Abr 05

Estado social e Alfredo da Costa

Medina Carreira foi considerado profeta da desgraça. Pode orgulhar-se. O presidente do Banco Central Europeu já o ultrapassou, ao passar a certidão verbal de óbito ao chamado modelo social europeu. Entretanto, num exercício de mera propaganda, líderes políticos lusitanos prometem ou contraprometem coisas para o ano de 2015. E ainda há quem finja acreditar.

Vítor Gaspar não é apenas um tecnocrata, mas um mestre-pensador, esse caminho a que se acede pela definição de um conceito entendido como substância, donde, depois, se desce dedutivamente, do axioma para o concreto, através de um rendilhado lógico de definições e subdefinições, hierarquicamente arrumadas e terminologicamente controladas pelo dicionário ideológico. E nem o gato do Honório o apoquenta. Logo, vale a pena ver a coisa, presa no telhado e já sem rabo.

“Vérité dans un temps, erreur dans l’autre” (Montesquieu, Lettres Persannes). Dizem que o modelo social europeu está morto. “Vérité au deçà des Pyrénées, erreur au delà. » (Pascal). Os Pirinéus não existem. Dependem das campanhas eleitorais dos que querem saltar ao Eixo.

Morreu precocemente, este ilustre médico, ao 51 anos, no ano do 5 de Outubro, um pouco antes da República. Mas o respectivo sonho foi sendo semeado e, um ano antes do Estado Novo, a maternidade de Lisboa recebia a primeira parturiente. Foram milhares e milhares os naturais da freguesia de São Sebastião da Pedreira que integraram a ideia de MAC. Um dos meus rebentos aí veio ao mundo. Ficámos hoje a saber que, dois regimes depois, o sonho tem de continuar. Viva o goês Manuel Vicente Alfredo da Costa, que deu muitos novos mundos ao mundo. Obrigado!

O relatório do FMI é tão claro como o lapso: “Grande parte do ajustamento orçamental ainda tem de ser feito nos próximos anos. E, à medida que este ajustamento for ocorrendo, e se combinar, possivelmente, com um ambiente externo mais fraco, uma recessão mais profunda do que a actualmente prevista é bem possível”.

No tempo da ditadura, havia uns cigarritos, ditos fracos, a que todos chamavam mata-ratos. Eram sem filtro e já profetizavam os tempos que correm: todos os provisórios são definitivos, definitivamente provisórios, nesta supensão dos contratos, da palavra dada e dessa pesada herança dos direitos adquiridos.

O gozo que tenho de ver a campanha antiliberal do Portugal de hoje, ainda em ideologismos de trinta anos. Espreitem isto, ilustres preconceituosos:

 

 

Abr 04

você é engraçado, é pena ser tão radical

A verdadeira imagem do estado a que chegámos. Somos um estadinho dependente de super-Estados. Precisamos do cheque e ainda não ficámos chocados. Adoramos pirómanos-bombeiros.

A verdade: o memorando passou a ser superior à constituição. E 85% da nossa representação parlamentar subscreveu-o. A chamada ditadura dos factos.

A Europa inteira voltou hoje ao ritmo das três velocidades do tempo da ocupação romana. No topo, as colónias, para os cidadãos em plenitude, os do eixo. No escalão intermédio, os municípios, os que são dotados de alguma autonomia, embora com “apartheid”. Na base, as chamadas cidades estipendiárias, constituídas pela categoria ἰδιώτης, ou idiōtēs, os que apenas trabalham sem cidadania, ou, dito de outro modo, os que pagam mas não bufam.

Três parangonas, de um bom esquema de “agenda setting”. 1ª “Gaspar garante que suspensão de subsídios vigora só até ao fim do programa de ajustamento”. 2ª “Estamos perto do ponto em que maior parte do esforço» estará feito. 3ª A ida de hoje aos mercados foi um êxito. Podemos passar uma Páscoa feliz.

Mais uma última notícia: “Um idoso suicidou-se esta manhã com um tiro na cabeça na praça central de Atenas, provocando uma grande agitação entre as pessoas que passavam pelo local”. Logo a seguir, este comentário feliz para os povos do Sul: “Apesar da crise, a Grécia tem uma taxa de suicídio inferior à registada nos países do norte da Europa. Em 2009, a taxa de mortes por suicídio no país era de três por cada 100.000 habitantes, menos de um terço da média europeia, segundo a agência Eurostat”.

Li e reli este editorial. Ou a teoria da economia privada sem economia de mercado. Não é liberalismo, é apenas a continuação do salazarismo. Para a nossa vergonha.

Dizia há tempos uma alta figura de estadão para outro, pouco frequentador da Corte: “você é engraçado, é pena ser tão radical”. O primeiro figurante, excelente discursador de esquerda, converteu-se em consultor plural de várias parcerias, onde é ilustre parceiro pensador. E que bem comenta. O segundo nunca foi de esquerda, está farto da direita e defende os radicais do centro excêntrico. Confirmo: o situacionismo tem todo o interesse que os insatisfeitos se encaminhem para a utopia das margens. Mas pode acontecer que a maioria sociológica deixe de frequentar a esplanada do Bloco Central e procure saber o que é que a boneca tem dentro. Pode vir a mudança…

Para os devidos efeitos se recorda que a expressão esquerda moderna foi a qualificação que Cavaco Silva deu da respectiva liderança no PSD. Foi repetida a papel químico por Sócrates quando assumiu a chefia do PS e da nação. Só por estas duas razões é que Passos Coelho a não usou. Já estava gasta e teve a sorte de lhe chamarem liberal. Quando nunca o foi.

António Lobo Antunes, na revista “Visão”, faz o melhor elogio do situacionismo: “Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar a ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem?”

Por acaso também há um parágrafo meu, de depoimento, na investigação sobre “O batalhão de Passos”. Sou apenas suave: “Revela uma falta de cultura de “civil service”. Isto é, conserva a habitual desconfiança dos políticos face aos mecanismos clássicos da administração pública, talvez porque sabem quanto a colonizaram, caindo na tentação gestionária de criação de sucessivos Estados paralelos, onde o ritmo da fidelidade acaba por superar o da competência dos modelos racionais-normativos”.

A literatura nunca se engana. Sobretudo quando se escreve com vida. A culpa apenas está naquela realidade que nem se apercebe quanto coincide esmagadoramente com a caricatura.

Antes colocavam-se no ministério os melhores nomes do Parlamento. Hoje, o ministério consegue ser pior do que a média do Parlamento que beira a mediocridade…As grandes mudanças só ocorreram quando o povo participou. Não se espere nada do Congresso, do Legislativo e do Executivo se o povo não estiver à frente.

O Parlamento é o espelho da nação. O PS e o PSD são espelhos um do outro. E o presidente, a mera consequência deste paralelograma de forças. O grande perigo está na eventual emergência de uma democracia sem povo. Se a partidocracia nos conduzir à democratura.

Más notícias para esta praia, com o espaço de acesso à Meseta quase desertificado: “”Espanha enfrenta uma situação económica de extrema dificuldade, repito, de extrema dificuldade, e quem não compreender isso está a enganar-se a si próprio” (Rajoy, hoje). Quanto melhor estiver o vizinho, menos mal estaremos.

Não, Zé Gomes Ferreira, não sou a favor do laxismo das ASAE, das polícias e das inspecções trabalhistas, com ministros e directores em arbitrário na aplicação das leis. Sou a favor de leis realistas, isto é, de menos e melhores, sem esta loucura da elefantíase legislativa, onde qualquer burocrata faz antologias de direito comparados, com traduções em calão. Mas arbitrário dos aplicadores políticos dá absolutismo.

 

 

Abr 03

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“É um verdadeiro protectorado comandado, não pelo Governo legítimo mas pelo exterior. Não há patriotismo que resista a uma tal situação”. Um dos pais da criatura, nos jornais de hoje.

“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante.” As afirmações não foram feitas pela senhora ministra. Porque a vaca que mediaticamente visitou não foi uma das que inspirou o nosso presidente. Esta ainda espera que chova e que lhe forneçam ração. São Pedro não a deixa pastar em paz.

Já somos pretexto para a gozação universal. No tempo em que havia bilhas, cântaros, púcaros e em que para bebermos alguém tinha de ir à fonte, por falta de água canalizada e de água mineral engarrafada ao preço da chuva, que é muitos, vários provérbios diziam que, de tanto irem, um dia quebrariam ou deixariam lá a asa ou o pescoço. Prefiro outro da sabedoria dos povos e das freguesias: “Tantas vezes vai o cão ao moinho, que alguma vez lá lhe fica o focinho”.

O mundo tem de saber que somos um povo de brandos costumes. Nunca a Grécia assassinou um rei e um príncipe real em 1908. Um presidente em 1918. Um chefe do governo e dois fundadores do regime em 1921. E um chefe da oposição em 1965.

O problema não está em sermos bons alunos. O problema não está sequer na aula. Está no capítulo. Nos directores ocultos da escola. E na crescente sensação de impunidade dos deslumbrados, dos que têm sempre respostas para as únicas perguntas que eles permitem fazer. Deitaram foguetes, incendiaram a mata e agora pedem condecorações como bombeiros, só porque se apressaram a apanhar as canas. Estou farto de notas oficiosas. E dos telejornais de Ramiro Valadão, os que precedem as conversas em família.

Receita da troika: arranjar as pescadinhas (retirar a tripa, cortar as barbatanas e lavar), retirar os olhos (pois ao fritar saltam) e arrepiar (esfregar com sal no sentido contrário ao das escamas para que o peixe fique às lascas no fim de frito). Temperar com louçã a gosto, jerónimo picado e regar com sumo de laranja, deixar a marinar em rosas. Passar os ministros por farinha, colocar o rabo na boca do bicho e premir com os dedos e fritar em eleições bem quentes. Pode servir com cavaco e acompanhar com arroz de durão e continuar tudo na mesma.

O maior poder de subversão da desordem instalada não reside nas jogadas de Corte ou no controlo da informação, mas antes no clássico processo do ir de consciência a consciência, de centro a centro, em termos de exemplo e de convicção. Quando a comunidade dos que pensam de forma racional e justa atingir o consenso não há chicote que chegue nem cenoura que compre. Sucederá a inevitabilidade da emergência, mesmo que se mantenham anteriores convergências e divergências. Teilhard de Chardin apenas precisou o “Space-Time” de Samuel Alexander.

“A separação pode vir a ser difícil, mas pode ser melhor do que ficar num mau casamento” (guru, nº 1 que ainda não almoçou comigo, embora saiba que não há almoços grátis). “Teremos de ver se [a medida] se tornará permanente ou não. Mas isso agora ainda não foi discutido” (funcionário nº 2, que nada tem a ver com a autoridade de “nəgusä nägäst”, derrubada em 1975). Nenhum estava a comentar a relação entre Portugal e a Europa. Melhor: as declarações de Gaspar na Dinamarca, depois de conversações com Constâncio.

O país não está a ser governado a partir de Bruxelas. Apenas vivemos, como a maior parte do mundo: em governança sem governo. Porque a maior parte dos factores de poder não é nacional. Porque acreditámos que a pilotagem automática era mais importante que a vontade de sermos independentes. Porque pensámos que a gestão de dependências, onde está o último grau da real independência, poderia ser accionada pelo GPS do poder banco-burocrático. E porque até não há ninguém que diga: basta!

Os compadres e as comadres do país oficial batem realmente palmas ao primeiro que grita: “L’État c’est moi!”.

Passei os olhos pela net, pesquisando o apelo espanhol a vocações sacerdotais. Mas fiquei a meio caminho, deliciado com esta questão de teologia pura. Ri e reli. E fui à estante para voltar a trazer para a cabeceira Andrés Torres Queiruga, o galego, autor de “Para unha filosofía da saudade”. A notificação da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé é um primor, mas o objecto de notificação ainda é mais estimulante. Leiam as duas coisas. Eu cheguei, há muito, à conclusão que só poderei estudar mais ciência política se souber um pedacinho teologia. Não é ironia, é verdade.

 

Abr 02

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Choveu e chove. As ribeiras floresceram. Mas nem todas desaguam no mesmo rio. Tal como nem todos os rios vão dar o mesmo sítio, chame-se praça, rotunda ou largo. Há muitas vias de chegar ao mar que todos procuramos. Alguns até são rios subterrâneos.

35,4% no emprego jovem. E os donos do negócio dos principais centros de formação ainda querem refinar a formosa táctica que nos conduziu ao desastre, com as habituais chouriçadas que os engordaram em títulos, honrarias e cargos, só porque a ditadura da incompetência continua a ser crime que compensa quem emite discursos de fazer chorar as pedras da calçada, só porque rimam com músicas e plágios falsamente celestiais.

Detesto burocratas broncos, sargentos de caserna, pobres de espírito e todos quantos conseguiram colocação adequada num posto de vencimento graças a eficaz cunha junto de um senhor director, bem colocado na pirâmide de sucesso da distribuição da posta. Normalmente, vêm daqueles neo-escolásticos de uma qualquer vulgata, ao serviço de um mestre-pensador, o que escreveu o livro que diz abrir todas as portas e desfazer todas as dúvidas de quem sofre a angústia da procura. Não tardará que chegue o mosca, o formiga ou o bufo e que voltemos às viradeiras do costume.

A Coreia do Norte reduziu a altura mínima exigida aos soldados de 145 centímetros para 142, uma vez que a geração atual sofre de raquitismo devido à fome que atinge o país. A propaganda do imperialismo é terrível. A fome ainda é pior.

Uma notícia altamente política que a Comissão de Censura não deveria ter deixado passar: “Depressão situada sobre a Península Ibérica está a criar instabilidade. É esperado granizo e trovoada.”

Jaquim tem sinal no pescoço. Todos os que têm esse sinal no pescoço são umas bestas. Logo, sempre que vejo um tipo com um sinal no pescoço já tenho argumento, chamo-lhe qualquer coisa. Até uso insecticida. Antes de poder mandar as moscas. Já estou habituado. Há séculos.

Segundo Weber, a moral da convicção (Gesinnungsethik) incita cada um a agir segundo os seus sentimentos, sem referência à s consequências, diz, por exemplo, para vivermos como pensamos, sem termos de pensar como depois vamos viver. Difere da moral da responsabilidade (Verantwortungsethik). A segunda apenas interpreta a acção em termos de meios–fins e é marcada pelo supra-individualismo, defendendo a eficácia de um finalismo que escolhe os meios necessários, apenas os valorando instrumentalmente, dizendo, por exemplo, como em Maquiavel, que a salvação da cidade é mais importante que a salvação da alma.

A intelectualice que emiti tem a ver com duas conversas que me chegaram. A primeira, de um velho patriarca da esquerda, sobre a instrumentalização de um velho direitista, dizendo que o deviam usar porque ele era inofensivo, vaidoso e até dava jeito. A segunda de um novo direitista no poder, dizendo exactamente o mesmo de um esquerdista. Ambos têm razão enquanto a não perderem. Com o factor mais criativo da história da humanidade: o imprevisto que produz mudanças.

Uma conclusão: em Portugal, o de hoje, e o de ontem, não há espaço para teorias da conspiração, para lutas de ideias ou para combates políticos. É tudo mais de amiguismos de jantarada e de troca de favores. No toma lá, dá cá, que nem feudalismo chega a ser. Porque este tinha lógica. De cavalaria, vergonha e dominação dos outros. Um colonizado está uns degraus abaixo do feudalizado. É mais barato.

Partilhando uma emoção. De Anna Marly, a exilada russa que desencadeou a coisa em Londres, 1943. Há quem pense que a canção tem a ver com um partido ou com uma revolução, o que não corresponde à conspiração de todos quantos criaram a libertação. Francesa e universal.

Sempre acreditei nos acasos procurados.

Um ex-ministro socialista democrático diz para um ex-secretário-geral social democrata que a social democracia está esgotada e os dois parecem de acordo. Estão ao mesmo nível da fúria do manso Seguro contra o ex-presidente do PSD, Marcelo. Não falta sequer o secretário-geral da UGT a criticar o Governo, fingindo estar zangado com Álvaro. É o chamado regime dos memorandos. Para memórias futuras. Mas, a médio prazo, com este ritmo, estaremos todos mortos, em nome das presidenciais.

Quando os do vértice pensam que ganham deixando crescer a onda, pode acontecer o que sucedeu aos que, dizendo que lutam contra os corporativismos, atacam zonas do Estado como os magistrados, os tropas, os professores ou os autarcas. Até há quem diga que alguns já lá estão desde o 25 de Abril. Sem repararem nos que lá continuam desde antes do 25 de Abril e continuam a mandar para que os de sempre continuem a pagar. Até com sentimento de culpa. E com razão. Continuamos a deixar que outros escolham por nós.

 

Abr 02

Chantal Maillard

Mesmo aqueles que acedem ao clube do pensamento pela via das vulgatas e da propaganda, quando se tornam militantes, podem atingir a autenticidade. Até no fundo de uma ideologia materialista se pode chegar à ascese. Conheço niilistas que no tudo do seu nada encontraram a dúvida criadora que lhes deu a beleza do espírito. E assim ascenderam. Daí, a importância dos símbolos.

No existe el infinito:
el infinito es la sorpresa de los límites.
Alguien constata su impotencia
y luego la prolonga más allá de la imagen, en la idea,
y nace el infinito.
El infinito es el dolor
de la razón que asalta nuestro cuerpo.

(Chantal Maillard)

Há quem jure, em palavras de mentira, que quem, como eu, fala publicamente anda de braço dado com o poder, porque, para tanto, é remunerado. Para os devidos efeitos, comprometo-me a oferecer todos esses proventos a quem vier à rede, provando-o. Basta que solicite tal informação ao fantasmagórico remunerador, naquilo que deve ser informação pública. Não cobro nada pela ofensa. Apenas reivindico a verdade. Porque, calando, pago duas vezes: pelo que não recebo e pelas doçuras com que o poder me trata. Amen!

Hoje, ando às voltas com Chantal Maillard: “cuando la lógica se aplica en ámbitos que rebasan el conocimiento, es un juego parecido al del ajedrez: tienes unas piezas y se juega en el tablero, pero si pretendes que ese tablero es la realidad exterior, es tramposo. Juegos metafísicos los hay en todas partes, pero la trampa es creer en los grandes conceptos, cuando creemos que las palabras dicen algo de lo concreto. Lo concreto es singular, y los conceptos son universales”.

O máximo de poder a que podemos aceder é renunciarmos a poder que manifestamente nos deram. Aquele poder feudal que apenas nos é fingidamente ofertado, para que, depois, ele se retribua em obediência sem consentimento. O que só se consegue quando se rejeita o título, o símbolo e a pretensa honraria que o exercício do poder parece.

A principal forma de poder que se pode exercer é alcançar aquele estatuto que permite a cada um poder não saltar para o cavalo do poder com que nos podemos cruzar. O que impõe não ter cavalariça onde gaurdá-lo. Ou sacristia onde ele possa ser exibido. Só com o anarquismo místico da procura da verdadeira ordem se alcança tal forma de ascese, isto é, de não dependência face aos bobos da Corte.

Ter poder com autoridade é não ser como aqueles politicamente correctos que, quando querem ser ouvidos, têm de proclamar que aquilo que vão dizer não é politicamente correcto. Mesmo quando, como é costume, eles continuam sem dizer nada.

Passámos do que estava para o que está. O que estará pode vir a ser aquilo que esteve. Se continuar o estar em vez do ser.

Há certas modas que deveriam já ter passado de moda. Nomeadamente, o neomarialvismo da revolução por cumprir, a que, assumindo o hierárquico e o proibicionismo do poder formal, diz que não pode cumprir a sua função porque há capitalismo, Estado, tempestades de granizo e trovoada.

Há nomes que, para corresponderem às coisas nomeadas, precisam de formas humanas que não estejam gastas pelo mau uso de certo estilo e, muito menos, se tenham prostituído pelo abuso discursivo. Esse disco riscado continua a provocar-nos alergia. Mas vai tocando o mais do mesmo. Não sou rei para o mandar calar. Apenas desligo.

 

Abr 01

Dia das mentiras

Presidente Cavaco passa serão em Boliqueime com José Sócrates Pinto de Sousa. A reconciliação será anunciada hoje, dia 1 de Abril, antecedendo o formal anúncio do pacto de regime, a que vão juntar-se Seguro e Passos. Abrilhantará o evento a banda Homens da Luta. O professor Marcelo Rebelo de Sousa moderará o recontro.