Entrevista sobre o estadão

- Como se explica esta aparente contradição entre a preferência pelo sector público e o voto maioritário em partidos políticos que imprimem nos seus programas as privatizações?

Sempre foi muito difícil ser liberal em Portugal… Somos o país mais à esquerda da Europa, onde até a direita é social-democrata e os empresários vivem no conúbio devorista que gerou a casta bancoburocrática de que falava Antero de Quental, levando a esta tendência de termos negocistas dominantes que gostam da nacionalização dos prejuízos e da rivatização dos lucros, como dizia o socialista da 1ª República, Ramada Curto. Aliás, quando dissemos privatizar, fizemos crescer indirectamente o aparelho de poder através dessas entidades de economia mística do outsourcing, pasto dos clientelismos e dos nepotismos. Por outras palavras, ainda domina a legitimidade patrimonialista do fedualismo e da sua lógica da compra do poder, ou corrupção, e o povo, ao considerar o Estado um estrangeiro que nos coloniza, tem tendência para a moral do sapateiro de Braga, segundo a qual quando não há mesmo moral, todos têm de comer à mesa do orçamento, porque quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão. Até Sócrates já invocou leis a que chama Robin dos Bosques, esquecendo que ele assume o papel de “sherif” do rei estranho que ocupou a legitimidade racional-normativa do Estado de Direito…

 

- A inclinação pelas nacionalizações, pelo reforço do papel do Estado, é ditada pelas circunstâncias economico-financeiras actuais ou faz parte da ideologia política do povo português?

Os portugueses estão marcados por dois tradicionais colectivismos morais: o da Igreja e o dos grupos que a enfrentaram sob as formas formas ditas da esquerda, com especial destaque para o último movimento social alternativo, os comunistas, dois irmãos-inimigos, onde quem acede ao grupo pena que entrou no céu da terra de uma superioridade moral. Todos os que defenderam uma solução alternativa, de reforço da autonomia moral do indivíduo como cidadão, contra os poderes, nunca tiveram tempo para o enraizamento de uma solução educativa de autonomia da moral como ciência dos actos do homem como indivíduo e das consequentes autonomias dos grupos que estes geram e da própria república entendida como algo que vem de cima para baixo, da comunidade para o aparelho de poder. Sermos herdeiros do Marquês de Pombal, da viradeira do Pina Manique e do autoritarismo salazarista gera esta contradição dos governantes que se assumem como bombeiros pirómanos, lançando dinheiros dos contribuintes, ou impostados, para cima dos problemas, sem repararem que o velho Estado a que chegámos já era, porque já somos controlados por super-estadualidades como as da União Europeia e do FMI que, não tarda, que entregam a governança lusitana a um controleiro abstracto em regime de pilotagem automática, dado que atingimos o nível de entropia da governança sem governo, mas com muito estadão.

Comments are closed.