Mar 11

Porque o Estado ocupou a república, para que a restauremos em regeneração, há que abolir a besta estrangeira que, desde o absolutismo, nos coloniza

Além da derrocada bávara dos leões, das mudanças de partido da irmã da sinhora que viveu com o patrão dos dragões, das confidências juradas pelo ex-presidente de um tribunal desportivo sobre quanto custava comprar árbitros, o país, desde que secou a fonte “Freeport”, não tem notícias e observa, orgulhosamente acompanhado, a presidencial visita do Zedu. Benvindo! Não digo que ele chegou no dia em que se comemorava o meio século de Dalai Lama no exílio, ou de tanta idade para a Barbie, o modelo das nossas senhoras de setenta anos, que tinham vinte quando ela nasceu…

 

 

Não quero que me digam que continuo um anarcodireitista, porque isso era com o Salvador Dali, que bem dizia ser “anarquista”, “pero” monárquico, numa complexidade a que continuo fiel. Não tenho suficiente narcisismo e, muito menos, uma centelha desse génio. Apenas uso um pouco do ácido da análise, para, comprometidamente, observar estas circunstâncias de tempo e de lugar e já nem posso dizer tudo o que sei, por causa dos muitos segredos de justiça processual que me sitiam.

 

Por outras palavras, se se torna impossível descrever todos os vermes com que dia a dia me obrigam a conviver, fico-me pelo categorial, concluindo que Portugal regressou ao seu normal anormal da permanecente crise, destes pequeninos em megalomania, isto é, com a mania das grandezas, mas sem viverem a grandeza da loucura que balouça entre o tudo e o seu nada. Nesta incerta decadência, onde paga o justo pelo pecador, muitos concebem a violência simbólica da palavra como a única saída para a crispação.

 

Porque murros, caneladas e bofetada é num futebol de árbitros corruptos, de presidentes apitados, de jogadores à espera de contrato melhor no adversário, onde a discussão pública tudo reduz ao facciosismo de leões, dragões e águias, com horas e horas de perlengas futebolíticas nos horários nobres das televisões e a que eu religiosamente assito, para descomprimir. Porque mandar um adversário para certo sítio que é a medida de todas as coisas, na nossa linguagem de revolta, tornou-se monopólio desses privilegiados deputadíssimos, onde nada fica registado em acta que apenas guarda os insultos bokassas. Porque o povo assim lhes segue o exemplo, sendo absorvido por essa clandestinidade que leva quase todos a terem que não viver como efectivamente pensam.

 

Eis a desvergonhada infuncionalidade em que jazemos, onde é cada vez maior a distância que vai da pregação das normas ao cumprimento quotidiano das mesmas, em termos de vivências. Onde o direito já não consegue conformar as condutas, porque a justiça deixou de ser a necessária força subversiva da realidade. A justiça já não é a estrela do norte da política e da economia, como todos os clássicos que pensaram a república proclamaram.

 

Pior do que isso: deixou de haver moral, porque o pensamento único do homem de sucesso, do tem razão quem vence, comprimiu a autonomia individual. Não apenas dos direitos, mas também dos deveres, daquele conjunto que nos permite alcançar a tal ciência dos actos dos homens como indivíduos, como sagrados indivisos, onde a máscara da pessoa tem de assentar no microcosmos que tem de seguir o paradigma da procura da perfeição. E se não há autonomias individuais, não podem existir autonomias dos grupos que as mesmas geram e torna-se impossível o pluralismo e magna autonomia societária da república. Logo, as regras são sempre heterónomas, passando-se à alienação do manda quem pode, obedece quem deve, onde o mais odioso acaba por ser o estatismo, desde o governamentalista ao do micro-autoritraismo sub-estatal, dependente da mesa do orçamento.

 

Porque o Estado-aparelho-de-poder usurpou a república, enquanto Estado-Comunidade, são eles que mandam, eles, os herdeiros do absolutismo, essse Estado estrangeiro que nos ocupou e nos vai colonizando. Que venha o presidente de Angola, nossa antiga colónia, observar como esta antiga sede de império voltou a ser colonizada. Observe, senhor Zedu, como alguns mandantes de ontem se comportam hoje como serviçais desse supremo valor chamado dinheiro. Observe e goze por dentro a sua vingança, sem necessidade de cumprimento dos ditames de Frantz Fanon, que esses apenas degolam guineenses narcotraficados. Mas guarde silêncio, porque este é de ouro. Porque cá já nem as pratas nos garantem o endividamento, como no tempo de Álvaro de Castro…

Mar 10

Nem Boulanger, nem João Franco e nada de tolices à Pimenta de Castro ou à Sidónio!

Antes de escrever este postal, revi, com cuidado, a entrevista de Medina Carreira a Mário Crespo, emitida ontem, no dia em que o rei fez anos, triste e preocupado, por não ter soluções para o país. O analítico foi demolidor: 48 milhões de euros por dia em endividamento; escolas, uma bandalheira; tribunais, quase na mesma; um governo que não é sensato, humilde nem competente; os partidos, casas de mulheres de má vida; etc. Foi até mostrado um quadro, onde víamos que a ditadura salazarista foi estatisticamente melhor que a presente e passada democracia. Porque, em números, voltámos ao crepúsculo da monarquia liberal.

 

Mas o ex-ministro de Soares disse bem dos primeiros anos do 25 de Abril, quando foi actor ministerial. Porque havia gente, ideias, país e esperança. Anunciou que este governo seria réu num futuro julgamento externo. Porque o dinheiro que vem de fora se esfuma, num ambiente onde os parvos são os que não ficam com dinheiro alheio. Porque estamos embebedados pela classe política. Porque os partidos querem ser um banco alimentar para se comer na manjedoura do Estado. Porque o voto não serve para nada. Porque em democracia não há soluções. Porque ninguém respeita os chefes hierárquicos na administração pública. Porque a colectividade não tem consciência dos problemas. Logo, viva o presidencialismo, à Pimenta de Castro e à Sidónio, um presidencialismo voluntário e democrático… chamando a isso Estados Unidos da América!

 

Ouvi. Mas ontem, na SIC, quase à mesma hora e em directo, quase com a mesma coincidência analítica nos subentendidos, não caía na tentação da pior emenda do que o soneto. Aliás, já fiz parte de uma casa partidária em projecto onde tudo se escangalhou por causa desse mesmo desespero de procura do presidencialismo. Até um ilustre catedrático fez um projecto de constituição nesse sentido, mas já largou a militância para fazer aquilo que que eu sei que ele sabe que eu sei, e que aqui não digo.

 

Quando o desespero nos invade, transformar o Boulanger em João Franco e confundir Washington com um major-professor, apenas nos adia o fim da política, quando chegar o intendente que suspende a praça pública e nos faz regressar à casa, dita “oikos” em grego. Onde há sempre um “oikos despote” e uma “oikos nomos”, a mera economia que se transforma na rainha das ciências sociais. Ou então, na versão latina, onde casa é “domus”, como um “dominus”, um dono. As questões política e económica têm a sua hierarquia, porque os problemas económicos apenas se resolvem com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas. Os problemas económicos são hierarquicamente inferiores aos problemas políticos e também precisam de soluções políticas. E nós inventámos a política para deixarmos de ter um dono…

 

A ilusão do cacete presidencial pode dar em Boulanger a fugir, ou em estação do Rossio em 1918, que é a repetição da esquina do terreiro do Paço de 1908, onde D. Carlos também caiu na esparrela de um presidencialismo de Primeiro Ministro e foi vítima da esquizofrenia que inadvertidamente provocou. Por outras palavras, a democracia tem que encontrar uma solução política dentro do actual quadro constitucional, com os péssimos partidos que temos, com as forças vivas de que dispomos, aliás, bem piores do que os partidos, e com uma colectividade que já tem um presidente actual, que apenas está preocupado, triste e sem soluções.

 

Por mim, não quero passar um cheque em branco a um qualquer presidencialismo, incluindo o de primeiro ministro, ou o daquele que também já foi primeiro ministro e até um dos principais causadores do actual situacionismo, quando, pela técnica do eucalipto, nos desertificou de política. A solução passa naturalmente pela “sensatez, humildade e competência” e pelo regresso àquele 25 de Abril, quando havia gente, havia país e havia esperança”. Qualquer analista com os pés no chão é capaz de vislumbrar no PS, no PSD, no CDS e no PS, dúzias de homens bons que podem trabalhar numa solução política para a presente encruzilhada.

 

E não será solução a habitual hiprocrisia dos rolhas e dos pescadores de águas profundas, batendo palmas aos chefes, mas sabendo que eles, um quarto de hora antes de perderem as eleições ainda estão vivos, como cadáveres adiados que vão fazendo discursos nos palanques do marketing. Por mim, embora lute, ainda acredito que o povão tem bom senso e mesmo que não faça a minha escolha, pode optar pela sabedoria “salus populi”. Basta que não dê maioria absoluta a nenhum partido e que obrigue todos os partidos a uma convergência, para um governo provisório emanado de um novo contrato social que liquide o sistema e regenere o regime. Não gritarei “viva a república honesta e abaixo os ladrões”, dando-lhes uma Bastilha imaginária, como na caricatura acima. Prefiro a realidade… para não ter que fugir, quando tiver que passar da teoria à prática!

Mar 09

Cavaco, César e o flutuante acima, em dia de comemoração

Não sei se hoje vivemos o princípio do fim de certo ciclo institucional da república portuguesa, neste exercício de comemorativismo a que nos dedicamos quando temos falta de notícias. Mas falemos do Presidente Cavaco, utilizando um texto que foi a base da minha colaboração para o DN de hoje e esqueçamos a entrevista de um dos rostos da universidade concordatária e ex-assessor do mesmo Cavaco, para quem o problema de Portugal está na existência de “um grupo anticatólico mesmo hostil em relação à Igreja Católica”, esquecido da velha máxima coelhística, repetida pelo ministro silva, segundo a qual “isto de bater na Igreja não é de borla”, porque os mesmos espíritos batedores se encontram em maniqueísmo, que sempre foi uma heresia.

 

O grande livro de Aníbal Cavaco Silva, “Política Orçamental e Estabilização Económica”, de 1976, é um excelente revelador do planeamentismo e da previsibilidade do homem político que preside à república dos portugueses. Não é, pois, de estranhar que o respectivo autor, ao proceder à auto-avaliação do respectivo mandato, perante uma plateia de estudantes alemães do ensino secundário, tenha assumido o cognome de arauto e defensor da estabilidade institucional. Aliás, falava em Vestefália, num local onde, em 1648, se colocou o Estado Moderno no terreno e no mapa europeus, em nome do “cujus regio, ejus religio”,  mas onde o Portugal Restaurado teve de participar quase clandestinamente, dado que era boicotado pelos Habsburgos de Madrid e pelo Papa de Roma, de quem ainda não tínhamos recebido o qualificativo de nação fidelíssima. Isto é as boas intenções dependem das circunstâncias de tempo e de lugar, isto é, vivem mais das acções dos homens que dos respectivos programas construtivistas.

 

Por outras palavras, se, no primeiro ciclo presidencial do cavaquismo, se viveu um estado de graça na coabitação com a governação socrática, bem expressa pelo “porreiro, pá!” do Tratado do Mar da Palha, também os avisos à navegação e os vetos belenenses começaram a lançar sobre a cooperação estratégica as sombras de eventual punição dos eleitoralismos e da propaganda das campanhas que podem ainda pôr em causa o apertar do cinto dos cidadãos-contribuintes na luta contra o défice. E todos reconhecem a autocontenção do primeiro presidente da república que é professor de economia, foi ministro das finanças e com apetetites de nos dar a todos uma lição sobre a conjuntura económica que, sem atingir a violência simbólica dos discursos do seu mandatário Medina Carreira, deixaria as orelhas governamentais a arder.

 

Se entre Cavaco e Sócrates poderá haver coincidências quanto ao estadualismo keynesiano da dita esquerda moderna, que ambos verbalmente sufragam, resta saber se a alteração anormal das circunstâncias da presente crise global, não levará o presidente social-democrata a não confundir a esquerda com o mero intervencionismo do aparelho moderno de uma modernidade que já passou de moda e nos pode agravar a tendência suicida para o contraciclo face aos restantes parceiros da Europa.

 

Aliás, o ex-assessor de Cavaco que começámos por citar, livrando Sócrates de “uma influência maçónica muito forte”, acaba de elogiá-lo, porque o PM “está a flutuar acima e tem procurado várias vezes acudir ao fogo, acalmando a Igreja”. Por isso escolheu Vital Moreira e por isso vê o BE e o PCP terem nas sondagens cerca de 20% das preferências dos sondajados. Ainda ontem a comissão nacional do PS prosseguia o modelo de cavaquização do PS, considerando que Alegre não pode dar entrevistas de borla ao “Expresso”, porque, de acordo com esse ultracatólico Milton Friedmann, “não há almoços grátis”.

 

Mantendo o previsível programa de não se assumir como força de bloqueio, o presidente, sem reeditar os governos eanistas de iniciativa presidencial, pode ter que assumir a plenitude do poder moderador no caso, mais do que provável de nenhum dos nossos dois grandes partidos atingirem o conforto da maioria absoluta. Porque sendo insuficiente o regresso ao bloco central, o presidente já deve ter equacionado a necessidade de restauração de uma convergência interpartidária, alargada a ministros do CDS e do PCP, onde a arbitragem presidencial pode ser essencial para que se encontrem prestigiadas figuras partidárias que sejam capaz de uma governação suprapartidária.

 

 

 

Julgo que a gestão dos silêncios do presidente tem a ver com este cenário que o vai obrigar a largar os etéreos campos da “auctoritas” e pisar as raias da “potestas”, até aqui ocupada pela partidocracia. A sua boa intenção de estabilidade institucional vai eventualmente obrigá-lo a evitar que o próximo governo seja o coveiro do sistema. Porque é o povo quem mais ordena, se o mesmo não der a maioria absoluta a Sócrates ou a Manuela Ferreira Leite, poderá acontecer que se restaure a soberania dos partidos contra as personalizações do poder domésticas, com o estabelecimento de um novo contrato social refundador de um regime que envelheceu e degenerou, entre o aumento de percepção da corrupção e o consequente indiferentismo dos cidadãos.

Mar 08

Três anos de Cavaco como presidente

O grande livro de Aníbal Cavaco Silva, “Política Orçamental e Estabilização Económica”, de 1976, é um excelente revelador do planeamentismo e da previsibilidade do homem político que preside à república dos portugueses. Por outras palavras, se, no primeiro ciclo presidencial do cavaquismo, se viveu um estado de graça na coabitação com a governação socrática, bem expresso pelo Tratado do Mar da Palha, também os avisos à navegação e os vetos belenenses começaram a lançar sombras de uma eventual punição dos eleitoralismos da governança. E todos reconhecem a autocontenção do primeiro presidente da república que é professor de economia, sem atingir a violência simbólica dos discursos do seu mandatário Medina Carreira, fica nos subentendidos da desavença ideológica entre dois keyanesianos.

Porque a alteração anormal das circunstâncias da presente crise global, pode levar o presidente social-democrata a não identificar-se com a ideia socrática de esquerda, quase reduzida ao mero intervencionismo do aparelho de poder do velho e proteccionismo dos pequeninos, em inevitável contraciclo com os parceiros europeus e com a ameaça, já prevista por Daniel Bessa, de um regresso a Lisboa dos controleiros do FMI ou de outras instâncias financeiras supra-estaduais.

Mantendo o previsível programa de não se assumir como força de bloqueio, o presidente, sem reeditar os governos eanistas de iniciativa presidencial, pode ter que assumir a plenitude do poder moderador no caso de nenhum dos nossos dois grandes partidos atingir a maioria absoluta. Porque, sendo insuficiente o regresso ao bloco central, o presidente já deve ter equacionado a necessidade de restauração de uma convergência interpartidária, ao estilo dos governos provisórios, isto é, alargada a ministros do CDS e do PCP, onde a arbitragem da cúpula constitucional pode ser essencial para que se encontrem prestigiadas figuras partidárias que sejam capaz de uma governação suprapartidária. Isto é, Cavaco pode ser obrigado a largar os etéreos campos da “auctoritas”, tendo que pisar as raias da “potestas”, até aqui ocupada pela partidocracia.

Mar 06

Contra a mentalidade neojacobina e os seus irmãos-inimigos, talassas e reaças

Alguns dos meus amigos e companheiros de estrada vivem ainda entre o sonho perdido da revolução e da sua irmã-inimiga, a contra-revolução, seja o contrário de uma revolução, seja uma revolução ao contrário, mesmo que seja a revolução nacional. Uns colocam como marco a Revolução Francesa, interpretando-a “a posteriori” como 1848 e, depois, como a Comuna, para se assumirem como socialistas, chegando a dizer que foi para isso que fizeram o 5 de Outubro, ou o 25 de Abril. Outros são o exacto inverso, seguindo a viradeira do intendente, José Agostinho de Macedo e o ti António dos galinheiros no jardim de São Bento. Por mim, continuo a preferir as revoluções evitadas, como foram a inglesa e a norte-americana, e, quando muito, tenho simpatias pelo modelo girondino, embora julgue que o cartismo pós-revolucionário dos franceses acabou por se aproximar dos primeiros impulsos das duas anteriores revoluções atlânticas, produzindo este “mare magnum” do demoliberalismo que nos deu a democracia como poliarquia. Vivam Constant, Herculano, Tocqueville, Silvestre Pinheiro Ferreira, José Estêvão e Passos Manuel, porque era com estes que estaria Manuel Fernandes Tomás, dado que Costa Cabral andava pelo Clube dos Camilos, nesse arremedo de Saint Jacques que até no nome é fradesco…

 

Reconheço, contudo, que o pensamento dominante que tem marcado algumas das defesas da democracia em Portugal ainda está preso a algumas formas jacobinas, muito convenientes para a adesão de adeptos recentes do sovietismo, do trotskismo e do maoísmo. Isto é, para muitos retardatários aderentes à concepção pluralista e de sociedade aberta. Porque muitos demoraram a abandonar o terror revolucionário, usando ainda hoje argumentos que servem para a dialéctica com muitos talassas e reacças neoconservadores e neocatólicos que, como irmãos-inimigos, preferem combater esta visão redutora da democracia.

 

Há um velho jacobinismo, ainda toldado pelos resquícios do sovietismo, russo, albanês ou chinês, que ainda marca alguns subsolos filosóficos de tardios aderentes ao abrilismo do 25 de Abril de 1975, das eleições para a constituinte, e do 25 de Novembro, que as concretizou em poder contra os vigilantes da legalidade revolucionária. Isto é, há muitos que conservam, muito reaccionariamente, uma certa pulsão totalitária e que continuam a enredar-se no terror sistémico do doutrinarismo abstracto. E Portugal tem de libertar-se dessa teia do complexo revolucionário passadista. Por mim, pouco dado ao republicanismo afonsista, não deixo de reconhecer que, mesmo entre 1910 e 1926, houve Basílio Teles, Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Raul Brandão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e até Álvaro de Castro, Machado Santos, António José de Almeida e Raul Proença. Mas nem por isso, deixo de reconhecer que esse ambiente produziu alguns otelos, como o ex-radical Gomes da Costa, apesar de deixar obra de grande militar na Índia ou no CEP. Tal como a personalização do poder gerou as ilusões sidonistas, directamente proporcionais à esquizofrenia franquista, que acabou por ser a coveira da monarquia.

 

Quando o revolucionarismo se coloca ao serviço do velho despotismo pretensamente esclarecido e tira direito de voto ao povão, regressando ao censitário dos que já se consideram bem educados pelo novo pensamento dominante de certas elites, é a democracia que se volta contra o povo e contra o necessário gradualismo. Julgo que são estas concepções de democracia que precisavam de ser compensadas por mais pluralismo, mais autonomia da sociedade civil e menos estadão. Por outras palavras, o democratismo continua a precisar de uma correcção liberal, bem menos hipócrita. Por exemplo, pela recriação de um novo espaço parlamentar que admita o pluralismo societário, para evitarmos esta ficção da segundas câmaras clandestinas, marcadas pelos grupos de interesse e pelos grupos de pressão. Porque seria pior emenda do que soneto cairmos na esparrela presidencialista, mesmo que seja o presidencialismo de primeiro-ministro, com uma câmara única como entidade que bate palmas ao chefe do directório partidocrático.

Mar 04

Entre gritos de badalhocas e fascistas do nosso lodo, à metafísica do asteróide, mais além é preciso

Quem teve a curiosidade de passar o video correspondente a esta imagem, prefere, sem dúvida, agradecer aos deuses o acaso de o asteróide DD45, com 30 a 40 metros de diâmetro, ter passado na segunda-feira a 60 mil quilómetros do sueste do Pacífico, sete vezes mais perto do que a Lua. Porque se houvesse um impacto com o planeta, esse poderia ser superior a mil bombas atómicas, como terá sucedido na Sibéria nos começos do século XX. Por cá e agora, neste reininho da esquizofrenia, entre apitos e filhos dos tios, tudo se acirra para fora do tempo e do lugar, embora ainda não tenham surgido fogueiras queimando um boneco representando Obama, como já nos transmitem as imagens vindas do Sudão.

 

Por isso, na aula de ontem, lá tentei comunicar aos alunos que a velha “polis” já não coincide com esse fantasma chamado Estado moderno, de marca soberanista, tal como se delineou a partir de Maquiavel e Bodin, sobretudo através de Hobbes. Pensando estruturalmente, a nível do médio prazo, recordei a existência de antigos jovens engenheiros sociais do mundo que colaboraram com a ideia de Sociedade das Nações do primeiro pós-guerra, conforme os esquemas delineados pelo presidente Wilson. Uns, na linha do Keynes, chegaram a Bretton-Woods, montando um sistema institucional a que falhou uma organização mundial de comércio, porque os norte-americanos preferiram o isolacionismo e nos obrigaram às pautas do GATT, tal como, mais recentemente, boicotaram o Tribunal Penal Internacional, coisa que Obama ainda não sufragou para que o Sudão entre nesta república universal de luta contra os crimes contra a humanidade, com lei, tribunal e polícia do todo. Outros, como Jean Monnet, acabaram por lançar as bases de um projecto supra-estatal europeu que está na base da actual união europeia, agora enredada nas ilusões neonapoleónicas das repúblicas-irmãs, segundo a hipocrisia jacobina que nos quis mandar para o Maneta.

 

Quem subscrever esses ideias históricos concretos do abraço armilar, essas anti-utopias que subvertem a realidade em nome de uma norma, tal como a democracia ou o Estado de Direito, essas essências que, através da consciência do homem concreto, com os pés no chão e os olhos nas estrelas, se tornam existências, têm que reparar, face à presente crise, como o combate pelo bem e pela polis melhor é global, sobretudo a nível do vazio de supra-estadual e de trans-estadual. Quem for realmente cosmopolita não o deve esquecer. Quem, nessa linha, se assumir como europeísta, deve continuar o sonho de derrubar o desespero do princípio da hierarquia das potências com que Talleyrand nos asfixia.

 

Porque é nesses tabuleiros multilaterais que se jogam os destinos de pátrias e políticos da dimensão de Portugal que precisam de um supra-estatal com normas para que o direito nos proteja dos poderios das potências. Sermos instrumentalizados por discursos demagógicos de partidos, como os nossos principais, quando eles se esquecem que também são meras secções nacionais de multinacionais partidárias europeias (casos do PS, do PSD e do CDS), é não compreendermos que assim agravamos a nossa impotência.

 

Impõe-se a mobilização de todas as nossas forças de influência internacional, para que não se perca a esperança da própria Europa, tal como se exige um adequado reforço da dimensão atlântica e lusófona, entre Bissau e Bruxelas. Por outras palavras, é através da política internacional, se tivermos uma ideia da função de Portugal no universo, que podemos superar os aparentes impasses domésticos. De outra maneira, na próxima cimeira, em vez de mandarmos um ajudante do primeiro-ministro, até podemos recorrer a um desses muitos assessores que fazem belos relatórios a partir de Bruxelas, mesmo que sejam espiões desempregados que brincam às informações da Internet. Prefiro provincianos cosmopolitas a tecnocratas apátridas, mesmo que sejam ministros. Foi isso que aprendi quando quase esotericamente fui seleccionado para assistir perto de Estrasburgo a uma reunião quase clandestina dos velhos activistas da Resistência para a comemoração dos encontros entre Adenauer e De Gaulle, acedendo àquele esoterismo da crença e do sonho sem o qual nunca existiria a Europa de Monnet ou do Centro de Estudos Germânicos da Universidade que devia ter o nome de Marc Bloch.

 

Nunca como hoje precisámos tanto de política europeia, sobretudo para garantirmos as nossas seculares franquias nacionais. Isto é, uma adequada teoria da política, fecundada pelas circunstâncias de tempo e de lugar, obrigam-nos a sair do paroquialismo e da endogamia, desta estúpida federação de forças vivas e de micro-autoritarismos sub-estatais em que nos vamos, neofeudalmente, enredando e definhando, porque muitos apenas querem ver aquilo que sabem e que não ultrapassa o horizonte dos campanários da sua baixa estatura mental, entre apitos da futebolítica que não reparam na hipótese do asteróide. Já chega de gritos de badalhocas e fascistas, entre frequentadores de bordéis, verbalizando pretensas lutas de classes com muita falsa consciência, à boa maneira prequiana.

 

PS: Agradeço ao neto de Camilo Castelo Branco a compreensão pela identidade do azul e branco a que permaneço fiel, mas farto dos talassas. Porque, às vezes, sente-se e pensa-se melhor Portugal fora do Portugalório do carreirismo mercenário, onde o apoio de um ex-ministro se compra com pareceres. Há discursos televisivos de nojo que custam milhares de euros mensais à mesa do orçamento. A transparência e a luta contra a corrupção exigem que todos eles sejam divulgados e tirados do saco azul da mão distribuidora dos subsídios que saem do meu bolso.

Mar 03

Eu ainda acredito na possibilidade de um Estado de Direito e de uma democracia em Bissau

Bissau. Guiné. Nino. Uma imagem do guerrilheiro visitando Spínola. A paz dos bravos. A morte traiçoeira. O ferro de quem mata e acaba pelo mesmo ferro por ser morto. A espiral da violência habitual nas crises. Agora, Lisboa. Porque querem, aqui e em Bissau, transformar todos e cada um de nós, à boa maneira totalitária, em meros desviacionistas, desses que são passíveis de medidas de segurança para aquilo que os donos do poder decretam como anormalidade. Porque todos e cada um de nós podem ser lançados para a fileira das muitas minorias maioritárias que ousam viver como pensam e que que não têm condições para não pensarem como depois da liberdade hão-de viver.

 

Morreu Nino. Já todos os analistas explicaram a causa. A Guiné-Bissau é um Estado Falhado que pissou o risco do Narco-Estado. Um grupo Balanta vingou-se num grupo Papel. Quem com ferro matou, com ferro morreu. Está tudo esclarecido. Depois desta interrupção, outros poderão seguir dentro de anos, ou dentro de momentos. Mais de cem Estados, sócios da ONU pouca diferença fazem deste padrão. Ainda bem que o G20, que reúne os dedos do corpo da humanidade, recolhe mais de noventa por cento do produto planetário. O João Gomes Cravinho já voou para Bissau e sabe tão bem espalhar a boa nova da governança…

 

Guiné-Bissau. Uma terra que conheço e que me habituei a a amar. Uma pátria sobre a qual um dia me pediram que esboaçasse um programa sobre o estado da governança, mas onde os homens e as mulheres do relógio de ponto da chamada “cooperação” consideraram inútil o esforço que estava disponível para fazer por amor, recolhendo os sinais de “Ubuntu” que ainda permaneciam, longe dos neofeudais parceiros das comisões e das percentagens ou dos falsos africanistas que passaram a ocupar as volutas da nossa análise sobre África. Já não me lembro da data, não foi neste governo, mas se foi no do PS devem ter dito que era “opus” e se foi já no do PSD, que era “maçon”.

 

Depois dos assassinatos, as penas ágeis dos especialistas que sabem fazer prognósticos depois do fim do jogo perderam a vergonha. Os mesmos macacos surdos, cegos e mudos continuam a dominar a nossa tecnologia de análise dos chamados estudos africanos que perderam o universalismo. Espero que não repitam o erro de análise sobre o que vai ocorrer em Timor, só porque alguns patriarcas sempre detestaram essas terras, entre ex-ministros que não conseguiram cumprir o respectivo programa de união com outra província ultrmarina a outros mesmos  ex-ministros que, usando o telemóvel e as fragatas, decidiram brincar ao poder num mosaico onde só quem pode compreender a complexidade os pode interpretar.

 

Conheço quase todo o mar e o interior da Guiné. Mas foi olhando o país a partir de Dakar e de vários comícios da campanha eleitoral senegalesa que vi melhor o ambiente que rodeia esse Estado. África não se resume às monografias da velha Agência-Geral das Colónias ou ao mapa do império feito pelo génio propagandista do Acto Colonial que foi Henrique Galvão. Esses sítios já foram fecundados por muitos tempos, incluindo os dos últimos trinta anos. E continuam a precisar de portugueses que saibam praticar o abraço armilar sem necessariamente o cantarolarem para efeitos de negócio, incluindo o universitário.

 

Eu ainda acredito na possibilidade de um Estado de Direito e de uma democracia em Bissau. Como também em Dili. E sei de experiência vivida e de teoria adeuada à prática que essa possibilidade precisa de cooperação, solidariedade e esperança. Aplicarmos a esse universo as receitas de Angola ou de Moçambique e reduzir África ao unidimensionalismo de uma abstracção, não integrando cada zona no respectivo ambiente actualista é brincar com o fogo e gerar este vazio de informação que até permitiu uma recente visita de Estado a Bissau, quando bastava ir ao Rossio e falar com dois ou três dos mais velhos Balantas, Fulas, Manjacos ou Mandingas, relendo o velho Manuel Belchior. Por mim, confesso, continuo a amar aquela terra e aquela gente.

Mar 02

Entrevista a O Diabo

Mais uma peça que não se inclui na campanha branca que visa a cavaquização do PS

 

 

 

Para os devidos efeitos, ao ver uma pequena parangona da minha autoria no “Meia Hora”, junto a entrevista dada, em discurso oral directo, a Ana Clara e ontem divulgada. Também em tom de registo, acrescento a minha intervenção, sexta-feira, na SIC, que o meu filho Francisco me mandou de Delaware. Estou a preparar-me para uma conferência sobre a corrupção que, amanhã, quinta-feira, pelas 19 horas, proferirei no ISCTE.

 

O DIABO — Qual é a radiografia que traça actualmente do País?

 

ADELINO MALTEZ — Acredito que o Mundo está melhor e, por isso, acredito que Portugal também melhorou. Só que uma coisa são as altas expectativas que nos deram e, outra, é o falhanço dessas expectativas. E, nesse aspecto, o Governo de Sócrates, que era de facto uma novidade — já que tínhamos experimentado a maioria absoluta de Cavaco mas ainda não tínhamos tido uma maioria absoluta do PS — acabou por falhar redondamente a sua própria boa intenção.

 

Qual era a boa intenção e onde é que o Governo falhou?

 

A boa intenção era o Fórum «Novas Fronteiras», com a ideia de que o PS representava o Bloco Central sem necessidade de coligação. E até era um Bloco Central alargado porque tinha como ministro dos Negócios Estrangeiros o fundador do CDS (Freitas do Amaral). Lembro-me do primeiro elogio de do Prof. Freitas do Amaral, enquanto ministro, dizendo que este era o Governo que tinha mais catedráticos na História de Portugal… Só que esta intenção que Sócrates tentou concretizar — e depois da eleição de Cavaco Silva para Belém o estado de graça até parecia reforçar-se com uma cooperação institucional de grande qualidade — acabou por passar, tal como passou o tempo das vacas gordas e entramos, agora, no realismo das vacas magras. Ainda por cima com uma crise internacional deste gabarito.

 

Mas antes da crise havia o discurso do ímpeto reformista do Governo.

 

Mas isso foi o discurso de justificação de poder.

 

Mas todos esses anúncios não passaram de intenções cosméticas ou, de facto, houve reformas de fundo?

 

Havia ali boas intenções de que o Inferno e a política estão cheios. E podemos ir a casos concretos.

 

 

 

«Reforma do Estado foi um falhanço»

 

 

 

Tais como?

 

 

 

Podemos ir à bandeira da reforma do Estado, que foi um falhanço completo porque era uma espécie de fotocópia abstracta que servia para tudo. A única reforma que começou por resultar foi, de certo modo, o controle do défice mas, com a crise, ficou uma espécie de amargo de cinto apertado. Porque a crise, além de ser uma crise global, foi um revelador da crise interna, que andava escondida pelo discurso demagógico e pela engenharia dos subsídios europeus. Aí está o exemplo de uma reforma completamente falhada — o caso do PRACE — e de uma reforma que começou a resultar mas que se perdeu porque «tudo o vento da crise global levou». E voltamos aquilo que sempre fomos, de uma fragilidade estrutural enorme.

 

E que está à vista.

 

Sim, a crise foi, sobretudo, no nosso caso, — até porque não tínhamos lixo tóxico nem tínhamos crise de «subprime» — um revelador ou sismógrafo que registou aquilo  que já cá estava dentro e ela ainda não foi torneada pelo voluntarismo das boas intenções de Sócrates. Dou outro exemplo. O Tratado de Lisboa.

 

 

 

O Tratado de Lisboa, com esta crise, está desactualizado?

 

 

 

Não, o europeísmo do Primeiro-Ministro é que está com falta de crença porque, para tão altos desígnios da sua política internacional, ele preferiu ir fazer um discurso de palanque para o Congresso do PS e não ir à Cimeira Europeia do passado fim-de-semana. Tirando a ironia, o que está em cima da mesa de gravíssimo, no plano da política europeia, é que houve previamente uma pré-Cimeira ou uma falsa Cimeira, a dos membros da União Europeia em que participam no chamados G20.

 

 

 

Falsa porquê?

 

 

 

Porque a formal e institucional Cimeira esteve totalmente condicionada pela meia dúzia de membros da UE que fazem parte do grupo dos mais ricos do mundo, os que têm mais de 90% do produto planetário (França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Holanda e Espanha). Regressaram claramente à Europa do Congresso de Viena de 1815. E dividiram os membros da UE nas grandes potências do dinheiro, as que são os membros do G20, e os Estados secundários, os que vão a reboque das grandes potências. Ou seja, voltámos claramente à hierarquia das potências,  sem qualquer espécie de vergonha. Isto é a negação total do sonho do projecto europeu e da lei constitucional mínima da fundação da Europa que está a ser rasgada pelas grandes. Isto é dramático e Sócrates não tem culpa disso.

 

 

 

 

 

Que consequências resultarão daí?

 

Esta reunião que Ângela Merkel convocou, condicionou totalmente a Cimeira Europeia em que os outros foram lá para se submeterem aos ditames dos grandes da Europa: dos Berlusconis’s, dos Sarkozy’s e dos Gordon Brown’s…onde outro é o “porreiro, pá!”

 

 

 

 

 

A resposta internacional para esta crise acaba por cair em saco roto?

 

 

 

Não digo que caia em saco roto porque o saco dos G20 não anda roto, anda sempre a roubar. Cai é na impotência de países com a nossa dimensão que, neste momento, fazem o discurso mais mentiroso da política — que é o que faz o Eng.º José Sócrates e grande parte da Oposição.

 

 

 

E que discurso é esse?

 

É dizer que o Estado é necessário. Mas eu pergunto: qual Estado? O Estado do Marquês de Pombal? O do Fontes Pereira de Melo? O do Salazar? Nenhum deles já existe.

 

 

 

E que Estado existe então em Portugal?

 

É o Estado da Quimonda. Qual é o Estado que diz que tem milhões para dar à Quimonda mas depois vem o discurso da culpa ser dos alemães, que não deram nada e estragaram tudo. O que precisamos, neste sistema de relações económicas e financeiras globais, é de um Estado. Não o velho Estado nacional mas um reforço das regras globais e das regras da União Europeia. Neste momento o que nos faz falta é um Estado europeu, não copiando o velho modelo dos Estados nacionais, mas com uma intervenção de regras para pôr na ordem este capitalismo internacional desregrado que nos destruiu. Precisávamos de uma Organização Mundial do Comércio, como precisávamos de formas de controlo do comércio justo a nível mundial e europeu. Neste momento a principal razão da crise que vivemos não é José Sócrates é, sobretudo, o vazio da Europa, o que é contrário aos princípios fundamentais que deram origem a este belo esforço com a UE. Nesse aspecto continuo perfeitamente europeísta e adepto daquilo que é a necessidade de regrar este sistema internacional. O capitalismo liberal é o único, até agora, que cumpriu regras e tem condições para ultrapassar a crise, não é o regresso aos proteccionismos e mercantilismos estadualistas que agravarão o problema. O problema é global e só poder ter uma resposta de instauração de um político global e europeu, de um Estado-anti-estado que assuma formas de república universal ou de um Estado de Direito universal, de uma instância a que os médios e pequenos Estados possam recorrer contra os abusos das grandes potências. O que nos falta é a existência de uma certa supraestadualidade quer europeia, quer global.

 

 

 

Que consequências é que esta injecção de capital dos Estados nos mercados financeiros vai provocar no futuro?

 

 

 

Os velhos Estados nacionais são pequenos demais para este grande problema da crise. Nem os EUA, de forma isolacionista, têm suficiente força, porque só uma federação global de boas vontades a nível de um político mundial é que é capaz de enfrentar os grandes problemas do nosso tempo. Porque até os grandes Estados são pequenos demais perante esta crise. Como dizia Daniel Bell. O problema é que os velhos Estados mantêm o reflexo condicionado para serem grandes demais para os problemas pequenos do quotidiano. É o que está a acontecer com José Sócrates.

 

 

 

«A força banco-burocrática»

 

 

 

Em que aspecto?

 

 

 

Se Sócrates não tem força para resolver a Quimonda, eis que, curiosamente, quando o Estado demonstra a sua impotência para a crise global logo começa a ser grande demais para os pequenos problemas do quotidiano não libertando a sociedade civil. Crescem os sinais de exibição de autoritarismo do aparelho de poder e não há um esforço de melhor Estado e mais sociedade, mantendo-se a asfixia da autonomia da sociedade civil. Veja-se como, neste século XXI, ainda continua verdadeira a precaução que Antero de Quental tinha contra a força banco-burocrática — é isto que manda em Portugal. Veja-se como ainda mantemos um centralismo capitaleirista, como ainda se mantém algum imobilismo das forças da inércia do “estado a que chegámos”. Sócrates é o principal conservador do que está. Apesar de ser socialista e dizer que defende o progresso ele é conservador do estado a que chegámos.

 

 

 

E em ano de eleições, Sócrates está refém deste estado de coisas e da crise?

 

 

 

Acho que ele próprio, ao não alterar estas regras da inércia que nos costumam imobilizar, percebeu que nós vivemos numa crise moral porque a única moral que impera é, como alguém dizia, a moral do «sapateiro de Braga», a do “ou há moralidade, ou comem todos”. Vivemos naquilo a que se chamava na I República a ditadura da incompetência. Isto é, perdemos o impulso daquilo que foi uma jovem democracia que nos fez regenerar e a criatividade do que chamávamos o Estado de Direito democrático. No fundo,  a chamada racionalidade normativa da política. Estamos a assistir a uma espécie de suspensão da política e a um regresso a formas de legitimidade pré-políticas, como são as legitimidades do patrimonialismo neofeudal. Isto é, acaba-se a política — que é a praça pública, com regras — e voltamos à «casa». E a casa — «domus» em romano — tinha um chefe, o “dominus”, de onde veio o nosso “dono”. E o que está a acontecer é uma espécie de regresso dos velhos donos do poder que se adaptaram às manhas de 30 anos de democracia e estão a tentar usurpar a democracia voltando a mostrar o poder nu e cru das forças vivas. Neste momento são eles que dominam, por exemplo, esta subsidiocracia desta engenharia dos subsídios, eles próprios até já têm os seres que costumam aparecer em épocas de decadência que são aquilo que Gilberto Freire chamava os intelectuários — uma síntese de intelectuais com serventuários e que montaram uma rede neofeudal que quase destrói a política. Veja-se o que está a ser revelado por estas crises de três bancos que mostraram a face oculta dos efectivos atentados à legitimidade racional normativa do Estado de Direito.

 

 

 

Vivemos numa espécie de centralismo democrático?

 

 

 

Não, não vivemos em centralismo democrático. Nós estamos neste momento a denunciar esta situação. E a liberdade de expressão, se não for condicionada por processos disciplinares e directivas do senhor director ou do senhor presidente, está em dialéctica. Isto é uma democracia que tem que ouvir as verdades.

 

 

 

Mas às vezes não gosta de as ouvir.

 

 

 

Mas tem de as ouvir. Há um momento da História de Portugal muito parecido com este que foi o «fontismo». Não eram auto-estradas mas eram caminhos-de-ferro. E o «fontismo», perdido o impulso regenerador inicial, acabou por nos conduzir à bancarrota.

 

 

 

Corremos o risco de caminhar para a bancarrota?

 

Corremos.

 

 

 

Mesmo na União Europeia.

 

 

 

Claro. Basta ver as análises de João Salgueiro ou de Medina Carreira, cada um no seu estilo, que êm feito as contas e têm demonstrado o que é este endividamento externo. E quanto mais endividados estamos, mais novos-ricos aparecem. E estes são os chamados devoristas. E o povo às vezes gosta dos devoristas.

 

 

 

Há forças sociais capazes de travar esta tendência que vivemos?

 

 

 

A Pátria vai resistir. As nossas decadências costumam ser longas. Mas o País acaba sempre por se regenerar, de deitar fora o que está podre e de voltar a ter a seiva da árvore da Pátria. Mas para isso é preciso trabalhar. E o grande problema, muitas vezes da política, é que nós vamos para a solução mais fácil, que é o imediatismo. Não gostamos do que temos e votamos no mal menor.

 

O que está em causa é que entre o que está e as alternativas que nos oferecem há muita semelhança. Sócrates, por exemplo, é da mesma cepa que Santana e Portas.

 

 

 

E é da mesma cepa que Manuela Ferreira Leite?

 

 

 

Não. Quando ela falar podemos fazer mais comparações mas o silêncio dela custa a quebrar. Temos aqui um problema de regeneração global não é apenas tirar este e pôr aquele.

 

 

 

E esse problema de regeneração ainda não será resolvido nestas legislativas?

 

 

 

Não acredito porque com o crescendo da corrupção, pelo menos, da percepção da corrupção, com o aumento do indiferentismo e com a crise internacional da geo-finança, continuo a não entender porque é que as instituições políticas portuguesas, sobretudo, o Parlamento, o Governo e os tribunais não batem à porta do Palácio de Belém e não fazem uma espécie de novo Pacto Social contra a corrupção e o indiferentismo.

 

 

 

Uma espécie de União Nacional.

 

 

 

Não. Pergunto se os partidos não têm o bom senso de pedir ao Presidente da República para que todos se libertem dos seus principais inimigos.

 

 

 

Que são?

 

 

 

O principal inimigo dos actuais partidos é a corrupção. Porque a maior parte dos dirigentes partidários portugueses são pessoas que são capazes de dizer o mesmo que eu e vivem arredados numa imagem terrível. Vamos supor que Sócrates não tem nada a ver com estas trapalhadas que insinuam que ele faz parte (caso Freeport). Aconteceu-lhe a ele o que pode acontecer a todos os líderes partidários se não perceberem os movimentos profundos desta opinião pública e não recuperarem o povo para a democracia. De outra maneira criamos uma democracia eventualmente sem povo. As eleições, neste ambiente, poderão conduzir a uma maioria relativa, provavelmente do PS, ou do PSD, se Manuela Ferreira Leite, depois deste caminho pela verdade e pela província, recuperar a imagem. Mas qualquer um deles é demasiado fraco para resolver os grandes problemas que temos neste momento. Acho que esta crise aponta para um governo de emergência nacional com um prazo curtíssimo para criarmos o tal Pacto Social. E não excluo neste Governo, para não reeditarmos o bloco central, o CDS e o PCP.

 

 

 

«A crise exige uma atitude de coragem»

 

 

 

Mas isso será difícil de acontecer?

 

 

 

Dificílimo mas a crise exige uma atitude de coragem, com os partidos e o PR, em conjunto.

 

 

 

Voltando a Manuela Ferreira Leite. Como acha que os portugueses olham para ela?

 

 

 

Não sei. Vamos a ver o que vai dar o investimento que ela está a fazer num conjunto de perspectivas contrárias às medidas que o Governo tomou e, aí, ela tem sido de alguma coerência. Num ano tão quente como este, não a vejo a atingir a maioria absoluta. Coloco a hipótese de maioria relativa tanto para o PS como para o PSD. E logicamente com Manuela Ferreira Leite. Não está excluído esse cenário. A líder do PSD não é uma amadora destas coisas. Mas acho que há aí muita propaganda que a quer matar antes de ela ir a terreno. Se o Primeiro-Ministro aceitasse um debate na televisão, corajoso, com a líder da Oposição, como ela propôs, acho que seria interessante.

 

 

 

E o que vai na cabeça do Presidente?

 

 

 

O grande livro do Presidente é um livro de planeamentismo  sobre política orçamental. Ele explanou todo o seu pensamento e é muito coerente consigo mesmo. Mas o programa que ele apresentou para Belém foi ultrapassado também pelas circunstâncias.

 

 

 

O que seria bom para o País depois destes três actos eleitorais que estão à porta?

 

 

 

Já disse que seria bom uma coligação pós-eleitoral ou alargada e mobilizadora da opinião pública. Qualquer vitória absoluta de um partido conduz a uma espiral de decadência sem estado de graça minimamente viável. É isso que algumas democracias, mais fortes e mais ricas que a nossa, fizeram. Portugal não está para Berlusconis’s. Qualquer solução à «Berlusconi», em Portugal, seria uma solução desastrosa.

Mar 02

As vitórias da direita liberal na Galiza e no País Basco

Acompanhei, com alguma solidariedade peninsular, as votações da Galiza e do País Basco, essas nações sem Estado da nossa irmandade ibérica e sem as quais não é possível o sonhado iberismo federativo que passe por Guernica, Santiago, Barcelona e Lisboa em pé de igualdade, conforme o sonho de Antero que continuo a subscrever, mas sem dinastias aqui impostas pela balança da Europa. Apenas reparei que, a Norte do Minho, entraram em contraciclo face às decisões do Congresso de Espinho. Viraram todos para a direita liberal e para o nacionalismo, atirando um adequado sapato ao Zapatero.

 

Sinto-me particularmente irmão dos nacionalistas bascos democráticos, de quem sou particularmente amigo, especialmente quando era militante e dirigente partidário, nos tempos de Lucas Pires, e andava em descoberta por esses povos da Europa parecidos connosco, como também eram os nacionalistas da direita democrática irlandesa. Mas nesta Primavera, reforcei as alianças afectivas, quando participei, nos Açores, na comunhão das autonomias europeias, de cujo grupo tenho a honra de fazer parte. Julgo que, se nos libertarmos da visão paroquial da Europa, onde caiu o PS, mesmo quando se veste com a pronúncia do Norte do ministro Teixeira, bem poderíamos usar as boas autonomias portuguesas dos Açores e da Madeira, para não ficarmos do lado errado da história.

 

O pior que podemos copiar nalguns galegos está em fraguizarmos o nosso discurso regionalista, como poderá acontecer com o PS, o principal responsável pelos nossos últimos resultados pelo falhanço do referendo sobre a regionalização, lado a lado com Alberto João Jardim que, não nos esqueçamos, mandou votar contra a mesma regionalização. Como se o objectivo fosse meramente partidocrático. Por mim, até votaria no PCP se ele fosse autenticamente pela destruição do centraleirismo, deste Estado a que chegámos, herdado do Marquês de Pombal, de Fontes Pereira de Melo, de Afonso Costa, de Salazar, de Mário Soares e de Cavaco Silva. Sim, continuo da direita, liberal, regionalista e até federalista, por dentro do Estado e ao lado e acima do Estado. E, como europeísta pouco bruxelense, não posso deixar de defender um nível de federalismo a nível da penínsual, não através de um acordo bilateral entre a República Portuguesa de Lisboa e o Estado espanhol de Madrid, mas antes pelo refazer das alianças pré-estadualistas desta nossa casa comum.

 

É por esta e outras crenças que não tenho lugar na política militante portuguesa, porque não há lugar onde possa defender as minhas concepções do mundo e da vida. Onde para a direita a que chegámos há uns pretensos sábios que a atiram para a defesa de arcaísmos, do estadualismo e da sacristia, escorregando nas cascas de banana que a esquerda situacionista lhe lança, desde o centralismo capitaleiro ao conservadorismo imobilista. Como se não houvesse um capitalismo assente num liberalismo ético e uma forma de reinvenção do político que volte ao localismo, ao regionalismo e ao federalismo, pelo sonho de uma república maior que a dos Estados fixados pelo soberanismo e pelo absolutismo. Esquecem-se, pelo menos, que Portugal só foi grande quando recuperou o sonho do Infante D. Pedro e dos juristas da Restauração, recuperados pelo vintismo e pelo antinapoleónico, contra esse usurpador que Jaime Gama invocou no Congresso de Espinho, sem ser por acaso, esquecido de quem nos quis mandar a todos para o Maneta, mas ainda aquecido pela recente e novamamente azarada viagem à Guiné-Bissau, onde, ontem, voltaram aos magnicídios, onde se foi o chefe de estado-maior e eventualmente outro mais alto, conforme recente telegrama da agência francesa, mas ainda não confirmado…

 

Coitados! Nem sequer são capazes de compreender os impulsos profundos do socialismo oitocentista, recuperados por Vitorino Magalhães Godinho, esse que era do socialismo democrático antes de Mário Soares, o qual, logo no segundo pós-guerra, ainda andava longe das sementes de União Socialista e de Partido Trabalhista, preferindo o estalinismo do PCP cunhalista, conforme gostava de recordar o velho Raul Rego, quando Mário caía na esparrela de voltar aos fulgores demagógicos dos vinte anos e era obrigado a reler as palavras que lhe dirigiu Norton de Matos, por causa da campanha eleitoral presidencial …

Mar 01

Sócrates com energia vital…

Sócrates lá conseguiu vencer as ondas revoltas do espinhoso mar da porta estreita e apresentou uma magnífica coligação do PS com o blogue “Causa Nossa”. Respirei de alívio. Achava insuportável que a democracia atingisse o paradoxo de, em vez de Vital Moreira, meu antigo professor,  elevar a cabeça de lista do PS o paradigma um qualquer adesivo ou vira-casacas. Vital Moreira, com quem nunca coincidi em crenças e concepções do mundo e da vida, tem a grande vantagem de viver como pensa e de ter saído em defesa deste modelo socrático, no dia a dia do combate de ideias, revelando uma coerência, uma pertinência e uma inteligência que todos os adversários respeitam. Eu, pelo menos, até um dia fiquei aliviado, quando ele saiu da nebulosa da legalidade revolucionária do cunhalismo e veio usar as armas da inteligência e da emoção ao serviço do pluralismo democrático e da sociedade aberta, com sincero arrependimento. Julgo que, hoje, Vital deixaria que, nos primeiros artigos da constituição, aparecesse a palavra comunidade, não a considerando incompatível com a luta de classes, como podemos ler, com alguma curiosidade de bisbilhotice historicista, nos diários da Assembleia Constituinte…

 

É evidente que continuo a não estar com ele, preferindo subscrever as palavras do Professor Vitorino Magalhães Godinho, as impertinências de António Barreto, as críticas de Medina Carreira ou a resistência de Manuel Alegre. Mas julgo bem mais estimulante que o situacionismo socrático chame para a trincheira um dos melhores de Portugal, em pensamentos, palavras e actos. Pelo menos, tenho agora a certeza que o socratismo vai responder, vai argumentar e vai enriquecer a racionalidade da democracia, embora muito dificilmente possa receber o meu voto, não por alergia ao PS, porque já noutras alturas votei nesse partido, de acordo com a lógica de “do mal, o menos”, em que algumas vezes caí e que talvez venha a repetir no próximo acto eleitoral, mas com a cruzinha noutro lugar.

 

Lá do outro lado da vida, Álvaro Cunhal vai notando como a respectiva sementeira frutificou, entre Ilda Figueiredo, ainda no PCP, Vital Moreira, no PS, Miguel Portas, no Bloco de Esquerda, Zita Seabra, no PPD, e Celeste Cardona, no CDS (uma piada real que ouvi do Daniel Oliveira). Mas os membos da redacção de “O Grito do Povo” e os militantes do ex-MRPP estão também em boa posição para a disputa, desde Durão Barroso, nas alturas de Bruxelas, a Ana Gomes, assessorando Vital Moreira, passando por muitos outros que enxameiam todos os pequenos, médios e grandes partidos da direita e da esquerda, bem como as direcções e redacções dos jornais e televisões, desde os defensores do pundonor de Sócrates, aos que este acusa de campanhas e manipulações, para que venham os magistrados investigar e julgar, onde também alguns dos mais mediáticos passaram pelo frenesim da doença infantil do esquerdismo.

 

Portugal é, definitivamente, o país mais à esquerda da Europa e do Ocidente, o mais socialista e o mais anti-liberal e anti-conservador. E talvez por causa dessa fuga ao real, entre utopias e ideologias, é que somos também o mais pobre e o mais injusto, porque abundam as medidas do liberalismo a retalho, com governos de esquerda com mentalidade de direita, onde os preconceitos de esquerda inventam a direita que lhes convém, pintando-a de fantasmas e onde ninguém de direita se assume como de direita.  Com efeito, porque a direita e a esquerda não são posições ontológicas, ideologicamente detectáveis, mas meras posições relativas, acontece sempre que as acções dos homens acabam por não corresponder às respectivas intenções. Diogo Freitas do Amaral que, no início da democracia, queria estar rigorosamente ao centro, acabou por ser o máximo de direita permitido pelo arco constitucional estabelecido pelos Pactos entre o MFA e os partidos. E Sócrates, de quem o primeiro acabou por ser ministro, corre o risco de dizendo-se de esquerda, estar, agora, no tal rigorosamente ao centro, podendo ser lançado pelo povo para a direita que ele detesta.

 

Mas Salazar, que nunca disse que era de direita, que nunca foi de esquerda, apenas assumindo-se como do centro, acabou por exterminar a direita e a esquerda, procurando monopolizar o todo, malhando à esquerda e à direita. Também Estaline foi purgando os desviacionismos de esquerda e de direita.  Porque ambos não queriam aparecer e parecer partidos, isto é, como simples partes, simples perspectivas, lugares que circulam à volta e à procura da verdade, mas sem nunca a decretarem como total. Por outras palavras, em democracia pluralista, a direita e a esquerda acontecem pela actuação dos homens livres, porque não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, mas sem saber que história vai fazendo.

 

Eu, por exemplo, que, para malhar no pensamento dominante da esquerda a que chegámos, me gosto de dizer de direita e, ainda por cima, liberal, conforme as autodefinições que carreei aqui para a coluna de direita deste blogue e às quais procuro ser fiel. Mas como um direitista liberal, aqui e agora, sou capaz de assumir algumas posições bem mais à esquerda do que a maioria dos situacionistas deste socratismo. Aliás, fiquei descansado, quando, por estes dias, vi activíssimo, no Congresso do PS em Espinho, um companheiro de concepções do mundo e da vida, com quem comungo muitos dos subsolos filosóficos que me marcam. Ambos fomos, há poucos anos, dos principais escrevinhadores do programa de um projecto de partido que falhou. Embora eu não tenha ido, como ele e alguns outros companheiros dessa estrada, para o PS, permanecendo fiel a algumas das ideias centrais da Internacional Liberal, a cujo congresso senegalês fomos os dois, nem por isso deixo de reconhecer o essencial dessa comunhão de valores. Gostei de te ver em regresso ao sítio onde nasceste, amigo! Força!

 

PS: Espreitei a verrina de Professor Marcelo. Chamou ao “blogue” qualquer coisa como “nosa nostra”, reconheceu que obrigou Vital a uma segunda retirada, quando assinou com Guterres um alteração revisora da constituição e desejou que o cabeça de lista do PS concluísse a agregação. Ao contrário das primeiras leituras, apenas saliento como certos agregados desleixados da endogamia se deveriam envergonhar, seguindo o exemplo de Vital. Este, ao menosa, respeita a carreira e o “cursus honorum”, embora seja bem melhor do que muitos catedráticos que por aí andam, a começar por mim, que, por experiência própria, de seu aluno, o posso reconhecer publicamente, com toda a charanga da justiça.