Ago 08

Os bailados da fina flor da plutocracia e dos muitos feitores de ricos…

Bem tento interromper a rotina do dia a dia capitaleiro, entre os deveres de função e a própria análise das nossos politiqueiros. Bem tento guardar no corpo as escamas de sal e os restos de areia. Bem tento que o tempo que me dê tempo, para, perdendo o tempo, ganhar mais tempo. E até há velhotes sentados nos bancos da marginal, vendo cair a noitinha, aproveitando a brisa, aproveitando a vida e até eu vou fazendo meus diários exercícios espirituais, neste pátio interior, bem algarvio, e até me vou escrevendo e rememorando, deixando fluir o tempo que passa e não prende.

Meia dúzia de dias de férias já me fizeram diluir em normalidade, longe dos golpes de estadão e das cobardias que foram escavacando, em oportunismos carreiristas e politiqueirice o que resta de algumas instituições que perderam a alma. É bem grave a nossa crise de povo, especialmente quando os organismos através dos quais o mesmo se expressa se entregam episodicamente às bebedeiras da personalização do poder, com muitos pequenos césares de multidões, com os seus festins de oclocracia.

O paradigma da governabilidade dos Pinto da Costa e dos Alberto João vai intoxicando um corpo dilacerado por epidemias de oportunismo, corrompendo as fundações sistémicas que nos deveriam mobilizar para o bem comum. Resta uma canalhocracia feita desse misto de empregomania e de subsidiodependência, borbulhagem que julgávamos banida pelo bom senso da experiência histórica.

Entretanto, a mais devota e milenária entidade produtora de usura do nosso quotidiano pós-revolucionário, inspirada pelos espirituais cilícios, demonstra como também nas obras divinas pode haver facciosismos por causa da conquista do poder, onde contam mais os lucros do que os metafísicos exercícios espirituais. Talvez porque, no longo prazo dos além do porta-moedas, estejamos todos mortos.

Mesmo o belo dos choques tecnológico-bancários dos “young urbans” capitaleiros acabou desfeito por uma avaria virosa no sistema informático. E o belo plenário que concentrou alfandegariamente um belo naco dos nossos donos do poder, a tal fina flor de uma plutocracia, que se aprimorou para as televisões, apenas permitiu um novo discurso do principal accionista do Benfica, que acabou por fazer belo negócio com aquela PT que impediu de ser anexada pelo Belmiro, bem como novas alegações facturadas dos feitores dos ricos que restam a esta pequena casa lusitana.

Uma assembleia bancária tornou-se assim em mais um evento “jet set”, ornada daqueles trejeitos que fazem sucesso na imprensa cor de rosa, que a pequena burguesia invejosa consome sob os toldos, à procura de um lugar mais ao sol na longa fila dos que ainda acreditam na ideologia do homem de sucesso. Resta o comité central da moção do homem de Fafe, onde brilha outro ex-político, convertido ao negocismo, confirmando como, em Portugal, o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido…

Resta concluir que toda a culpa nestes casos vai directa para o povão que continua a preferir ser consumidor e audiência desta publicidade enganosa e a ter a ilusão de ganhar algum com a consequente sociedade de casino, ambas instauradas pelo cacete ilusionista, onde a Maria da Fonte se transformou em hino oficial das visitas ministerais e o monopólio estadual dos jogos de fortuna e azar cabe a uma coisa, também estadual, mas que ainda conserva o nome de Santa Casa dita da Misericórdia. Amen…

Ago 06

Destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste

Há uma semana que estou nesta imaginada casa branca de telha portuguesa, neste sítio onde há pedaços de sombra, num pátio interior, bem algarvio, ousando esquecer estes restos de quem sou. Aqui, neste lugar de calma, há um largo da praça, um azul solar, um devagar, e sempre uma folha branca por onde peregrinar, especialmente quando a manhã vai nascendo e apetece o aconchego de uma árvore ainda verde, em pleno Agosto, para mais um dia de pedra calcinada. Aqui sou, mais uma vez, à espera que novo dia me desperte, neste ritual de estar sentado a escrever-me, aqui estou, à minha espera, viajando pelas memórias que me desperta a gente que passa no largo da praça. Tento cumprir a missão de todos os dias me pensar, de todos os dias me escrever, mesmo quando não o comunico aos irmãos leitores destes postais. Deixo que a fluidez lírica que me impregne, que este ambiente aquífero e arenosos das dunas e sapais estimulem a minha própria procura, feita de quotidianos exercícios espirituais e de certa “ratio studiorum” que nem por isso me fazem guerrilheiro da palavra, ao serviço de um qualquer colectivismo moral. Até porque as escamas de sal e de sonho que trago no corpo vieram da realidade destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste. Continuo sereno e difuso, anotando quem sou e procurando captar o sonho que me leva à escrita, neste escrever por ter de escrever, sem saber o que vai acontecer na linha que começo a escrever. Porque escrever-me à toa é procurar captar o manancial de signos e sensações que todos os dias vou resguardando na arca dos poemas por fazer. Confesso que neste bloguear continuo a ser abstracto demais para os caçadores de parangonas, mesmo quando peregrino pelas politiqueirices que me cercam e as quais tento enfrentar com o mínimo analítico do lume da razão, e com alguma imaginação criativa, dita lume da profecia (Padre António Vieira)

 

Ago 06

Lá vamos gaguejando e cientificando, levados, levados, não

Foi há poucos dias publicada uma entrevista do senhor ministro-presidente da Europa em matéria de ciência, e também supremo reformador das nossas universidades, que, do alto da sua vitória, nos manifesta que ainda está vivo o militante do verdadeiro e extremista socialismo científico, embora se presuponha que já deve ter abandonado as suas fúrias marxistas-leninistas. Verifico, contudo, que ainda conserva um restrito conceito de ciência que faz da ciência que diz praticar a única que merece o dom de arquitectónica, remetendo todas as outras para a categoria de ocultas servas dos professores pardais. As ideologias passam, as metodologias ficam.

Todo ele feito da tal ciência certa e do inequívoco poder absoluto, voltado para a vanguardista felicidade dos povos, continua a considerar que só existe aquilo que pode medir-se e que só é mundo o mundo que ele conhece. Daí que tenha a ousadia de determinar como paradigma apenas aquilo que se radica nas suas ideológicas raízes de despotismo teórico, aquilo que julga poder elevá-lo, de forma estruturalista, às culminâncias de um estadão decretino.

Até um anterior Prémio Nobel lusitano é determinado como simples acaso da área médica. Daí que, por mim, fomule um simples desejo: que deixe em paz criativa os portugueses à solta que procuram aquela imaginação politicamente científica que estimula todos os que pensam comunitariamente de forma racional e justa. Desses que, para serem científicos, não têm que vestir-se daquelas fatiotas pós-modernas que se iludem em captar as luzes das pretensas nações polidas e civilizadas.

Essas perspectivas, mui axiomaticamente-dedutivas e mui sintético-compendiárias, à boa maneira das deduções cronológico-analíticas dos livros únicos, podem conduir ao terrorismo de uma decepada razão que, se aliado ao decretino do Estado, acaba por reduzir-se a mais uma ideologia oficial. Especialmente quando não compreende que a razão inteira é uma razão complexa, axiológica e normativa, plena se símbolos, de imaginação e com muito lume da profecia. Não deixemos cair nos bolsos rotos da conspiração laboratorial dos batas brancas esses pretensos desperdícios que até fazem, da república, a comunidade das coisas que se amam.

Ago 06

Destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste

Há uma semana que estou nesta imaginada casa branca de telha portuguesa, neste sítio onde há pedaços de sombra, num pátio interior, bem algarvio, ousando esquecer estes restos de quem sou. Aqui, neste lugar de calma, há um largo da praça, um azul solar, um devagar, e sempre uma folha branca por onde peregrinar, especialmente quando a manhã vai nascendo e apetece o aconchego de uma árvore ainda verde, em pleno Agosto, para mais um dia de pedra calcinada.

Aqui sou, mais uma vez, à espera que novo dia me desperte, neste ritual de estar sentado a escrever-me, aqui estou, à minha espera, viajando pelas memórias que me desperta a gente que passa no largo da praça. Tento cumprir a missão de todos os dias me pensar, de todos os dias me escrever, mesmo quando não o comunico aos irmãos leitores destes postais.

Deixo que a fluidez lírica que me impregne, que este ambiente aquífero e arenosos das dunas e sapais estimulem a minha própria procura, feita de quotidianos exercícios espirituais e de certa “ratio studiorum” que nem por isso me fazem guerrilheiro da palavra, ao serviço de um qualquer colectivismo moral. Até porque as escamas de sal e de sonho que trago no corpo vieram da realidade destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste.

Continuo sereno e difuso, anotando quem sou e procurando captar o sonho que me leva à escrita, neste escrever por ter de escrever, sem saber o que vai acontecer na linha que começo a escrever. Porque escrever-me à toa é procurar captar o manancial de signos e sensações que todos os dias vou resguardando na arca dos poemas por fazer.

Confesso que neste bloguear continuo a ser abstracto demais para os caçadores de parangonas, mesmo quando peregrino pelas politiqueirices que me cercam e as quais tento enfrentar com o mínimo analítico do lume da razão, e com alguma imaginação criativa, dita lume da profecia (Padre António Vieira). É por isso que tenho lido algumas coisitas publicadas pela imprensa e que analisarei nos próximos postais, desde a entrevista de José Luís Sanches sobre a avençologia, à teoria da traição da zitomania, coisas que foram compensadas pela radicação patriótica de António Arnaut, sinais de crise desta coisa chamada regime…

Ago 04

Lá vamos gaguejando e cientificando, levados, levados, não

Foi há poucos dias publicada uma entrevista do senhor ministro-presidente da Europa em matéria de ciência, e também supremo reformador das nossas universidades, que, do alto da sua vitória, nos manifesta que ainda está vivo o militante do verdadeiro e extremista socialismo científico, embora se presuponha que já deve ter abandonado as suas fúrias marxistas-leninistas. Verifico, contudo, que ainda conserva um restrito conceito de ciência que faz da ciência que diz praticar a única que merece o dom de arquitectónica, remetendo todas as outras para a categoria de ocultas servas dos professores pardais. As ideologias passam, as metodologias ficam. Todo ele feito da tal ciência certa e do inequívoco poder absoluto, voltado para a vanguardista felicidade dos povos, continua a considerar que só existe aquilo que pode medir-se e que só é mundo o mundo que ele conhece. Daí que tenha a ousadia de determinar como paradigma apenas aquilo que se radica nas suas ideológicas raízes de despotismo teórico, aquilo que julga poder elevá-lo, de forma estruturalista, às culminâncias de um estadão decretino. Até um anterior Prémio Nobel lusitano é determinado como simples acaso da área médica. Daí que, por mim, fomule um simples desejo: que deixe em paz criativa os portugueses à solta que procuram aquela imaginação politicamente científica que estimula todos os que pensam comunitariamente de forma racional e justa. Desses que, para serem científicos, não têm que vestir-se daquelas fatiotas pós-modernas que se iludem em captar as luzes das pretensas nações polidas e civilizadas. Essas perspectivas, mui axiomaticamente-dedutivas e mui sintético-compendiárias, à boa maneira das deduções cronológico-analíticas dos livros únicos, podem conduzir ao terrorismo de uma decepada razão que, se aliado ao decretino do Estado, acaba por reduzir-se a mais uma ideologia oficial. Especialmente quando não compreende que a razão inteira é uma razão complexa, axiológica e normativa, plena se símbolos, de imaginação e com muito lume da profecia. Não deixemos cair nos bolsos rotos da conspiração laboratorial dos batas brancas esses pretensos desperdícios que até fazem, da república, a comunidade das coisas que se amam.

Ago 04

Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal

Por aqui continuo. Há barcos que passam, velas que voam. Onda que vai e vem. Há concheiros, algas, lesmas de mar e uma sopa de verde que pisamos antes de entrarmos no além profundo da nostalgia do ventre mãe do oceano donde nascemos. Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal. Há bicos de barco, lisas dunas, vapor que pinga e muros de canas que nos defendem do vento que ameaça. E não dói quem sonho. Rachei a modorra e já revoo. Sou capaz de sentir o todo de uma impressão sem analiticamente descrever pássaros. Sabemos dunas, sal e sol, e barcos que nos levam para a outra margem de quem somos. Sabemos todas as viagens donde partimos, a circum-navegação de quem não chegou ao fim, e as tormentas de quem morreu tentando. Porque há sinais de vento que nos enfunam as telas de pano cru onde bordámos os signos da boa esperança.
Sabemos mar e a linha do horizonte que nos dá o espaço inteiro de uma vida por cumprir. Sabemos mar. E presos em seu vaivém, dia a dia continuamos marés e ritmos lunares. Sabemos mar e partimos sempre em cada proa que vai passando ao largo. Porque apetecem sempre viagens, novos sítios de procurar, para não mais voltar. Sabemos mar e além-mar. E apetece não regressar. Quando quem somos se faz exílio procurado, quando quem somos é posto à solta, livre das teias do ter de ficar e sem o desterro do ostracismo. Podemos ser o sonho de quem semeia nomes de vento em plena terra de ermamento. Há a doce lonjura de um verso que dormita, um sonho que o sono adormecia, o voo de um tempo sem tempo que me voltou a dar distância. Longe e perto, na recta linha por onde fujo, na longa noite me perco à procura de manhã. Sabemos mar, praias abertas, fúria de vento, rios que procuram sua foz. Sabemos mar. Seremos mar. Há muitos sinais que nos trazem o azul, a síntese da cor do universo. E podemos sempre seguir o rasto da gaivota e navegar o mar sem fim, dito assim em português à solta. Somos porque fomos. E só assim seremos.