Jun 13

O Tejo é um simples rio que passa na minha aldeia…o resto é deserto

Ontem, onze dos doze candidatos a autarca-mor da Lusitânia aceitaram sentar-se no palanque do estadão cameralístico que assistiu às marchas de Santo António de Lisboa, naquela nossa Avenida da Liberdade que, nascendo nos Restauradores, vai subindo, subindo, até ser encimada por um déspota, o dito marquês, agora furado por um belo e rápido túnel. Só um, de imagem fadista, foi para o meio do povo, e saudando a assistência, num golpe publicitário, recebeu carinhosos aplausos.

Sócrates não foi convidado, porque poderia receber algumas vaias. Cavaco também acabou por não ir, dado que a RTP, se transmitisse a procissão, poderia não a mostrar integralmente. Ninguém reparou que esta profunda tradição popular foi uma invenção do salazarismo em 1935, da iniciativa do cineasta Leitão de Barros e acarinhada pelo Secretariado da Propaganda Nacional. Hoje, há feriado em Lisboa. O resto do país trabalha.

As notícias que nos chegam são interessantes, neste regime do Ministério Público, com mais arguidos e acusados, entre Rui Rio e Pinto da Costa, além de muitas queixas no DIAP e mais processos promovidos pela associação dos autarcas contra Saldanha Sanches, para que os oficiais de justiça fotocopiem e cosam, para que os advogados facturem, para que uns aos outros se notifiquem e piquem. Quase ninguém nota que o processual não coincide com o jurídico, tal como o mundo do direito não é a vida. Não passa de um teatro onde fingimos o quod non est in actis non est in mundo…, para que alguns facínoras possam exibir uma qualquer sentença de absolvição e certos inocentes acabem condenados.

Neste país de arguidos e acusados, esta esquizofrenia judicialista que tende a confundir o jurídico com o moral e a colocá-lo acima do político, esperam-se mais alguns comentários teológico-resignatários sobre a matéria, denunciando-se este regime do segredo de justiça e de segredo de Estado.

Consta que haverá transmissões em directo da próxima reunião plenária da Conferência Episcopal Portuguesa e que as actas do concílio que elegeu o papa serão publicadas integralmente no “Observador Romano”, nomeadamente com a indicação nominativa dos votos que precederam o fumo branco. É por isso que dói esta ressaca de sardinha assada e discussões sobre a Ota e Alcochete. Até seria mais interessante se fosse aberto concurso público de ideias sobre mais uma destas obras de regime. Porque depois das pontes Salazar e Vasco da Gama, chegou a hora do Aeroporto do Barrete Verde…

Por mim, que ontem não fui a Alfama, passei parte do começo da noite na sala das chegadas do quase defunto aeroporto da Portela, meditando sobre estas polémicas e colocando-me na pele de um qualquer visitante anónimo que aqui chegue e dê uma volta pelas instalações. Reparei, por exemplo, que se o dito for ao magazine dos jornais e revistas e fizer um retrato literário do país encontrará uma interesse imagem da nossa cultura.

Numa estante, os habituais livros para homens de negócios, entre memórias de gestores públicos condecorados no dez de Junho e o “soduku”. Na outra, em primeiro destaque, cerca de dez livros laudatórios sobre Salazar. Em seguida, em segundo destaque, uma estante inteira com memórias da Carolina Salgado e Pinto da Costa. Isto é, tudo isto é triste, tudo isto é fado e o Tejo é um simples rio que passa na minha aldeia…

Por isso é que, ao descer a avenida com o nome do maçon Gago Coutinho (piada para o D. Marcelino…), fui olhando para os cartazes dos candidatos a autarcas, quase todos fabricados pela mesma onda publicitária, reparando nas carantonas dos acompanhantes de Telmo, com uma deputada de Leiria, um candidato a deputado por Coimbra e um administrador da Emel, para concluir como nos querem tomar por parvos. Passei pela estátua de Sá Carneiro e reparei como deixaremos para os vindouros imagens tão pindéricas e acabei por perder-me na descida da Almirante Reis, outro lojista do Bairro Alto (nova piada para D. Marcelino, a quem o Luís Mateus deve mesmo oferecer a sua obra sobre os ditos nas ruas de Lisboa e mandar-lhe os semanais comunicados da respectiva associação).

Voltei ao velho ambiente do meu bairro e sonhei que poderia voltar a ser cidadão de uma pequena polis que se libertasse do concentracionarismo dos paços do concelho, se o Portugal democrático ousasse fazer o que aconteceu em Espanha, França ou Itália no último quarto de século: manter o regime democrático, mas alterar a fundo as canalizações partidárias enferrujadas destes partidos infuncionais.

 

Cheguei à conclusão que o salazarismo ainda mete medo a todos quantos vêem nas críticas aos actuais partidos, uma rejeição do regime de partidos, preferindo as marchas do Leitão de Barros, dado que sabem que, se outras fossem as condições geopolíticas e geofinanceiras, já teria havido um desfile de Gomes da Costa (ex-militante de um partido de extrema-esquerda do 5 de Outubro e que teve como conselheiro e inspirador o avô da Drª Manuela Ferreira Leite, pretexto para a greve académica de 1907, quando Alfredo Pimenta ainda era anarquista e António Sardinha republicano e positivista) na Avenida da República, ou, então, para sermos mais prosaicos, uma carta de intenções do FMI contra a bagunça. Infelizmente, o próximo 28 de Maio apenas será a cláusula de opting out para a saída da zona euro, coisa que não virá de Braga, a cavalo num comboio, mas de Bruxelas, sem aterrar no aeroporto da Bóina Verde e Vermelha…

Jun 12

Cartesianas reflexões contra quem não tem dúvidas e raramente se engana, com tiro de Alcochete no campo da Ota

Depois de tantos desertos e do presidencial conselho, a governança do estadão diz, de forma anticavaquista, que agora tem dúvidas e que pode ter-se enganado, tratando de encomendar um honesto estudo comparativo ao serviço público mais habilitado para o efeito, que não a Procuradoria-Geral da República, na sua secção de luta contra os apitos dourados.

Os cartesianos seis meses que quase acompanham a presidência portuguesa da União Europeia serão tempo de espera para aterrarmos no bom senso, mas onde Mariano Gago ameaça tirar o veto de gaveta ao despacho sobre a UnI, ou vetar-nos a todos com as pombalices engenheirais da sua concepção de ensino superior, antes de ser substituído por uma qualquer margarida moreira, para termos que ler notáveis editoriais de Fernanda Câncio, em nome da liberdade de expressão de pensamento.

O tal “cataclismo” pode facilmente resumir-se nos quatro preceitos do método analítico e da decomposição pela reflexão estabelecidos por Descartes, o autor do Discours de la Méthode pour bien conduire sa raison et chercher la verité dans la science, de 1637:

“Jamais receber por verdadeira coisa alguma que eu não conhecesse evidentemente como tal” (a chamada regra da evidência);

“Dividir cada uma das dificuldades … em tantas parcelas quanto … possível … para melhor as resolver” (regra da análise);

“Conduzir por ordem os … pensamentos , começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como que por degraus, até ao conhecimento dos mais complexos, e supondo a existência de ordem entre aqueles que não se sucedem naturalmente uns aos outros” (regra da síntese);

“Fazer sempre enumerações completas e revisões tão gerais que se fique seguro de nada omitir” (regra da verificação).

Estes são com efeito os principais mandamentos daquilo que Bernard Roger qualifica como “o marxismo da burguesia, o instrumento teórico da sua conquista do poder e da sua luta contra a aristocracia”.

Agradeço à CIP e ao seu impulsionador Van Zeller a redescoberta da técnica do ovo de Colombo, num plágio à petição apresentada ao parlamento por Manuel Monteiro. Mas fiquei a saber que a associação patronal assume a dimensão de sociedade discreta, passível de um furibundo artigo do bispo resignatário D. Marcelino, porque o patrão dos patrões veio à televisão proclamar que nunca se saberá quem fez e quem pagou o estudo que deu um tiro de Alcochete no campo da Ota, nessa luta contra a desertificação da margem sul. Por mim, continuo em outra banda, sem ter numa mão a espada e na outra o báculo, conforme a hobbesiana imagem do Leviathan. Apenas uso pena e teclas contra o tilintar dos punhais da traição, com que muitos bácoros e bufos se embebedam.

Não assino o jornal Correio do Vouga e nem acredito que Mariano Gago siga o paradigma Mário Lino, isto é, que leia Descartes e deixe de ser metodologicamente cavaquista. Esperemos que Van Zeller encomende à sua comissão discreta novo estudo, para que um laboratório nacional de universitarice civil tenha a coragem de dar um tiro nos preconceitos reformistas, sem anedotas sobre inglês técnico.

Reparo apenas que o je pense, donc je suis constitui o ponto de partida para os chamados temps modernes, a partir dos quais se assiste a uma série de de tentativas destinadas a levar a filosofia a desempenhar o mesmo papel e a mesma função cultural que, na Idade Média, cabiam à fé e à teologia. Começa, então, a caminhar-se para uma espécie de morte de Deus ou de desdivinização do mundo, visando tentar-se a ocupação da cúpula da humanidade, esse vértice integrador do próprio conhecimento.

Só que, depois dessa “morte” , talvez tenha sucedido um infinito vazio que, desde então, temos tentado preencher frustradamente. Sozinhos, diante nós mesmos, ensimesmados, eis-nos presos nas teias de uma solidão cósmica, que a razão, em si mesma, não consegue compensar nem preencher. Com efeito, como observa Darlu, “sempre que reflectimos sobre as coisas, o nosso pensamento tem o seu centro na nossa consciência individual (é o cogito cartesiano), o nosso humilde pensamento toma a medida do mundo; a nossa pequena vontade acrescenta o ser à realidade onde está inserida. Não somos senão um fio na tela imensa que se balança ao vento e, contudo, sentimos o movimento do conjunto e sabemos afrouxá-lo ou acelerá-lo”.

Jun 11

A política, a religião, a moral e o direito são ordens complexas e autónomas, com amplas zonas de coincidência, conflito e indiferença

Lá se foi o dez de Junho, nesta encruzilhada de crescente desencanto e de regresso ao quente das guerras civis frias, sobretudo entre a política e a religião, nessas pouco correctas revoltas contra a hipocrisia instalada do sindicato da citações mútuas, incluindo as blogueiras. Por hoje, recordo, como símbolo destas águas pantanosas, o oficioso friso que emoldurava as cerimónias do feriado, entre o desfile militar e a procissão das condecorações às comissões de honra dos candidatos vencedores. Duvido que grande parte de tal estadão do aparato lusitano, para telejornal filmar, tenha obsessão lírica ou épica para se exaltar em verso, mesmo quando se plagia uma ideia pouco alegrina de um velho professor alentejano, sem dar o seu ao seu inspirador. Quase todos eles são a consequência do nosso silogismo bem pensante e politicamente correcto e, pior do que isso, sintoma, e não causa, de um crepúsculo, onde tarda que às aves da sabedoria deixem levantar voo. Todos batem palmas a discursos neutralmente escritos segundo o livro de estilo e o manual de procedimentos do candidato a deputado ou a ministro, depois de um estágio como assessor do chefe de departamento de um qualquer ministério da reforma e modernização da administração central do Estado. Esse ritmo situacionista dos seminários do regime que ensinam a fazer desfile para o rancho. Eles e os seus condecorados são o normal anormal da raça dos mandadores que pensam que o poder é coisa que se conquiste e não uma relação entre o aparelho de poder e a comunidade. Por isso é que as bandas e charangas do nosso vivório e foguetório são obrigadas aos acordes da Maria da Fonte, quando uma qualquer excelência ministerial visita a província, esse resto que não é paisagem, ou deserto, mas pátria, deserdada e desterrada. E nestes teatros de corte se vai gastando, pelo mau uso, a ideia de Estado e prostituindo, pelo abuso, o apelo à religião secular da nação, com que procurámos laicizar certo transcendente. Se a maior parte das ideias e valores cívicos são conceitos e valores religiosos secularizados (Schmitt, que era alemão, católico e ex-nazi, dixit), a laicização desse transcendente não decepa outras procuras do mais além, que não é monopólio das religiões e, muito menos, dos aparelhos que comandam as organizações religiosas, mesmo quando abusam da posição dominante, nem que seja pela omissão, ou pela inércia. Especialmente quando estabelecem que a agenda da propaganda fidei deve difundir o preconceito que ostraciza o não-legionário, colocando-o no bando dos milenaristas, ateus, agnósticos ou gnósticos, como se não houvesse o direito de heresia, na procura do caminho e da verdade, fora do obediencialismo dos dilectos filhos das organizações religiosas que se assumem providencialmente como monarquias de direito divino.  A política, a religião, a moral e o direito são ordens complexas e autónomas, com amplas zonas de coincidência, conflito e indiferença. Especialmente quando cada uma delas assume uma espécie de ciência arquitectónica, considerando as outras parceiras como suas servas, hierarquicamente dependentes do index e do nihil obstat. E todas as degenerescências fundamentalistas produziram os irmãos-inimigos, das teocracias, cesaropapismos, laicismos jacobinos, puritanismos ou justicialismos, os tradicionais vícios de quem não admite a autonomia de tais ordens complexas, especialmente quando comprimem a ciência dos actos do homem como indivisus e pessoa e estragam a fuga ao animalesco pelas racionalidades da casa, com a sua economia, da praça pública, com a sua política, e os plurais templos dos homens de boa vontade.

Jun 08

Nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente

Leio, numas páginas emitidas por um eclesiástico retirado do activo, e tão paralelamente difundidas por dilectos seguidores do protocolo dos sábios do Sião e das técnicas de Barruel, que José Agostinho de Macedo e a “Besta Esfolada” ainda continuam no activo: porque não sabemos as relações existentes, quem são e quem deixam de ser e as razões porque estão, e de repente aparece mais um aqui ou ali, verificando-se que estão sempre colocados em lugares especiais do poder. Por outras palavras, para o retirado, não deve haver nenhum, nem aqui nem ali, e, muito menos, num qualquer lugar especial de poder, ao contrário de algumas excepções ministeriais que Salazar tolerou. Talvez porque não devesse existir um Winston Churchill, um D. Pedro IV, um duque de Loulé, um Fontes Pereira de Melo, um Alexandre Herculano, um Egas Moniz, mais de metade dos chefes de governo da monarquia liberal e outros tantos da Primeira República, bastando o deputado José dos Santos Cabral e a primeira lei com que o regime do Estado Novo nos resolveu brindar. Se calhar o resignatário eclesiástico julga que a liberdade e a democracia apenas surgiram em 1891, graças aos esforços de uma coisa chamada “Syllabus”, bem como de séculos de relaxação para o braço secular do santificado ofício. Certa pré-leonina mentalidade que remeteria Trumann para a fogueira, odeia a Revolução Inglesa e a Revolução Norte-Americana e certamente detesta 24 de Agosto de 1820 ou 9 de Setembro de 1836. Isto é, ela não vive cá, isto é, no Portugal liberal, na Europa democrática e no Ocidente das liberdades e da separação do poder civil do poder religioso, há mais de dois séculos. E mente declaradamente em seu obcecado revisionismo histórico, à boa maneira estalinista e demonizante. Um belo discípulo de tão luminosos princípios, que nem o CADC subscreveu, chegou a declarar numa abrilada, quando era um jovem instrumentalizado por potências estrangeiras, que pretendia esmagar duma vez a pestilenta cáfila … ou acabar na gloriosa luta em que estamos empenhados, ou cortar pela raiz o mal que nos afronta, acabando de uma vez com a infernal raça …, antes que ela acabe connosco. Seis anos depois, com cacetes, forças e alçadas, deixou de haver um aqui e outro ali e regressaram as gloriosas páginas das detenções na Relação para os que não foram para o exílio. Os requintes de malvadez nem exluíram o macabro espectáculo de frades loios e oratorianos se regalarem com doces e vinhos finos, repetindo cenas dos autos de fé. Vale-nos que os posteriores papas são da estirpe de um Leão XIII, de um Pio XI, de um João XXIII, de um Paulo VI ou de um João Paulo II, e que a esmagadora maioria do povo que os segue faz parte dos homens e mulheres de boa vontade, como os meus avós, os meus pais, os meus vizinhos e os meus compatriotas. Estivemos quase todos num certo comício de Aveiro do ano de 1975, a defender a liberdade da Igreja, em nome de José Estevão, o pai do Luís de Magalhães, ministro progressista e combatente da Traulitânia. Depois, com católicos, andaram também todos a defender o jornal “República”, tal como foram a Braga e à Alameda, aguentaram o emissor da Rádio Renascença na Lousã e defenderam o Patriarcado de Lisboa, sempre com a cobertura operacional do Edmundo Pedro e o conselho do Padre Manuel Antunes, quando meninos do Bispo do Porto, como Francisco Sá Carneiro, militavam no partido de Emídio Guerreiro, José Augusto Seabra ou Nuno Rodrigues dos Santos, enquanto outros chegaram a eleger um menino do cardeal para secretário-geral do partido de Raul Rego. E todos se comprometerem a não “fechar a Igreja na sacristia”, a não “ignorar os valores cristãos”, a não “fazer tábua rasa de uma cultura milenária, negar a história pátria e secar as suas raízes vitais, mudar o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechar o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente”. Não deixemos que certas irritações de propagandismos fundamentalistas, vindas de congreganistas e anticongreganistas, fechem os outros, que eles desconhecem, nos templos, ignorem os valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da fraternidade, não façam tábua rasa de culturas mais do que milenares, neguem a história pátria e sequem as suas raízes vitais, mudem o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechem o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente. Todos têm direito às mesmas universidades, às mesmas rádios e aos mesmos jornais, porque nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente. Por mim, continuo a querer militar, muito azul e branco, no partido do Conselho Conservador, do Sinédrio, de Manuel Fernandes Tomás, de Passos Manuel, de D. António Alves Martins (bispo de Viseu) e de Alexandre Herculano, mesmo que seja contra os bobos da Corte que preferem a República de Saló… Até julgo que a Carbonária foi refundada em Portugal para que se combatessem esses horrendos cabrais, que eram maçons e tudo… A história nunca se deu bem com o preto e branco maniqueísta de certos persas, pintados de propagandistas e vanguardistas, mesmo quando benzidamente missionários. Prefiro a tradição dos homens livres! E ando aqui e ali, em lugares de não poder. Prefiro o poder dos sem poder, Locke, Montesquieu, Burke e o ritmo liberdadeiro de Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Sempre detestei a reacção que pretende mandar para a fogueira três quatros dos conservadores e tradicionalistas europeus que não aceitam o preceito monopolista do resignatário, especialista em nihil obstat. Vale mais, ir além do pré-capto e aceder ao cum-capto do conceito. Compreende-se melhor a realidade. P.S. Não quis confundir, nem cometi, pela natureza das crenças pessoais, nenhum pecado grave de conspiração. Para ser exacto, todos os que aqui cito, à excepção dos papas, dos padres Manuel Antunes, Barruel e José Agostinho de Macedo, bem como de Francisco Sá Carneiro, violariam o cânone 1374, se fizessem parte de uma certa organização religiosa que não pratica a reciprocidade para quem não tem cânones proibitivos desse tipo (não repeti o nome de Santos Cabral que, além de ter sido o autor da lei que deu roubada sede à Legião latrocínia, até propôs a restauração da pena de morte, quando a campanha situacionista chamava poeta menor a um bebedor de absinto, empregado numa agência de publicidade e tinha a mania do milenarismo…). Apenas quis demonstrar como ainda domina um silabismo, onde muitos não fazem aos outros o que não querem que lhes façam a eles, mesmo quando todos somos um nós. As brasas da pouca boa vontade apenas estão cobertas daquelas cinzas que podem ser afastadas pela levíssima brisa de um artigo de jornal. Que as fogueiras dos autos não se levantem, mais uma vez!

Jun 07

No fim da procissão do Corpo de Deus…

A conspiração castífera e capitaleira que ameaça manter o centralismo partidocrático continua a cabralizar a democracia neste dia de procissão do Corpo de Deus. Apenas recordo que nesta feria de 1838, quando os generosos setembristas de Passos Manuel já tinham caída nas teias pós-revolucionárias dos ordeiros, emergiu o ex-radical António Bernardo da Costa Cabral. Estávamos no desmantelar da feira, no fim da procissão solene, quando Sá da Bandeira, então acompanhado por Silva Carvalho que, no mês anterior regressara do exílio, são atacados pela populaça, salvando-os o próprio Costa Cabral, que é obrigado a disparar sobre os sediciosos. Sá da Bandeira apenas escapa do golpe de baioneta de que é alvo, porque este toca na parte metálica das condecorações com que está ornado. Por outras palavras, no fim das procissões, emergem sempre ex-radicais que se vestem de adoradores da ordem estabelecida e tratam de fazer a limpeza da imagem dos regimes, quando estes entram em degenerescência crepuscular e já não conseguem fazer o inventário dos devoristas das privatizações feitas segundo a lógica do sapateiro de Braga, onde nem todos comem e também não há moralidade.

Jun 06

Se os mecanismos do Estado de Direito forem instrumentalizados para vindictas feudais e partidocráticas… é a democracia que entra em crepúsculo

Hoje ainda não consegui arranjar tema para um postal de homenagem a este regime. Julgo que basta ter colocado, há pouco, como imagem do postal de ontem, a firmeza jota que agora a encima. Porque imagens como estas há muitas, mesmo sem saias. Eu, por exemplo, sou um dos que sofre na pele do quotidiano o efeito de inúmeros testemunhos de senhoras directoras e de senhores directores deste género de degenerescência cívica. Apenas digo que é pior experimentá-los do que julgá-los, mas nem por isso deixo de aqui julgá-los, para que outros não tenham que experimentá-los. Por exemplo, ao contrário de muitos frequentadores da Internet, já há muito que não utilizo o computador que possuo no serviço público, tanto para visitar a rede como para guardar arquivos de investigação científica. Não tenho confiança na confidencialidade dos dados. O que me foi até garantido por um anterior, e actual, director diante de testemunhas. E que me leva a reforçar a ideia de que em muitos segmentos da administração pública, esta não é imparcial nem sequer pessoa de bem. Porque a lei é interpretada de uma maneira favorável para os amigos da lista, e de forma repulsiva para todos os outros que não têm os favores do abstracto chefe que divide o mundo entre os bestiais e as bestas, onde são bestiais os “yes, minister” e bestas, os que lhe dizem “não”, mesmo quando, antes, lhe disseram “sim”, dado que o chefe confunde o bem a instituição com a personalização do poder. Aliás, o chefe, ainda há uns tempos, enviava um “sms” a várias pessoas de uma certa categoria, contendo excertos de um documento difamatório relativamente a um colega, excluindo cirurgicamente outros, ao bom estilo dos modelos inquisitoriais, como se este regime não fosse um Estado de Direito, sujeito a uma Constituição, onde os próprios ministros não passam de um “servus ministerialis”, onde o “ministerium”, a função, ou o ofício são o tal bem comum, onde nenhuma facção tem o monopólio da interpretação autêntica. O chefe não passa de um funcionário, de um oficial, de um ministro ou de um vigário. Coisa que até se aprende num curso de teologia, mesmo que seja em latim. Ai do nosso querido regime quando a lógica burocrática se deixa enredar nas bufarias impressas em revistas coloridas, à boa maneira das leis promovidas pelo deputado Santos Cabral. Ai do nosso querido regime quando docentes universitários dão o nome de autoria a artigos ditos jornalísticos que reproduzem campanhas de seitas fundamentalistas, à boa maneira dos moscas do Intendente e dos bufos de Agostinho Lourenço. Especialmente quando todos querem esquecer que a polícia política do salazarismo foi montada pelos mesmos polícias secretos que a República democrática organizou, na sua fase de decadência, invocando os atentados da Legião Vermelha. Até não me esqueço que a instituição técnica da Pide, de 1945, teve a complacência colaboracionista dos mecanismos policiescos de algumas democracias ocidentais, em nome da nascente teoria do Estado de Segurança Nacional. Ai do nosso querido regime se, em nome da abstracção burocrática, regressa o ambiente pós-totalitário que Milan Kundera bem expressou na “Insustentável Leveza do Ser”. Se os mecanismos do Estado de Direito forem instrumentalizados para vindictas feudais e partidocráticas, com a complacência do oportunismo carreirístico do salve-se quem puder, a democracia entra definitivamente no crepúsculo.

Jun 05

A nova maria da fonte, sem temer e sem cavalo, contra o programa de cortar os dedos para que se confisquem os anéis

Vale-me que, nesta tristeza crescente de um quotidiano cada vez mais cinzento, ainda há aulas e alunos, longe dos corredores da burocracia em regime de providências cautelares e golpadas reformistas. Pena que os alunos saibam que o sistema veiga-simonista e gagueiro, com tantas avaliações e grupos de missão, produziu cerca de meia centena de milhar de licenciados desempregados, neste ambiente de esperança em torno da bolonhesa que vai produzir empregabilidade. O Conselho Superior do Ministério Público marcou uma reunião oficial para ler a entrevista política de Saldanha Sanches. Maria José Morgado não estará presente. Viva a flexi-segurança à portuguesa!… Não reparam os doutos e os becas que, nesta pátria capitaleira e absolutista, com muitos descendentes do marquês, dito déspota iluminado, pintados de democracia, a única coisa que até agora salvou os melhores foi poderem furar o bloqueio da falta de avaliação do mérito, através da emigração, para os ex-impérios e para as Europas das sete partidas. Assim, estacionaram cem milhões no Brasil e outros milhões mais escassos nas outras paragens coloniais, enquanto, nos anos sessenta, lá foram dois milhões a caminho da integração europeia. Agora já nem a salto há válvulas de escape e a panela de pressão vai acumulando vapores de revolta. Espera-se, a qualquer momento, que uma qualquer Maria da Fonte, vestida de “hacker”, proteste contra a cabeleira branca do ministro dos bancos, introduzindo um vírus mortífero nos computadores do ministério das finanças, para que se acabem com todos os registos do IRS e do IVA. Outros patuleias se preparam para, através do “wireless”, produzirem violações no espaço dos tribunais e das polícias. A culpa está em termos os governantes, os deputados e os magistrados que merecemos. A coisa apenas pode ser invertida por uma educação que promova a autonomia dos indivíduos. Quando cada um de nós passar a ser uma república soberana que promova regras que se cumpram, bem longe daqueles pleonasmos e placebos que levam os acusados em processos judiciais a declarar que estão de consciência tranquila. Só através do individualismo moral de cada um ser autonomia e centro do mundo poderemos esperar que regresse a meritocracia e as escolas de formação de elites, dotadas de adequada “ratio studiorum”. Ai das falsas reformas dos amanhas que cantem que não passem de fraudes educativas, ao serviço de um programa oculto de diminuição do défice que decidiu cortar os dedos para poderem ficar com os anéis.