Confesso que enjoei de tudo e que me dava bem mais gozo poder ler as memórias livres dos nossos banqueiros sobre financiamentos partidários e a cunhocracia, nomeadamente pelo emprego que deram a ex-ministros da esquerda e da direita. Porque a iluminação dessas zonas obscuras da nossa sociedade de Corte, entre os grandes clubes da futebolítica e o poder banco-burocrático, seria bem mais fecunda para um repúblico do que saber dos pormenores rituais dos grupos místicos, das clandestinidades dos partidos e movimentos políticos, ou dos processos de autogestão de espiões, que marcaram as antigas pides e enredam os recentes serviços secretos. Seria estimulante podermos navegar na psicologia oculta de outras grandezas e misérias dos protagonistas destas aventuras de serralho, que ensandeceram os últimos tempos da pátria. Sem esses pormenores, não será possível acedermos à íntima biografia colectiva destes restos de Portugal que se vão submetendo para sobreviverem, mas já sem paradigmas mobilizadores que nos levem a querer lutar, para podermos viver com inteligência e com honra. A recente crise hipotecária norte-americana que, ainda ontem, mostrou como na Bolsa de Lisboa se continua a comer gato por lebre, apenas prenuncia a vestimenta com que se irá ornar a nossa próxima crise política. O próximo sobressalto, que nos poderá fazer despertar deste torpor cortesão, não virá de dentro deste deserto moral, mas será importado à força. Não como o Ultimato, a Grande Depressão ou uma guerra internacional, mas pelo simples levantar de asas de uma qualquer borboleta noutro qualquer exótico deserto, que aqui provocará o “tsunami” de um simples exame de consciência. A ideia de Portugal, perdida nas brumas da memória, já não tem heróis que façam, da história, a urgente mestra da vida. O Estado-Espectáculo transformou-se numa encenação de frios cadáveres que vão procriando telenovelas de denúncias anónimas à Procuradoria-Geral da República. Não há o calor dos mitos que espontaneamente nos aqueçam pelos lumes da profecia. Nem suficientes sistemas organizacionais que nos ordenem para a complexidade do lume da razão. Os actores visíveis da política, da economia, da moral e da própria religião passaram a sacristães que perderam o sentido dos gestos. Somos, cada vez mais, um “smog” provocado pela poluição de uma pretensa modernização importada que nos faz crescer em hipermercados e lojas dos trezentos, aumentando o consumo de bugigangas, do recurso ao endividamento bancário e do número de acções de fotocópia em tribunal, mas que não nos fizeram crescer por dentro. Em produtividade, em brio profissional, em moral cívica, em amor patriótico, em autonomia educativa e nessa estrela do norte de qualquer república, a que se deu, desde sempre, o nome de justiça, a verdadeira síntese das virtudes comunitárias. E nunca é deste simulacro de nevoeiro que regressa o necessário D. Sebastião da regeneração colectiva… Todos teremos um pós-moderno monumento de tijolo e caliça a um anónimo naufrágio que apenas poderá, um dia, ser arrumado nesse arquivo de obras em segunda mão que um futuro berardo meterá no próximo mega-armazém da cultura enlatada. Mais de oito séculos e meio de hiper-identidade produziram este vazio de alma onde os falsos sebastiões científicos vão comendo a sopa e dando pancada nas mãezinhas…