Ago 26

Velhos quesitos aqui publicados há anos em forma de memória viva

Ao mui ilustre e abstracto leitor*

Sempre gostei que comigo entrassem em contradita, pelas ideias a que me dou e pelas quais me manifesto e não pelos fantasmas que alguns dizem que tenho, só porque não penso aquilo que convém, quando sinto ter o dever de pensar, mesmo quando o professo em contra-corrente.

Por isso não me amedrontam os adjectivos diabolizantes dos pequenos inquisidores que caçam nas névoas dos bruxedos.

Penso o que tenho o dever de pensar e cumpre-me dar disso testemunho, mesmo que corra o risco de estar em minoria.

Porque ter coragem é não contabilizar a opinião quantitativa e não procurar saber de que lado sopra o vento. Pensar é resistir, é ter a coragem de sermos minoria, assumindo a atitude daquele que, para estar de acordo consigo mesmo, tem, por vezes, que estar em desacordo com todos os outros, não para “épater le bourgeois”, mas para servir a comunidade, mesmo que a comunidade o não reconheça no seu próprio tempo de vida.

Pensar é, para esses seres semoventes, entoar uma espécie de música celestial que só influenciaria os habitantes da utopia. Porque, aqui e agora, o dinheiro que compra o poder e a inteligência, o dinheiro que dobra as vontades, começa a tornar-se no valor predominante.

Escrever é assumir o risco de viver, de estar sempre à beira de um abismo onde, muitas vezes, não existem corrimões nem as habituais redes protectoras que nos sustenham a queda, como é habitual neste país de meias tintas, entre a esquerda menos e a direita envergonhada, onde quem é do centro, muitas vezes, não passa de um jogo de soma zero, resultante da mistura da esquerda mais com a direita menos, ou do mais direita com o menos esquerda, como sempre foi a preferência dos vários situacionismos, onde sinais contrários não conseguem disfarçar a existência da mesma substância.

Nós e aquilo que temos a ilusão de criar não passamos da poeira de um caminho que nossos vindouros hão-de calcorrear. Importa ter a humilde consciência deste dever. De sermos parcela da longa corda de transmissão de um sinal de sonho. E é nesta postura de serviço que conquistaremos a eternidade, mesmo que não o registem em nota de pé de página.

No intervalo, apenas seremos compreendidos pelas almas gémeas que servem connosco o mesmo objectivo desta procura colectiva. Mesmo que não surjam anónimos sinais de irmandade. Quem tem a consciência de assim estar vivo e sentir o silêncio dos que, em fidelidade, comungam connosco do mesmo ideal de vida, apesar de se poder sentir só, sabe, intimamente, que não está só e que muitas outras mãos nos querem dar as suas mãos de escrita.

O elemento mais marcante do salazarismo sempre foi a hipocrisia. Pior: o paradoxo de se fazer um discurso contra a hipocrisia a fim de se fazer ainda mais hipocrisia. Isto é, teorizando-se a necessidade da autenticidade, faz-se o exacto contrário do que se vai proclamando.

10º

E agora tudo se disfarça com as mãos papudas do salamaleque de salão, com a cadeirinha de coiro preto, sacanamente posta para o tolo do gabiru julgar que o assassinato pode ser gratificante. E tudo sempre na solenidade ritual de gabinetes grandiosos, onde a luz esguia dos candelabros, o óleo frio dos quadros épicos e o retorcido das escrivaninhas, nos parece transportar para a delícia cultural dos livros de carneira cheios de bicho, cheirando ao mofo dos inquisidores da treta.

11º

O chefe supremo tem sempre as mãos higienicamente desinfectadas, porque ele apenas é mais um desses honestos que, infelizmente, tem que gerir uma plebe de intermediários desonestos, desde a bufaria dos serviçais que esperam ser promovidos, à minoria dos jagunços violentistas, numa rede que só é eficaz se o vértice continuar a parecer o exacto contrário daquilo que o conjunto é, na realidade.

12º

A rede de dependências e medos vai continuar enquanto não assumirmos que em situações pós-totalitárias e pós-autoritárias, mesmo depois de se eliminarem os aparelhos visíveis da repressão e da corrupção, permanecem os subsistemas de medo e de venalidade que os mesmos geraram.

13º

Pior: abundam os micro-autoritarismos sub-estatais e esses modelos de temor reverencial podem aí ser substancialmente agravados e fomentados, principalmente quando as pequenas e os pequenos chefes do bando actuam em legítima defesa, em épocas de transição ou de crepúsculo.

14º

Neste regime de pequenos feudalismos em que se enreda o oportunismo lusitano, o longo prazo do combate por ideias nunca conseguirá ter qualquer espaço de comunicação com o frenesim do mediático. Os candidatos com mais sucesso, silenciando irreverentes, souberam criar uma espécie de sociedade de Corte, tecendo uma rede de fidelidades e simpatias, tal como ilustres gestores do presente aparelho de Estado subiram ao poder gerindo adequadamente o saco azul, vermelho, preto ou amarelo dos pareceres e avenças.

15º

Por outras palavras, o quintal português da feira das vaidades é estreito demais tanto para a autonomia da sociedade civil como até para efectiva expressão da liberdade de pensamento. Os grandes controleiros deste pequeno “big brother” devem ser, aliás, os primeiros que se riem com os habituais invocadores da chamada teoria da conspiração. E isto porque a estreiteza do nosso espírito capitaleiro produziu uma lógica de campanário na nossa principal aldeia, a que damos o nome de Lisboa.

16º

Quando a política de campanário nos vai fragmentando em facciosismos e pequenas zangas de comadres e compadres, onde não faltam os potentados dos pequenos e velhos padrinhozinhos. Quando o futuro se confunde com cinematográficos regressos ao passado e quase todos se diluem na procissão carneiral dos colectivismos morais, importa reparar que à míngua de pátria é o povo comum que começa a perder a vontade de sorrir.

17º

Quando é a esperança colectiva que vai definhando, face à falta de sentido cívico e ao vazio de justiça, começamos a notar que surge uma sociedade de ouriços cacheiros, onde em vez do individualismo da criatividade pessoal e das boas sociedades de egoístas, começa a marcar ritmo de desespero o “vê se te avias” e a moral do sapateiro de Braga, onde tanto não há moralidade como ninguém come nada.

18º

O próprio discurso sobre o bem comum foi esfacelado e usurpado por vendedores de banha da cobra que o encomendaram aos assessores honestos que recrutaram no mercado do proletariado intelectual. Os tais para quem a moral é uma lei que eles impõem aos outros, mas de que se pensam dispensados pela graça do poder, esquecendo-se que não podem invocar tais normas de autonomia os que são exemplos de falta de autenticidade. E não nos parece que os anunciados candidatos à reflexão presidencial tenham suficientes saudades de futuro para provocarem o urgente acordar deste nebuloso letargo em que nos vamos enrodilhando.

19º

Este profundo estado depressivo em que nos deglutimos nada tem a ver com as tensões do tudo e do seu nada de anteriores crises colectivas, quando a alma colectiva ainda não era pequena e nos entusiasmavam os sonhadores activos. Agora, vive-se uma espécie de definhamento com barriga cheia e luxo à farta, com que vamos alimentando a ilusão de ainda sermos uma comunidade nacional.

20º

A mentalidade típica de certos donos do poder está em que entre a teoria e a prática tudo é teoricamente prático e tudo é praticamente teórico, porque, na prática a teoria é outra. Mas, como pela boca morre o peixe e estamos na terra do sapateiro de Braga e de Frei Tomás, se uns logo observam que ou há moralidade ou comem todos, muitos outros logo reconhecem que bem pregas Frei Tomás.

21º

Enquanto estes pálidos e pretensos taumaturgos continuarem nos pedestais do seu ministerial despotismo, não são possíveis gestos com sentido. Eles prostituíram a palavra e profanaram os símbolos. Pujantes em seu efémero julgam-se donos da eternidade. E se alguns dos que vivem como pensam podem volver-se em agnósticos, muitos outros ainda continuam a semear a esperança dos desesperados.

22º

O proibicionismo caceteiro e a persiganga, só porque assentam nos donos do subsidiável e do inspeccionável e que nem sequer têm que registar interesses e acumulações, podem continuar a inspirar muitas transpirações serôdias, inumeráveis cortes de salamaleques, lisonjas e engraxamentos, mas acabam por contribuir para o nosso fenecer sem honra nem humildade.

23º

O decretino e o mediático podem ter, no curto prazo, a razão da eficácia, mas nem por isso se livram de poderem ser um clamoroso erro no médio prazo e até uma estupidez destrutiva no longo prazo. De boas intenções está o inferno do pseudo-reformismo cheio

24º

Não há meio de compreenderem que a história, mais do que o produto da intenção de certos homens que dizem deter o monopólio das boas intenções, é, sobretudo, o produto da acção dos homens livres. A história é sempre uma co-criação de homens livres e raramente é detida pelo caixilho teórico dos que apenas pensam que pensam.

25º

O dominador sempre conseguiu controlar as esperanças e domar as ilusões, através do magistral uso do chicote e da cenoura, usando apenas o primeiro de forma selectiva, de maneira a liquidar as cabeças que se assumem como alternativas oposicionistas.

26º

A cultura imperial-otomana que nas amarfanha, pintando-se de bom pai tirano, sempre soube manipular de forma magistral o pão e o circo, desde a jantarada à custa do dinheiro do contribuinte, às sucessivas farras e guitarradas, para que a rapaziada se embebede e não cuide da chefia da cidade.

27º

E neste ambiente de acrítico louvaminheirismo continua a ser pecado produzirmos simples farpas que ousem sair da mediania estupidocrática dos produtores de hossanas nas alturas aos contadores de histórias que ocupam as chefias.

28º

Porque ninguém ousa dizer em voz alta, mesmo sem berros, o que todos vão comentando pelo sussurro, sobre a total inutilidade de instituições que, sem ideias, apenas servem de corrimão para gentes viciadas em protagonismos balofos de falso mediatismo, apesar de as cortes se emprenharem em ilusionismos activistas

29º

Ainda há instituições que continuam a ser espaços infradomésticos de falso paternalismo, porque ingloriamente dependentes de certos capatazes e dos respectivos fiéis. E nesse universo de cinzentismo pós-totalitário, quem se assume da oposição quase parece que comete um pecado, porque os donos e senhores da coisa logo dizem que monopolizam o conceito de bem institucional, considerando os divergentes como dissidentes a abater. E assim podem sobreviver, para além do prazo de validade, sistemas imperiais de gestão, marcados pela arendtiana categoria do governo dos espertos, onde se manipula a legalidade, conforme o uso que dela podem fazer os espiões da Razão de Estado. Os quais nem sequer alguma vez compreederam o mínimo denominador comum da civilização do Estado de Direito.

30º

A cultura da dependência, gerada pela estreiteza de vistas do paroquialismo balofo e pelo charlatanismo dos piratas com chapéu de coco, que confundem a palavra com a demagogia, apenas afina o delírio de um carreirismo cobarde.

*As trinta citações que faço são retiradas deste blogue. Têm todas cerca de três anos de emissão. Qualquer coincidência deste passado-presente com a falta de saudades de futuro é para quem quiser enfiar a carapuça.

Ago 26

O acervo

O acervo, começado a construir em 2000 e já depois de ter deixado de poder receber actualizações a partir de 2003, tem sido considerado um dos melhores e mais completos repositórios de dados políticos sobre o século XIX e XX portugueses (aliás, basta comparar com os projectos concorrentes, para verificarmos como a coisa até foi baratinha e deixou algum rasto…). Os testemunhos em inúmeros portais e obras científicas, bem como as qualificações de eminentes especialistas e revistas da especialidade são inequívocos. Verifica-se agora que o apagão, sem qualquer cuidado nem quanto a redireccionamentos, foi objecto de negligente gestão ou, o que seria mais grave, de dolosa violação dos princípios constitucionais de aplicação directa quanto à protecção da liberdade académica e do direito à memória.

 

 

Tudo aconteceu pela calada das férias e não parece que a desculpa de eventuais quebras de “links” sejam satisfatórias, depois da vigorosa reacção da blogosfera. Nota-se, objectivamente, que os serviços ditos públicos, principalmente de universidades ditas públicas, não podem apagar de um servidor público essa referência, mesmo que se desculpem com a ileteracia informática ou com os serviços a entidades empresariais de vão de escada ou a agentes pagos a recibos verdes.

 

 

O nome “utl” (Universidade Técnica de Lisboa) e o nome “pt” não podem carimbar graves erros técnicos ou dolosas violações da Constituição. Exige-se a imediata reposição da ofensa à liberdade e que os poderes públicos responsáveis pela aplicação das leis constitucionais sobre a liberdade de aprender e ensinar garantam um sistema de protecção de dados e do património cultural, principalmente pela manutenção em rede destes investimentos culturais. O pedido de desculpas ou a promessa de mais um inquérito não passam de argumentos esfarrapadas perante a ofensa praticada ao próprio nome da escola em causa.

 

Por outras palavras, o limpamento ordenado foi qualificado como avaria técnica dos pretensos saltos tecnológicos e a defesa dos direitos da memória foi reencaminhada para outro braço anónimo do mesmo “big brother”, uma coisa que tanto pode ser uma oficina de vão de escada que recebe ordens do chefe de repartição, como um qualquer recibo verde que pode deixar de ser pago caso não se obedeça ao adjunto do subchefe do chefe, ao melhor estilo daquilo que Hannah Arendt qualificou como “governo dos espertos”, em aliança com o “domínio perpétuo do acaso” e do senhor “ninguém”.

 

 

Entretanto, o “big brother” vai dizendo: eu sou Portugal, eu sou a República, eu sou o Estado, eu sou a Universidade, eu sou a Escola, eu sou a mudança e as quebras de “links” são negligência e não dolo, nem sequer eventual. Logo, mesmo que a negligência gere cessantes homicídios culturais, a culpa continua solteira. E nada melhor esperar que a justiça lentamente mate mesmo a liberdade.

 

 

Por isso, continuarei a resistir. A liberdade não tem férias nem fins de semana. Obrigado, blogosfera! Viva a república universal das pessoas livres e da consequente sociedade civil internacional, enquanto não eliminarem os “links” e o espaço nos servidores, ao serviço de um pretenso pensamento único. Reparo, contudo, que sou um privilegiado: professor catedrático, subdecano da instituição, com alguma voz. E que conheço os meandros dos pré-totalitarismos, com algumas provas prestadas.

 

O que está a acontecer não é mera vingança. É meticulosa repetição da velha estratégia do maquiavelismo clássico. Se eles até decapitam quem não se submete à corte, todos os outros se moldarão sem necessidade de repressão, gerando-se uma maioria de cobardes, sobre a qual será mais fácil o exercício do unidimensional rolo compressor. Daí a táctica do salame e das correias de transmissão, para que o rebelde ou o dissidente possa ser qualificado como doidinho pelo pelourinho da paz dos cemitérios.

 

 

Como professor, não é a minha pessoa que está em causa. É o exemplo que devo dar. Aliás, ainda há dois anos, o “big brother” ainda me ofereceu o poder de carregar no botãozinho da campainha com que se liquidam mandarins no exótico ou na vizinhança. Recusei. Não lhe reconheci autoridade para me dar poderes que não são dele. Eu sei resistir. Não sei se as instituições que eles capturaram já o podem fazer sem o exílio dos homens livres.

 

Não quero agora invocar testemunhos da “Revista História” de Fernando Rosas, bem como as centenas de citações científicas que o arquivo agora apagado têm suscitado. Basta um saltinho à Google e a contagem de 11 800 citações. Repito: onze mil e oitocentas citações. Num tempo em que a ciência se mede também quantitativamente pelo serviço público, apenas anoto a histeria da persiganga.

 

 

 

Deixo o registo destas chaves de acesso a quem, hoje ou amanhã, se queira dedicar a viajar pelos kafkianos processos da nossa liberdade académica em tempo de muitos Pilatos.

Adelino Maltez sobre o apagão «bárbaro» do CEPP

«Querem criar um ambiente de servidão voluntária no País» 

Na sequência da eliminação dos arquivos do CEPP — entretanto repostos —, Adelino Maltez, fundador do site, refere no seu blogue que estamos perante um ataque aos homens livres do País e que, caso não regressem os arquivos para consulta pública irá agir judicialmente contra o Estado
Ana Clara
Porque os donos do poder desta secção da universidade eliminaram dos arquivos de consulta pública o Centro de Estudos do Pensamento Político (CEPP), isto é, 183MB com 12 mil ficheiros e meio milhão de entradas. É desta forma que José Adelino Maltez, fundador do «site», Professor Catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), denuncia o apagão daquele que é considerado «o melhor arquivo» de história política portuguesa contemporânea «online», www.iscsp.utl.pt/ceppp — e dos ataques constantes aos homens livres deste País.  

12 mil ficheiros apagados

Adelino Maltez salienta que o Centro de Estudos do Pensamento Político, constituído em 2000, por si e por mais dois estudantes, atingiu «a quantia de 183 MB e 12 mil ficheiros e com mais de 11800 citações em motores de pesquisa na Internet. «Além disso, faz ainda parte do currículo oficial do Ministério da Educação, é “livro” de consulta na universidade de Luanda, apoio académico no Brasil e tem tido recepções críticas na Revista de História», informa.

Recorda que, pelo meio, em 2003, «os patrões» da sua universidade — o ISCSP — «não quiseram as duas pessoas que trabalhavam comigo, tudo, porque eram, alegadamente, esquerdistas e não permitiram a continuidade de tal investimento ». «O site ficou inactivo mas apenas em termos de actualizações. Contudo, ficou no servidor porque era um projecto público, pago com dinheiros públicos e tinha que estar alojado no servidor», argumenta, acrescentando que, ele próprio o actualizava — e pagava as custas do seu bolso. 

«Chefe da situação não gosta de mim» 

O Professor Catedrático lembra que «estamos a falar de um caso grave que se está a passar numa escola pública e que por acaso se chama Universidade Técnica de Lisboa». «Recentemente decidiram não gostar de mim — uma das vozes da oposição — e a verdade é que houve um professor bibliotecário nomeado que iria reformular o site mas a primeira coisa que fez foi apagar os dados do CEPP no servidor», denuncia.

«Como cidadão português, obviamente que não me sinto bem. Salvaguardei os dados para salvar o património cultural. Acho gravíssimo que um burocrata qualquer com empresas de “outsourcing” ou funcionários a recibo verde, que não têm responsabilidade sequer disciplinar de um funcionário público, usurpem princípios e bens públicos tão facilmente», lamenta.

E questiona: «se fazem isto a um Professor Catedrático, coordenador das áreas científicas de Relações Internacionais e de Ciência Política, o que é que não fazem a um desgraçado de um assistente ou de um monitor?».

Recorda que compete ao Estado português e aos serviços públicos «o dever de dar o exemplo»: «tenho obrigação moral de dizer, perante os meus colegas que um Professor Catedrático tem que dar o exemplo. O exemplo de não ter medo porque a pior coisa que pode acontecer num País é não haver homens livres. E o exemplo deve vir de cima».

E acusa: «o que certos donos do poder querem é criar um ambiente de servidão voluntária para sermos todos uns escravos doces». E sublinha que «a culpa dos autoritarismos, totalitarismos e compadrios é de não haver revolta. Se conseguirmos espremer, gota a gota, cada um dos escravos que temos dentro de nós, seremos homens e mulheres livres».

«Truque do pré-totalitário em nome da técnica»

Afirma que, neste caso concreto, «está em causa a Universidade Técnica de Lisboa — a que pertence o meu Instituto — que é, curiosamente, a matriz da técnica e da informática e situações como esta não podem repetir-se». Todavia, lembra que «casos como este acontecem em todo o lado na Função Pública»: «estamos a afastar as competências e a criar os subservientes».

E vai ainda mais longe: «como é que garantimos a liberdade académica de ensinar e aprender e como é que a lei garante a manutenção em liberdade de consulta universal no arquivo informático? Estamos a falar de um caso que seria igual a porem lixívia em ¾ da Torre do Tombo ou fazerem arder uma estante de livros de uma biblioteca pública».

Maltez frisa que o CEPP «era essencialmente um site de memória política do século XX. Aquilo não é de ninguém, mas sim de 100 anos de história. E eu resistirei até à última gota de liberdade académica».

Por tudo isto Maltez garante que vai apresentar queixa no DIAP. Contra quem? À pergunta, responde peremptoriamente: «contra o Estado. Tudo, porque a lei portuguesa tem algumas lacunas na defesa destes modelos e na reposição imediata da legalidade».

«O que estão a fazer é o habitual truque do pré-totalitário e, em nome da técnica, querem obrigar alguém a ser servil. Eu não o serei», conclui, sentindo-se envergonhado «com este colectivismo de seita em que a culpa morre sempre solteira».

Adelino Maltez diz que antes de denunciar o ataque ao CEPP, comunicou o sucedido ao reitor do ISCSP, e pediu uma audiência, marcada para a próxima semana. Entretanto, o presidente do Conselho Directivo do ISCSP vai instaurar um inquérito com eventuais consequências disciplinares a Maltez, na sequência das denúncias sobre a destruição do arquivo «online» do CEPP e da eventualidade, ponderada por Maltez, em recorrer ao Departamento de Investigação e Acção Penal.

Resta ainda acrescentar que, à hora de fecho desta edição, os arquivos do CEPP já tinham sido repostos.
Em Caixa
Adelino Maltez: um homem livre!

José Adelino Maltez, conhecido Professor Catedrático e politólogo, nasceu em Coimbra e foi na cidade dos estudantes que se licenciou em Direito, entre 1969 e 1974. Iniciou a actividade docente como Assistente da Faculdade de Direito de Lisboa, de 1977 a 1985, onde colaborou no âmbito das cadeiras de História das Instituições e de História do Direito. Actualmente docente no ISCSP, foi nesta escola que foi assistente de Adriano Moreira no âmbito das cadeiras de Ciência Política, Doutrinas Políticas e Sociais e Teoria das Relações Internacionais.

Doutorado em 1990 com uma dissertação sobre «O Ensaio sobre o Problema do Estado», Maltez é dos poucos homens «livres» deste País e que pouco ou nada se importa com o que os outros dele pensam, como afirmou ao nosso jornal. O homem livre, no pensamento e nas ideias, vive, agora, na pele, o sabor amargo da destruição de anos de trabalho e daquele que é considerado um dos maiores arquivos de pensamento político do País, disponível «online» até há poucos dias.
Foto Maltez — Partilha — Pasta Adelino Maltez, com a legenda:
Adelino Maltez diz que resistirá «até à última gota de liberdade académica»