da opinião ao conhecimento. Ai da universidade se não se organizar hierarquicamente em torno do bem supremo da sabedoria, que nunca coincidiu com o apetite dos rebanhos feitos pelo temor reverencial da multidão solitária que procura a protecção na encomendação feudal, face ao vazio da justiça meritocrática.