Jun 14

Habemus gobernum!

Não consegui espreitar o fumo na chaminé de Belém. Na Bélgica, há ano e dia que andam à procura de acordo…

 

Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda o que passa de moda. Mas a malta gosta de rodas o mesmo filme. Adoramos retomar a bebedeira, para escaparmos à ditadura da realidade. Nem reparamos que o nosso destino está a ser decidido entre Bruxelas e Atenas…

 

Enquanto um tradicional correspondente televisivo junto a UE ia dedilhando as bocas do corredor dessas instâncias bruxeleiras, na praça dita de Schuman, ao fundo, iam passando, apressados, os eurocratas do costume, empurrando pastas e malinhas de rodas. Porque quem nos governa é o senhor ninguém que os comanda e nos entala…

 

Essa do governo de guerra, lembra-me a união sagrada, de democráticos e evolucionistas. Mesmo esta, tanto não foi de concentração republicana como não chegou governo nacional, como foram os governos verdadeiramente de guerra que ganharam a guerra, como o de Londres…

Jun 13

País

É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias, acabe com o país nominal, inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais, e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo que, e do funcionalismo que quer e há-de ser (Alexandre Herculano, na Carta aos Eleitores do Concelho de Sintra, de 1858)

Jun 11

Um bom governo de Portugal

Um bom governo de Portugal será aquele que conseguir conquistar a confiança dos que não votaram PSD ou CDS, tendo suficiente flexibilidade para navegar numa alteração anormal das circunstâncias que os acasos da geofinança gerarem, nomeadamente quando o directório europeu atirar o acordo com a troika para o caixote de lixo da história…

É previsível que o normal consista numa sucessão de acontecimentos anormais, dado que a maior parte dos factores de poder já não são intranacionais nem são controlados pelas próprias instituições europeias. O poder informal da geofinança desfez todos os velhos quadros formais.

 

Vivemos sempre à beira daquele perigoso conceito das forças vivas em movimento, para as quais o soberano é apenas aquele decide em estados excepcionais. Por outras palavras, a excepção já não confirma a regra. E quem não estiver preparado para a mudança pode arriscar, mas não petisca.

 

Ninguém come ideologias, mas até os pepinos podem ser objecto do regresso do racismo do pequeno confronto de civilizações intra-europeu. A malta das brumas e da meia-noite pensa que os tipos do meio-dia, da bacia do velho mar interior, aguentam as abstracções e os conceitos dos respectivos sistemismos. O marxismo branco continua…

 

O marxismo branco pode ser o direitismo actual que não consegue compreender como é que um velho liberal pode estar mais próximo de um libertário anarquista que de um futuro ministro pretensamente bem-comportado que quer passar no exame analítico do bom aluno, perante um desses contínuos eurocratas que nos reduzem a simples folhas de “Excel” vistas com “ad usum catrogae”.

 

Há muita gente que não percebe que quem mais ganha com a guerra entre os canhotos de ontem e os endireitas de hoje são sempre os bonzos que nos instrumentalizam…

Jun 10

Comemorando mais um fim de ciclo

Comemorando mais um fim de ciclo. Ou o registo da minha participação no Encontro dos Liberais Ibéricos no passado dia dez.

 

Porque Passos Coelho volta a dizer que é um homem de palavra, não comento indícios. Nisso, prefiro ser como o S. Tomé. Mesmo que não haja chagas. Basta a lista das escolhas dos ministeriais.

 

Quem vê em directo a turbulência de Atenas e de Barcelona, pode confirmar a areia movediça em que se movem os pequenos e médios Estados de uma Europa que diziam federal. Espero que o nosso próximo governo tenha a humildade de o reconhecer e que, depois desta agregação, se prepare um consenso bem maior, antes de um indesejável estado de necessidade.

 

A geo-estratégia é mera ciência auxiliar da política…. acerta tanto como as sondagens e a teologia

 

Por isso é que o João Paulo II e um electricista de Gdansk derrotaram a herança de Estaline…

 

Tal como um fabricante de champanhe imaginou a União Europeia..

 

E um imperador do Brasil desembarcou no Mindelo…

 

Costuma haver conversões na estrada de Damasco…

 

“Face a indícios de que 137 auditores que estão no Centro de Estudos Judiciários a formarem-se para serem magistrados copiaram num teste, a instituição atribuiu dez a todos”. Por mim, chumbava é este modelo de grelha, bem como os seus autores e executores…

Jun 10

Dez de Junho

Dia de Portugal. Corria o ano de 1880, quando Teófilo Braga e Ramalho Ortigão promoveram o Centenário de Camões. A rainha participa nas cerimónias de 10 de Junho, em carruagem descoberta. A comissão organizadora, presidida pelo visconde da Juromenha, mobiliza Eduardo Coelho, Sebastião de Magalhães Lima e Manuel Pinheiro Chagas, havendo grande apoio da maçonaria. Foi dez anos antes do Ultimatum…

 

Dia de Portugal. Em 1890: a estátua de Camões em Lisboa aparece rodeada de crepes negros, por iniciativa do deputado Eduardo Abreu e “a multidão vai enfim modelar-se em povo em torno da figura lendária do grande épico, e uma pátria surgir onde até aí se revolvia surdamente uma colmeia” (Basílio Teles). Compõe-se A Portuguesa. Miguel Ângelo Pereira compõe A Marcha do Ódio, musicando poema de Guerra Junqueiro.

 

Dia de Portugal: ano de 1825. Garrett publica em Paris “Camões”. Aí se canta: “Saudade! Gosto amargo de infelizes! Delicioso pungir de acerbo espinho!”. A pátria que hoje se comemora é uma invenção dos românticos liberais do século XIX. Os tecnocratas nunca o entenderão. E os funcionários públicos sem espinha, também não.

Jun 09

Farpas

Às vezes, apetece cometer o pecado de tanto rejeitar o politicamente correcto da esquerda cultural como de não alinhar com a direita louvaminheira que ingressou na fileira do situacionismo.

Daquele situacionismo, onde o máximo denominador comum é pensarmos que um bom pai de família deste alargado Bloco Central que nos vai decadentizando tem de ser alguém com o chamado coração à esquerda, mas com a razão à direita, de maneira que possa pontificar a vontade de poder do aparelhismo partidocrático.

Talvez não seja por acaso que, muitas vezes, ao levantarmos a bandeira liberal, a fazemos rimar com o Porto, num país onde quase todos esquecem que a expressão liberal, apesar das inequívocas origens doutrinárias anglo-americanas e setecentistas, teve um baptismo hispânico.

Começando pelo liberal Benjamin Constant, importa recordar que o patriotismo só existe pela afeição cheia de raízes que prende o povo às localidades e constitui o exacto contrário daquela ideia dominante de Estado transformada numa abstracção, numa ideia indefinida e inconsciente geradora de um patriotismo vago e infecundo. Porque, como repetia Eça de Queiroz, importa superar essa ideia de centralização onde se destrói a vida parcial e onde se forma no centro outro pequeno Estado que é a concentração das forças, das actividades, das concorrências, onde o governo é um grupo exclusivo de homens que parecem ter a virtude oculta, o segredo, a ciência misteriosa de governar; é uma magistratura suprema enfeudada numa certa família de chefes, que a ninguém deixam as insígnias sagradas e a púrpura distintiva. Só eles são os que concebem e os que pensam, os que dão a força e a luz.

Porque, conforme o mesmo Constant, a variedade é a organização, a uniformidade é o mecanismo; a variedade é a vida; a uniformidade é a morte.

Aliás, foi só depois da célebre Revolução de Cádis de 1811, a principal matriz emocional dos nossos vintistas, que, em Inglaterra, começou a aparecer a designação de british liberales que, pouco a pouco, foi denominando o velho partido wigh, o qual, a partir de 1840, passa a considerar-se como Liberal Party.

Importa assinalar este pequeno pormenor histórico para lembrar a todos os que continuam embalados na vaga de um doutrinarismo liberalista, por vezes demasiadamente estrangeirado, que há também, entre nós, enraizadas tradições liberais. Referimo-nos não apenas ao liberalismo institucional que vigorou em Portugal de 1834 a 1926, mas também ao fundo liberal dos factores democráticos da formação de Portugal que marcavam a nossa Constituição histórica anterior ao absolutismo, bem como aos próprios rastos liberais que permaneceram no regime do Estado Novo e que o desirmanaram dos totalitarismos fascista e nazi, dado que não foi possível comprimir a plurissecular democracia da sociedade civil.

Aliás, talvez caiba a Fernando Pessoa uma das mais modelares definições de liberalismo: a doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo.

Julgo que quem é liberal com raízes tem que ser, quase por conclusão, em virtude da mentalidade suicida de certa esquerda deste “reino cadaveroso”, excentricamente, de direita, para poder dizer, como Montaigne, que quem tem a ilusão de nos comandar intelectualmente, pode obrigar muitos à disciplina e à obediência, mas não à estima e ao afecto, que só reconhecemos a quem o merece.

Quem não gosta da servitude volontaire dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos cadáveres adiados que procriam epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, prefere, naturalmente, por exigência da própria procura da perfeição, os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro.

Voltando a Montaigne, sempre direi que a confusão das ideias humanas fez que os múltiplos costumes e crenças opostos aos meus, mais me instruíssem e contrariassem. Percebam, pois, os gestores do actual situacionismo que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas pombalistas de reforma de estudos ou à formiga branca, essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir.

Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo puseram na gaveta as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores.

Foi a direita liberal que historicamente eliminou a possibilidade dos genocídios das Vendeias, como foi a esquerda republicana que gerou os mitos racistas do colonialismo. Os campeões do sufrágio universal entre nós não foram os democratistas de Afonso Costa, mas as direitas monárquicas regeneradoras e o sidonismo, tal como o Welfare State foi obra do salazarismo que também institui o sufrágio feminino. Da mesma forma os precursores do ecologismo não foram os verdes comunistas, mas os fundadores do partido popular monárquico.

Quem solidificou a democracia da sociedade civil em Portugal foi a carta constitucional de 1826, não foi a Carbonária. Quem aboliu a pena de morte e enraizou as liberdades foi o regime dos descendentes do senhor D. Pedro IV e não os racha-sindicalistas.

Os que, no fim, voltam ao princípio, querendo apagar o que, pelo meio, praticaram, apenas continuarão a semear a incoerência dos que concluem que, na prática, a teoria é outra.

Voltando a Montaigne, importa reconhecer que o mundo não é senão variedade e dissemelhança. E que somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Até porque lamento encontrar em meus compatriotas essa inconsequência que faz com que se deixem tão cegamente influenciar e iludir pela moda do momento, que são capazes de mudar de opinião tantas vezes que ela própria muda…

Porque as pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar a sua interpretação e persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade… Gostaria que cada qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os limites de seus conhecimentos

Porque nunca um homem se pode banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. A não ser os que não sabem reconhecer que há tantas maneiras de interpretar, que é difícil, qualquer que seja o assunto, um espírito engenhoso não descobrir o que lhe convenha.

Preocupante é, contudo, a circunstância de se manterem os subsistemas de Corte gerados por alguns pretensos super-senadores da República, esses grupos de pressão multiformes que se desdobram pelos bastidores da política, da cultura e da educação. Mais preocupante ainda será a hipótese de todos ou alguns desses fantasmas se federarem numa espécie de sociedade de egoístas, juntando anteriores irmãos-inimigos.

Na verdade, o chamado sector intelectual da Pátria Portuguesa vive uma curioso decadentismo, onde os principais teóricos do situacionismo, isto é, os canalizadores da opinião pública instalada nos grandes meios de comunicação oficiosos, começam já a falar em crise de regime, dado que o actual situacionismo segue a máxima do empirismo organizador de Salazar, segundo o qual o essencial do poder é procurar manter-se, na senda do dito de Mussolini, para quem o dever de qualquer regime é o de durar.

Por mim, prefiro seguir a velha lição liberal de Luís Mousinho de Albuquerque, para quem o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do edifício da existência social. O valor fundamental é a independência portuguesa e o carácter nacional, importando servir o Estado…o Estado, a República…este dever todo moral, todo patriótico.

Seguindo tal exemplo, importa ser excêntrico a todas as parcialidades, a todas as exclusões, a todas as intolerâncias, para poder ser concêntrico com a nação, para que a nação seja governada para a nação e pela nação. Quer ser governada no interesse de todos, e não no interesse de alguns; quer ser governada pela influência colectiva de todos, e não pela influência exclusiva de uma parcialidade; quer o concurso de todas as virtudes, de todos os talentos, de todas as probidades para presidir aos seus destinos, sem distinção de cores, sem exclusões partidárias.

Por isso, há que assumir uma bandeira nacional, que seja excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças, em nome dodesejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade. Por um governo representativo, não em nome, mas em realidade. Por um regime, verdadeiro e sincero, para que a nação seja governada com justiça, com verdade e com amor; porque mal dos povos que não são governados com amor, mal das nações que são regidas sem sinceridade.

Podem as nações ter a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes.

 

 

Jun 09

Farpas

Se pensam que eu respondo a frases desinseridas do contexto que escaparam, de certos amigos meus, sobre determinadas categorias profissionais, nomeadamente de colegas cabeças de lista, desenganem-se! Deve ser uma guerra de comentadores televisivos intrabracarenses. Para bom entendedor…

Concluindo meu “paper” para a reunião dos liberais ibéricos de amanhã. Porque “às vezes, apetece cometer o pecado de tanto rejeitar o politicamente correcto da esquerda cultural como de não alinhar com a direita louvaminheira que ingressou na fileira do situacionismo”.

 

“Foi só depois da célebre Revolução de Cádis de 1812, a principal matriz emocional dos nossos vintistas, que, em Inglaterra, começou a aparecer a designação de british liberales que, pouco a pouco, foi denominando o velho partido whigh, o qual, a partir de 1840, passa a considerar-se como Liberal Party”.

Jun 08

Passos negoceia com Portas

Passos negoceia com Portas. Começa a sucessão no PS. António Costa declara não querer ser líder de transição. Francisco Assis quer fazer pontes com a tralha socrática. António José Seguro, que já podia ter avançado antes de Sócrates, quer passar do aparelho ao Ratton. O PS é preciso.

 

Também no PS acabaram os líderes providenciais, os príncipes de Maquiavel, em ritmo de personalização do poder. Chegou a era dos homens comuns, chefes de turma, com capacidade de organizar o colectivo dos militantes. O principal desafio é fazer com que um partido centrista da esquerda consiga evitar os cogumelos da esquerda revolucionária, reciclando-os para o sistema.

 

Há no PS significativas energias. Jovens que estão integrados na grande luta de ideias do socialismo europeu. E lideranças que conhecem o país da realidade e a história de um PS, o de Mário Soares que se lembra da pedagogia de António Sérgio e do sonho de Antero de Quental.

 

O PS parece engatilhar na Esquerda do Português Suave, ainda sem filtro… Pelo menos, na primeira ronda de propaganda do situacionismo em clausura auto-reprodutiva

 

Agora, chegou a vez de Seguro. Menos picareta falante, mais militante. Não comento. Simpatizo com o Tó Zé. Seguro é fixe. Costuma cumprir a palavra dada.

Jun 06

Farpas

 

Quando a sociologia mais conservadora do eleitoral demonstrou não ter medo do programa de mudança de Passos Coelho e não sufragou os reflexos condicionados de medo, emitidos em exagero pela propaganda socrática, os principais agentes políticos cá da república não podem agora apenas conservar o que está do lado daquela direita dos interesses, tradicionalmente viracacaquista!

 

O PSD tem a arriscada missão de liderar a pós-revolução e tem de o fazer, em aliança com o CDS, através de um pacto de regime com o novo-velho Partido Socialista. O programa de consenso está nos discursos de Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, no passado 25 de Abril. E tudo deveria estar firmado para ser anunciado em 10 de Junho!

Apenas não posso dar os parabéns aos bloquistas que têm de reconhecer o PS, mais uma vez, como o grande reciclador da esquerda revolucionária e o PCP como a pedra firme de uma certa religião laica.

Tudo como dantes. A habitual palha de Abrantes. Isto é, o centrão sociológico que abandonou o PS e se passou para o PSD, como dantes se tinha passado do PSD para o PS. E com o Bloco de Esquerda a entrar em ritmo de “pê-erre-dização”…

Maioria absoluta em Portugal para o Partido Popular Europeu. Apesar dos esforços da Senhora Merkl no apoio à secção portuguesa dos socialistas europeus. Até nos pepinos ibéricos que, afinal, eram rebentos germânicos de soja.

 

Lá se foi a noite eleitoral. Com vitória formal da abstenção. Isto é, fomos derrotados. Desejo boa sorte para que da próxima vez possamos mesmo escolher um programa de governo pela via eleitoral, quando restaurarmos os mínimos de independência nacional. Até lá, protectorado, como disse um dos futuros parceiros da coligação.

A abstenção pode significar uma atitude de superior desprezo, em protesto contra a usurpação da democracia por um “l’État c’est lui” de uma oligarquia.

Quem cala (eleitoralmente) tanto pode consentir como nada dizer (quis tacet nihil dicit). De qualquer maneira, há movimentos e partidos que podem assumir-se como vozes tribunícias, promovendo um esforço de integração no sistema dos marginais ou excluídos.

A democracia abrileira conseguiu ser a mais inclusiva das três que tivemos, desde que em finais de 1979 os marginais conquistaram o poder evitando o sonho de mexicanização. Superou-se o modelo de clausura do partido sistema (PRP, contemporâneo do PRI), ou do rotativismo devorista (equivale ao bloco central onde o PSD se assemelha aos regeneradores e o PS aos progressistas).

O indiferentismo é inversamente proporcinal à rebelião das massas

A presente democracia representativa tem as canalizações representativas enferrujadas. Mesmo que assente na vontade de todos, não assume a vontade geral porque cada um decide pensando nos seus próprios interesses (sondajocracia) e não assumindo-se como o soberano pensando no interesse do todo.

Há uma deseducação cívica e funciona a nostalgia, imaginando-se a democracia directa do vanguardismo do PREC.

Porque as democracias representativas políticas costumam ser compensadas pela democracia da sociedade civil, do consociativismo. O que não é possível num país submetido ao rolo unidimensionalizador do verticalismo ministerialista, centralizado, concentracionário e capitaleiro.

Uma democracia não se mede pelo vértice do hierarquismo e pelo sistema eleitoral que o eleva ao estadão, mas pela qualidade da cidadania e pela principal expressão desta que é o controlo do poder

O jacobinismo, herdeiro dos pombalismos, ao destruir as autonomias e o pluralismo, perseguiu a sociedade de ordens

Távoras, Jesuítas e Trafaria

Permitiu que o rolo unidimensionalizador das revoluções erigisse as estátuas aos déspotas que cortam o horizonte das avenidas da Liberdade

O pacto de associação é superior ao direito de associação

 

A ERA PÓS-SOCRÁTICA

por José Adelino Maltez

Depois de já estarem todas escritas as frases que comentaram as sondagens, teremos agora de concluir que os programas eleitorais já foram todos escritos e que apenas nos falta um governo capaz de pilotar o futuro, depois de devidamente “troikado”. Com efeito, mais de 90% da programação da governança já está pré-definida, enquanto os primeiros resultados analíticos demonstram a incapacidade que as sondagens tiveram quando não conseguiram medir o nível das abstenções. Por outras palavras, estas eleições não tiveram o ritmo de mobilização heróico, nomeadamente das eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de Abril de 1975… O povão não sentiu a “pátria em perigo” e não se mostrou disposto a passar um cheque em branco ao sistema. Por outras palavras, o normal continua a ser o haver destes anormais. O chamado derrotado, o PS, para além da tradicional cura de oposição, está condenado a entrar na era pós-socrática e a encontrar uma liderança de transição com a tralha aparelhística, numa co-optação com o modelo da troika, por ele negociado. Por outras palavras, há o risco de uma certa clausura auto-reprodutiva, onde dominarão factores de poder que já não são maioritariamente domésticos, ou intra-nacionais, com a consequente gestão de dependências e inevitáveis manobras de navegação na interdependência, sobretudo na política europeia e na sucessão de acasos da geofinança. A democracia não pode ser um jogo de soma zero, mas um jogo mobilizador, de soma variável, com lideranças regeneradoras e congregadoras. Tenho esperança.

 

Depois deste breve intervalo urneiro, onde a ilusão de soberania residiu em a nação, conforme as palavras constitucionais de 1822, confirmou-se que o presidente Cavaco não perdeu as eleições. Pena, terem demorado tanto tempo a realizar-se. Infelizmente, o que estará em cima, na governação e na necessidade de acordos parlamentares para o aprofundamento maioritário, pode ser mera consequência do paralelograma de forças deste arquipélago de sub-situacionismos, onde reside a capilaridade social dos grandes partidos sistémicos, integrados nas principais multinacionais partidárias da Europa. Mas o brio nacional que, apesar de difuso, ainda é a principal chama desta encruzilhada, exige que, depois da liderança de pretensos homens de génio, em sucedâneos messiânicos, se entre num novo ciclo de liderança de homens comuns, capazes de organização colectiva do trabalho nacional. Por outras palavras, o regresso ao ciclo da governança dita de direita, impõe um estilo centrista, liberto do centrão mole e difuso dos blocos centrais da partidocracia e do mero consenso de interesses. De outra maneira, poderemos pedir desculpa por essa interrupção, dado que o mais do mesmo continuará dentro de momentos. Mas há, de certeza, homens de bem na meritocracia de Portugal que vão fazer pontes e talvez haja efectivas promessas de cooperação, para que a aritmética parlamentar se transforme numa maioria social. Nem que seja um acordo sobre o que estão em desacordo, com cláusulas condicionais de cooperação. Porque só é novo aquilo que se esqueceu. E só há o verdadeiro fora do tempo. Mesmo que, normalmente, tenha razão antes do tempo.

José Adelino Maltez

 

Jun 06

Opus Deis

Acabo de receber, de um dos autores, o livro “Salazar e a Conspiração do Opus Dei”. Fiquei deliciado com alguns nacos de literatura de justificação de certos resilientes dos sucessivos regimes e que as teorias da conspiração, por eles animadas, tanto qualificam como do Opus e da Maçonaria. Até posso testemunhar como um deles andou por aí a espalhar que eu era um obreiro de Escrivá… quando lhe convinha.