Andam por aí inúmeros seres de intolerância que me vão arrepelando a alma, desde jacobinos não reciclados, militantemente anti-religião, muitos pelos complexos e frustrações qye receberam em seminários e colégios religiosos, a permanentes ratos de sacristia, pintados de beatos. Ambos assumem a espionite da viperina língua, não disfarçando os salamaleques da diplomacia do croquete dos que se entretêm a espalhar o veneno da intriga neopidesca. E lá nos vamos estreitando em pedinchice de uma barataria que nos reduz a um entupido portugalório. Há muitas capelinhas que preferem actuar pela calada dos passos perdidos. Há muitos que continuam a fabricar aquelas cumplicidades que lhes permitiram ganhar a vida como pretensos donos daquilo que formalizam como inteligência, mas que assumem a intolerância típica dos inquisidores e sargentos da censura. Há muitos que apenas toleram que sejam eles próprios os fabricantes da intolerância, da difamação e do insulto. E ai de quem ousar pisar-lhes as calosidades opinativas, rejeitando seguir-lhes os ditames que emitem sobre a partidocracia que os protege e prebenda, ou ofender-lhes os meandros apoiantes do respectivo benefício situacionista. Têm sempre disponível matilhas de raivosos canídeos, que logo ribombam num eco multitudinários do mata e esfola. Claro que, graças às barrosadas e portadas de quem fostes servidores, atentos, reverendos e obrigados, haveis ido daquela para outra melhor, bem cobertos misticamente, e melhor subsidiados bancariamente, para que se cumprissem os objectivos da criação da tal direita que convém à esquerda. Vós sois os eternos críticos e oficiosos biografadores daqueles que, em troca, vos elogiam, irmanados que estais no sindicato das citações mútuas, nesses doces enlevos que vos fizeram encartados homens de cultura. Até esperais que mais doce ainda possa ser a vossa caminhada no “cursus honorum” das barretices e borladas de capelo olímpico, que vos hão-de doirar em retratos a óleo na sala de estar e em muitos bustos com ar de brutos. Porque, como cães de fila e vozes de dono, nunca passareis de engraxadores do ditirambo, visando subir mais alto, aos etéreos vértices donde, finalmente, podereis clamar o “cheguei, vi e venci”. Pois, continuai a falar em doutrinas como justificação para o insulto e a mentira, como outros disseram pátria e humanidade, para disfarçarem crimes de assasinato físico e moral. Eu não me calarei, enquanto a voz puder ser comunicada aos outros. Apenas me apetece recordar uma bela frase de Henrique Paiva Couceiro: “vocês não imaginam o quanto trabalho me deu na vida continuar pobre”.
Monthly Archives: Abril 2005
A Europa dos impérios frustrados
Portugal já tinha saudades dos vibrantes discursos de Pedro, honra lhe seja, dado que começamos a perder a ajuizada vontade do pensar difícil, especialmente quando reparamos que o máximo de socialismo e de catolicismo coincidem nos que também representam o máximo de financismo e de filosofismo, nessas comunicativas personalidades do que está e do que estava, discordando no acordo de serem as duas faces da mesma moeda situacionista. Por isso, poucos se dão conta de debates como o francês, bem como das reuniões cimeiras do rolo compressor da Europa do directório, dessa federação de impérios frustrados que pretendem disciplinar os pequenos e médios Estados que ameaçam escapar ao controlo. Com efeito, a questão europeia só em Portugal é que não está na agenda. Porque começa a tornar-se prepotente este pretenso europeísmo de certos centros estaduais antinacionais, conformados pelas memórias de Napoleão ou pelos II e III Reich, esse métodos carolíngios ou bismarckianos, mais ou menos apoiados pelo vaticanismo que, depois de aprenderem com os erros das derrotas que lhes foram infligidos pelas coligações negativas das resistências anti-imperiais, trataram de usurpar as boas intenções de Schuman e de Monnet, decretando agora tal europeísmo oficioso tão estreito e falsificador como a única maneira de podermos ser europeístas. Reclamando a vitória sobre o sovietismo, conseguiram instrumentalizar, à esquerda e à direita, o grande Bloco Central do interesses, os do Partido Socialista Europeu e do Partido Popular Europeu, bem como os dos neocorporativismoss sindicais e patronais. E, por ironia do destino, parece que as liberdades nacionais estão dependentes do chauvinismo francês que, a pretexto de Frankenstein ou lá o que é… e da recusa de adesão da Turquia, pode, através do “não”, dar aos europeus aquele necessário tempo de pausa que impeça a adopção de certas tolices gnósticas, emitidas pelo grupo capitaneado pelo senhor Valéry Giscard d’Estaing. O que seria uma notícia tão excelente quanto a que permitiu, outrora, a rejeição da UEO. Com efeito, o egotismo gaulês pode, paradoxalmente, permitir que se reformulem as actuais palas do projecto europeu dominante. Porque uma Europa que passe a depender, para o “sim” ou para o “não”, de uma votação conjuntural de mais um, ou de menos um, por cento, é uma Europa que deixa de assentar no necessário vasto consenso ou de uma votação por maioria qualificada. Fazermos depender um passo estrutural dessa dimensão da vontade de uma maioria conjuntural e relativíssima significa que passamos a andar a reboque de uma simples “vontade de todos” e não da necessária “vontade geral”. Por outras palavras, todos os nossos destinos comuns passam a depender de um breve fio de linho, onde tudo varia de acordo com dois ou três sinais de oportunismo reivindicativo e de um complexo de barganhas que pode pôr em perigo o método do sufrágio universal. Ninguém pode construir pátrias, ou grandes espaços marcados pela supranacionalidade, através desses passos de uma mágica aparelhística e eleitoralista. Ganhe o “não” ou o “sim”, no próximo referendo francês, já todos perdemos. E perderemos ainda mais se, como é previsível, soarem as trombetas épicas do euro-entusiasmo ou do euro-cepticismo. Porque, na imediata curva do caminho, o que se decidir num ou noutro sentido pode des-decidir-se meses depois, conforme se satisfaçam, ou não, as reivindicações instrumentalizadoras da ida às urnas, como já aconteceu com a compra de votos, depois do primeiro não dinamarquês a Maastricht. Aliás, se se impusesse um patamar mínimo de participação para a validação dos referendos, poderíamos concluir por uma eventual maioria de indiferentistas, bem superior aos euro-entusiastas ou euro-cépticos. Por outras palavras, tendemos cada vez a sermos cada vez menos euro-calmos, assentes numa contraditória gestão de geometrias variáveis, pouco interessadas na aplicação do princípio da subsidiariedade, quando este reforça os modelos de manutenção das autonomias nacionais.
As maravilhas jurídicas deste milénio
Tentando actualizar a minha “reaccionária” formação em leis, depois de verificar como as “auditorias jurídicas” existentes nos vários ministérios foram ultrapassadas pelo recurso à consultadoria deste oligopólio, também bastante influente a nível da partidocracia e do mundo dos grandes negócios, julgo que o Estado, para salvaguardar a excelência destes centros de decisão nacional, deveria dar um passo ainda mais ousado, concessionando todos os serviços da Procuradoria-Geral da República a estas entidades, ao mesmo tempo que as principais faculdades de direito também poderiam passar para a gestão das mesmas. Desta maneira, até se poderiam resolver os problemas de desemprego que afectam os jovens licenciados em direito, porque, em vez de 300 vezes três, poderíamos multiplicar por dez as novas oportunidades de excelência. Em seguida, seria talvez possível fazer uma grande operação de concentração dos três grandes e o Senhor Feliz aliar-se-ia finalmente ao Senhor Contente. E da advocacia passaríamos ao supremo estádio da gestão de interesses e, dos grupos de interesses, passaríamos à gestão da influência e, desta, ao grupo de pressão e, da pressão, ao estoiro, onde o público deixaria de ser o todo, o bem comum, o pleno, mas a parte em lugar da vontade geral, para a gargalhada nos inundasse em tráfego de barganhas. Confesso estar definitivamente ultrapassado pelas maravilhas jurídicas deste milénio, deseducado que fui por escolas jurídicas onde fui aluno e docente, nos já longínquos séculos das trevas, bem como pelo meu estágio de advocacia feito na antiquíssima Coimbra do meu querido e falecido patrono Manuel Fernandes de Oliveira, ainda marcado por outras deontologias. Por mim, preferia o regresso ao modelo das auditorias jurídicas e a entrega a funcionários públicos em regime de exclusividade das funções de “advogado do Estado”. Pelo menos, para que a mulher de César, além de séria, parecesse séria. Mas não passo de um nostálgico de certos princípios que parecem já pertencer a outras eras, embora esteja disponível para lutar pela actual constitucionalização dos mesmos, como apreendi de meus avós, campónios e analfabetos e, durante uns anos ensinei aos meus alunos de filosofia do direito na dita Clássica, antes de eu assistir a campanhas eleitorais para órgãos académicos noutras escolas, onde uma das listas até invoca o facto de ter a liderança de um advogado avençado que consegue descontos num dos escritórios dos avençados e pode pôr, de forma mais barata, as escolas concorrentes nas teias da conflitualidade jurídica dos pareceres e das consultas, com o nome de um grande, mas subscrito por um dos dessas lojas de trezentos… Ainda acredito que seja possível uma distinção entre o público e o privado e não advogo o “tertium genus” que, na economia, deu origem àqueles vícios das sociedades de economia mística, que são pela privatização quando a coisa está a dar lucro e pela publicização, quando o risco acaba por levar a prejuízos. Até rejeito que se mantenha o sistema de uma economia privada sem a concorrencialidade da economia de mercado. Aliás, exijo regras de concorrência que punam os abusos de posição dominante. E, muito liberalmente, considero que os princípios que defendo para economia devem estender-se aos próprios advogados, sociedades de advogados e multinacionais do direito.
Quem tem boca não precisa de ir a Roma, insulta os romanos
Certos narcisismos catedráticos sofrem daquela doença da rolhice ou da procura da equidistância unanimista, onde, à direita e à esquerda, há sempre candidatos ao paradigma Talleyrand, meio-bispo, meio-ministro, mas que, contudo, tanto não chegam a cardeal como não atingem a dimensão de grão-mestre. Eles são os eternos reitores por cumprir, teoricizando humanices, mas onde, na prática, a teoria é outra. Até julgam, muito negligentemente, que se podem eliminar registos da história e que a barragem de fabricação de imagem e de manipulação engenheiral da sedução nos pode apagar a verdade. Como se todos tivessemos que ser unidimensionalizados pela obediência do reverencial temor, face a essa iluminação solar do egotismo. Só que nem todos somos estúpidos e alguns até conseguem chamar pelos nomes os bois do despotismo, pelo que a impunidade pode não durar para sempre. Pobres desses pretensos divinais, só porque passeiam o pára-raios da respectiva influência predadora que continua a misturar o servilismo com o cardinalício laico. Mas não passam de homens de ódios e de vindictas que sempre aceitaram o prato de um qualquer trono gerador de lentilhas. Afinal, não passam de doutos troca-tintas que sempre aclamaram os vencedores, desde que estes os premiassem com uma condecoração de lata, ou uma prebenda, de preferência, convertível em metálico. Alguns, em nome da pose, continuam a exercer a respectiva actividade quaotidiana de venda da ideologia, sobretudo neste país de bonzos, onde quem tem boca não vai a Roma, mas vive de insultar Roma e os romanos, perante jovens embasbacados que receberam a programação dos livros únicos da chamada educação para tratarem os ditos cujos como monstros sagrados do vira o disco e toca o mesmo.
Papa João Paulo II e o ritmo do velho tempo novo
O quinto Papa da minha existência que, durante vinte e sete anos, marcou o ritmo do mundo e de cada um dos homens concretos que cultivam a memória, João como João XXIII, Paulo, como Paulo VI, despediu-se do efémero tempo dos vivos e atingiu a dimensão da eternidade às 20 horas e 37 minutos do dia 2 de Abril de 2005, no primeiro sábado mariano do mês de Maio. Com ele, vivemos o fim da cortina de ferro e da guerra fria, acompanhando a integração dos antigos satélites da URSS na União Europeia, nomeadamente a sua Polónia natal. Com ele, entrámos no contraditório da globalização, voltando ao ritmo de velho tempo novo, marcado pelo regresso da história, da inquietude e da esperança. É o homem de sempre, o homem de futuro, pleno de passado e ávido de presente, que voltou a subscrever o universalismo pela diferença, bem expresso pelo espírito de Assis, assim estilhaçando o hegeliano confronto entre o reaccionário e o progressista, entre o tradicionalista e o modernizador. Daí que caiam na lama da vulgaridade, essas análises politicamente correctas dos que o alcunha m como “um dos Papas mais conservadores do último século” que “tomou posições fortemente controversas”, para utilizarmos as judiciosas palavras do nosso querido e inquisitorial Bloco de Esquerda, ou dos que, muito canhestramente, vêm denunciar o “conservadorismo teológico” de quem não terá assistido às charlas reaccionariamente progressistas com que o nosso antigo presidente se vê ao espelho da vaidade. João Paulo II merecia bem mais do que as estreitas e baças lentes das perguntas feitas, num inquérito de hoje, pelo jornal francês “Le Parisien, onde se revela que 53 por cento quer um Papa “mais progressista”, 27 por cento, um sucessor que “prolongue” a acção de Karol Wojtyla e cerca de 13 por cento, um Papa “mais tradicional”, ao mesmo tempo que cerca de 40 por cento afirma que o Papa era “aberto ao mundo”, enquanto 26 por cento o considera “conservador”, 20 por cento “tradicional” e nove por cento “inovador”. Tais adjectivos não conseguem capatar as divergências e convergências que a emergência deste homem comum, feito representante de um sonho de mais além, nestas encruzilhadas do nosso tempo. Ele é apenas um clássico anti-modernista, anti-reaccionário e anti-progressista que não cabe nos chavões do politicamente correcto. Ainda bem que, ao defender a democracia e ao denunciar o capitalismo sem ética, manteve o paradoxo de uma concepção do mundo e da vida que não se reduz ao binário que o tenta dizer “progressista” no plano social, mas “tradicionalista” e “conservador” no plano moral, social e pessoal. Ainda bem que o Papa da Igreja-Espectáculo foi dono de uma sabedoria humanista, capaz de fazer com que um excelso homem de pensamento passasse a coerente homem de acção. Viveu como pensou. Saúdo que tenha posto fim aos preconceitos que muitos católicos mantinham face a judeus, budistas e islâmicos. Noto o proteccionismo que gerou face ao Opus Dei e à Comunhão e Libertação. A rigidez, relativamente aos problemas do sexo ou da igualdade da mulher, dentro da Igreja. Lamento que não tenha sido possível uma mais íntima ligação entre católicos e ortodoxos, ou que não se tenha acelerado a comunhão ecuménica com os protestantes. Mas compreendo que o choque destas novidades tenha levado a desadequações face a certas igrejas nacionais, onde, muitas vezes, teve católicos, e pastores, bem menos papistas do que o próprio Papa em tolerância, especialmente nos lugares onde, em vez de judeus, há maçons. Revejo imagens das suas visitas a Portugal, ao Brasil, a Angola e a Timor. Leio os sinais que emitiu sobre Fátima, mas continuo a considerá-los como um mistério, talvez por não saber lidar com o sobrenatural. E de nada me queixo, porque, não sendo soldado desse povo de Deus, não tenho que criticar por dentro, o que vejo, de perto, mas de fora, como simples homem de boa vontade. O homem da resistência anti-nazi e anti-comunista, acabou por ser o belo Papa que se tornou inconveniente para a direita e para a esquerda, o tal tradicionalista que nunca foi bem visto pelos neo-conservadores, o tal libertador que nunca foi compreendido pelos neo-liberais. Aquele que, aliás, nunca foi captado por aqueles pretensos progressistas cristãos dos anos sessenta do século XX que bem queriam um Papa com mais hesitações luteranas do que com convicções católicas. Aquele que, contudo, conseguiu assumir por dentro as profundidades da chamada teologia da libertação, evitando que ela se diluísse numa estreita teologia da revolução, perdendo-se no maniqueísmo marxiano. Como outrora escrevi: com João Paulo II não acabou, de vez, o pragmatismo da razão de Estado vaticana, que, se não se filia directamente no maquiavelismo, nem por isso deixa de fomentar a necessidade de alguns meios justificarem certos altos fins. Se o maquiavelismo é a mistura de força com manha, o vaticanismo nunca deixou de recorrer à manha, tendo em vista a propagação da fé, embora sem poder recorrer à força. E não há dúvida que a diplomacia da Santa Sé tem muitas vezes escrito direito por linhas tortas. Se o antigo pastor da diocese dos campos de concentração, filho de uma pátria experimentada em ocupações, não teve que receber lições de resistência de teóricos de café, soube, de experiência vivida, que os caminhos da libertação, na maior parte das vezes, não passavam pelos palcos do espectáculo ou pelo exercício de sinais ostensivos de verbalismo, mesmo que executados em homílias de altar. Mas os relatos jornalísticos apenas puderam captar a parte visível do “iceberg” e nunca seriam capazes de entender o alcance das sementes de esperança que o Papa da libertação lançou nas consciências. Talvez tenhamos, entretanto, que aprender que as lutas de resistência só têm essa dimensão quando são capazes de levar as causas aparentemente perdidas até vitória, depois de muitas derrotas em inúmeras batalhas. Mas importa dar a César o que é de César e ao Papa o que é da Igreja, pelo que não pode ser o sucessor de Pedro a substituir-se aos homens no combate político. Os velhos manuais católicos de resistência que, na senda de S. Tomás, foram fundamentalmente aperfeiçoados pela escolástica peninsular dos jesuítas dos séculos XVI e XVII, ensinam que onde falta a força se deve refinar a manha, mas sem nunca perder-se a fé.
João Paulo II
Minuto a minuto, chegam mais novas de Roma, antecipando-se os últimos minutos de vida terrena de quem tão intensamente marcou o ritmo do mundo, no último quarto de século. De quem ajudou a derrubar alguns muros da vergonha que dividiam os homens. De quem semeou os encontros de Assis. De quem amou Portugal. João Paulo II, presente. Para sempre. Sempre que haja homens de boa vontade. Pena que haja certos católicos que, nestes domínios, são bem menos papistas que o próprio Papa. Desses que nos querem manter enclausurados em fantasmas e preconceitos, acirrando denunciações, inquisições e guerras santas. Desses que chamam transcendente a certos clubes fechados, com reservado privilégio de seitas, plenas de eclesiásticos censores que, exibindo o carimbo do “nihil obstat”, apenas sabem brandir o punhal vingativo da excomunhão. Como se o transcendente e a própria fé no mais além pudessem ser o falso espírito desses pobres de espírito que, confundindo os nomes com as coisas nomeadas, se diluem como rebanho nos colectivismos morais. Dos que consideram a dissidência, a heterodoxia, a autonomia e o pensamento livre como heresia a martelar pela vozearia das multidões vingativas. E há sempre as penas compradas dos escribas e intelectuários e toda essa fauna dos opíparos convidados para as jantaradas dos falsos convivas do comemorativismo dos vencedores. Mas eles não sabem, coitados, que, sem aquela humildade da sabedoria, vencer é quase sempre ser vencido, porque o vencedor, um quarto de hora antes de ser derrotado, ainda exibe a pose do vencedor, com os tiques e arrebiques dos caricaturais donos do poder. E tudo porque confunde a ilusão de ser chefe com o estado de coisas que lhe dá o monopólio da palavra. Porque, tal como acontece com os primitivos actuais, também aqui, o chefe é aquele que discursa. Melhor: aquele que controla a sonoplastia e que liga e desliga o microfone dos Papagaios que vão telejornalando e comiciando. Como se um “soundbyte” pudesse ser discurso. Como se a palavra fora da corrente do “logos”, pudesse existir, assim livre do contexto, assim desprendida do Texto. Tal como o tal discurso, ou “logos”, se tem de enraizar numa “paideia”, para poder ter sentido comunitário. Para que a palavra possa ter sentido, ela tem que nascer de novo, todos os dias, refazendo-se pela pureza primordial dessas nascentes de águas vivas a que podemos dar o nome de pátria. Onde a pátria maior tem que brotar da congregação federadora das muitas pequenas pátrias. E onde cada pátria maior não pode enclausurar-se em chauvinismos, soberanismos e outras umbiguices, antes se exigindo que procure o universal, nessa brasa feita fogueira de crenças que nos dês sentido armilar, que nos faça sinal de uma super-nação futura a que podemos dar o nome de república universal.