Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal

Por aqui continuo. Há barcos que passam, velas que voam. Onda que vai e vem. Há concheiros, algas, lesmas de mar e uma sopa de verde que pisamos antes de entrarmos no além profundo da nostalgia do ventre mãe do oceano donde nascemos. Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal. Há bicos de barco, lisas dunas, vapor que pinga e muros de canas que nos defendem do vento que ameaça. E não dói quem sonho. Rachei a modorra e já revoo. Sou capaz de sentir o todo de uma impressão sem analiticamente descrever pássaros. Sabemos dunas, sal e sol, e barcos que nos levam para a outra margem de quem somos. Sabemos todas as viagens donde partimos, a circum-navegação de quem não chegou ao fim, e as tormentas de quem morreu tentando. Porque há sinais de vento que nos enfunam as telas de pano cru onde bordámos os signos da boa esperança.
Sabemos mar e a linha do horizonte que nos dá o espaço inteiro de uma vida por cumprir. Sabemos mar. E presos em seu vaivém, dia a dia continuamos marés e ritmos lunares. Sabemos mar e partimos sempre em cada proa que vai passando ao largo. Porque apetecem sempre viagens, novos sítios de procurar, para não mais voltar. Sabemos mar e além-mar. E apetece não regressar. Quando quem somos se faz exílio procurado, quando quem somos é posto à solta, livre das teias do ter de ficar e sem o desterro do ostracismo. Podemos ser o sonho de quem semeia nomes de vento em plena terra de ermamento. Há a doce lonjura de um verso que dormita, um sonho que o sono adormecia, o voo de um tempo sem tempo que me voltou a dar distância. Longe e perto, na recta linha por onde fujo, na longa noite me perco à procura de manhã. Sabemos mar, praias abertas, fúria de vento, rios que procuram sua foz. Sabemos mar. Seremos mar. Há muitos sinais que nos trazem o azul, a síntese da cor do universo. E podemos sempre seguir o rasto da gaivota e navegar o mar sem fim, dito assim em português à solta. Somos porque fomos. E só assim seremos.

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