Jan 06

Farpas de 6 de Janeiro de 2012

Consta que vários senhores deputados, pressionados pelas circunstâncias, se preparam para mudar o nome dos Passos Perdidos, enquanto corre um abaixo-assinado, que já mobilizou milhares, visando derrubar as colunas do Cais das ditas. Entretanto, anuncia-se inédita medida legislativa no contexto das democracias europeias, que nos colocará na vanguarda da violação da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Bastaria consultar o Tribunal que a protege, se houvesse constitucionalistas que conhecessem tal jurisprudência. A Itália já foi condenada por medida idêntica, tomada por uma sua região. E a norma positiva que a nossa constituição acolhe é exactamente a mesma. Estudem.

Um ex-ministro e ex-deputado acaba de me confidenciar:”Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação prevertida e podre chega a cair nesse estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade nem que recear para o despotismo”. Não é conveniente ligar-lhe. Era membro da Jardineira. E também já morreu em 1854.

Uma sociedade iniciática, existente desde 1717, nunca pode ser uma sociedade secreta política. Esta subtil diferença não é captável por todos aqueles que consideram que a política, o dinheiro ou a pertença a uma religião revelada são totalizantes da vida humana, especialmente quando tiveram juvenis adesões ao totalitarismo. Pensam que o mundo da liberdade começou quando, indo eles na estrada de Damasco, tiveram uma súbita aparição com a consequente guinada que lhes levou a carapuça, à esquerda ou à direita. Ficaram vazios de mística e tratam do transcendente como feijões fungíveis da mercearia. Não tarda que, com eles, também a religião secular da pátria se dilua em niilismo.

Ouço Pacheco Pereira: “tradicionalmente, no PSD, era tudo contra a maçonaria”. Deve ser por isso que Emídio Guerreiro, o mais antigo maçon do mundo, enquanto viveu seus tempos de fim, presidiu ao PPD. E mais outro. Ambos GOLU-GOL. Por outras palavras, o PPD/PSD não começou quando Pacheco Pereira se inscreveu no partido. Mais, o GOL não começou em 1910. Foi fundado e existe continuadamente desde 1802. Já esteve em 1806-1808, na luta contra Junot, em 1817, 1820 e por aí fora. Sempre com a liberdade.

Ontem, hoje e amanhã, aqui e em muitos lados, a maçonaria só o é se for uma sociedade iniciática. Há mais de dois séculos de doutrina civilista e penal sobre a matéria, tanto nativa como comparada. Sobretudo, a produzida por não-maçons. E jurisprudência correspondente. Mas há quem queira fazer regredir Portugal às interpretações vigentes de certos ayatolas

A mais antiga e continuada organização demoliberal portuguesa chama-se Grande Oriente Lusitano que, para efeitos de Estado de Direito, recebe a forma de Grémio Lusitano. Merece o respeito de decano. Já passaram meia dúzia de regimes políticos e as consequentes constituições. E outros tantos, tantas e tontos hão-de passar. Até já esteve formalmente extinto, cerca de quarenta anos, mas sempre foi.

Li. É provocador da ignorância, do fanatismo e da consequente tirania que de tal emerge.

Tenho a honra de ter neste mural uma pluralidade de vozes, de fascistas a marxistas-leninistas, socialistas, liberais, reaccionários e progressistas. Há até quem insulte boçalmente as minhas concepções do mundo e da vida. Isto é, surge um certo espelho da nação, sobretudo quando as circunstâncias quebram o verniz e se mostra o que seria se eliminássemos o pluralismo. Peço que me compreendam. Não quero excluir ninguém, mas bem gostaria de pedir um pedacinho daquilo que aprendi ser a boa educação, sobretudo em casa alheia onde só entrou quem expressamente pediu. Porque, como todos sabem, o hospedeiro tem como norma nunca ter feito tal pedido. Por último, também não sou parvo de todo e sei que alguns formais amigos só aproveitam o local para não serem amigos e o instrumentalizarem.

Um velho mestre, disse-me hoje: “Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las”

Mais sugestões: Franco emite a lei de repressão da Maçonaria e do comunismo (1 de Março de 1940). Há penas retroactivas. Os encontros maçónicos sujeitos a uma pena de prisão até trinta anos. Criado um tribunal especial para a repressão do comunismo e da maçonaria, que começa a funcionar logo em 1941. São elaborados cerca de 80 000 dossiers sobre maçons, quando o número destes antes da Guerra Civil não chegava aos 5 000. Haverá até maçons mortos que chegam a ser condenados. O modelo dura até à criação do Tribunal da Ordem Pública, em 1963.

Em 1941 chega a ser denunciado, ao mesmo Tribunal de Franco, José Maria Escrivá, embora sem ser processado, considerando-se o Opus Dei como um ramo judeu da maçonaria. Em Bacelona, no mesmo ano, num convento de religiosas carmelitas, foi queimada publicamente uma cópia do ‘Caminho’

Outra sugestão: nos Estados Unidos, em 1827, é organizado um Antimasonic Party que publica Antimasonic Review and Magazine. Dura até 1833. Por cá, foram menos civilizados. Utilizaram o cacete e a forca. E puniam todos quantos se vestiam de azul e branco, justamente considerados símbolos maçónicos. A regência dos Açores elevou-as a cores nacionais, retomando as Constituintes vintistas. Outras cores maçónicas eram precisamente o verde e amarelo. Também hão-de ser símbolo nacional, do Brasil.

Pergunte a mestre Carl Gustav Jung sobre os símbolos e ele disse: o que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. Porque uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto inconsciente mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explicá-la.

E mestre Jung continuou: Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a ideias que estão fora do alcance da nossa razão. Logo, os símbolos não se podem confundir com os signos, constituindo uma concepção que ultrapassa toda a interpretação concebível. O símbolo não é como o signo, a expressão que se usa para designar qualquer coisa conhecida. Apenas é vivo o símbolo que, para o espectador, é expressão suprema do que é pressentido, mas ainda não reconhecido. Incita, portanto, o inconsciente à participação…traduz um fragmento essencial do inconsciente…

E não parou: O símbolo tem uma natureza infinitamente complexa, compondo-se de dados recebidos de todas as funções psíquicas e, portanto, não é racional nem irracional. Tem, portanto, um sentido divinatório, face à sua significação escondida, fazendo vibrar tanto o pensamento como o sentimento, numa singular plasticidade. O símbolo vivo não pode aparecer num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este apenas se contenta com um símbolo já existente, tal como lhe é oferecido pelo tradicional. Só a paixão de um espírito altamente desenvolvido, para quem o símbolo oferecido já não é a expressão única da união suprema, pode criar um símbolo novo.

 

Jan 05

Farpas de 5 de Janeiro de 2012

Os chineses do século XVI diziam que os portugueses eram bárbaros, isto é, diabos vermelhos, porque comiam pedras (pão) e bebiam sangue (vinho), tal como outros povos diziam que os cristãos eram antropófagos porque, em seus cerimoniais, comiam o corpo de um deus feito homem. É o que fazem todos os que são marcados pela incompreensão face aos símbolos decepados da unidade espiritual de que os rituais são simples parcela. É por esta e por outras que detesto todo o sectarismo que pretende monopolizar o sagrado para a respectiva liturgia e que, fradescamente, semeia a intolerância, insinuando o ridículo face as alfaias que os outros usam para os mesmos fins. Afinal, todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação. Contudo, mais ridículos ainda são os que não têm liturgia sentida por dentro, ou os que se ficam pelos sucedâneos e pelas vulgatas de certo dogmatismo pretensamente antidogmático (escrito e publicado por mim em 20 de Novembro de 2007 e não por aquilo que ontem e hoje ouvi sobre os que dizem saber muito da história de limpezas).

Em Portugal, ainda permanece um subsolo de incompreensão face a uma ordem a que pertenceram pessoas como Kant, D. Pedro IV, Churchill ou Jean Monnet, de liberais a socialistas, de conservadores a destacadas figuras eclesiásticas. Bastava aliás notar que a última intervenção pública de Fernando Pessoa, nas vésperas da morte foi a defesa da não extinção da maçonaria contra os ditames da primeira lei do Estado Novo, desencadeada por um conhecido defensor da restauração da pena de morte que, em 1867, fora abolida depois de uma campanha e do empenhamento de maçons portugueses que, no mesmo dia, também lançavam o primeiro Código Civil, o do maçon António Luís de Seabra. Dizer que o Partido Conservador britânico sempre foi enraizadamente maçónico ou que a Resistência francesa nasceu desse impulso espiritual apenas causa espanto para mentalidades tão intolerantes quanto certa faceta ultra-positivista e neojacobina da história maçónica, a que queria “enforcar o último papa nas tripas do último padre”. Porque os maçons, em termos de opção política, correm todo o espaço dos arcos democráticos que defendem as sociedades livres e pluralistas (Janeiro de 2009).

Em Portugal, ainda permanece um subsolo de incompreensão face a uma ordem a que pertenceram pessoas como Kant, D. Pedro IV, Churchill ou Jean Monnet, de liberais a socialistas, de conservadores a destacadas figuras eclesiásticas. Bastava aliás notar que a última intervenção pública de Fernando Pessoa, nas vésperas da morte foi a defesa da não extinção da maçonaria contra os ditames da primeira lei do Estado Novo, desencadeada por um conhecido defensor da restauração da pena de morte que, em 1867, fora abolida depois de uma campanha e do empenhamento de maçons portugueses que, no mesmo dia, também lançavam o primeiro Código Civil, o do maçon António Luís de Seabra. Dizer que o Partido Conservador britânico sempre foi enraizadamente maçónico ou que a Resistência francesa nasceu desse impulso espiritual apenas causa espanto para mentalidades tão intolerantes quanto certa faceta ultra-positivista e neojacobina da história maçónica, a que queria “enforcar o último papa nas tripas do último padre”. Porque os maçons, em termos de opção política, correm todo o espaço dos arcos democráticos que defendem as sociedades livres e pluralistas (Janeiro de 2009).

Palavras para quê? Vale mais ouvir Verdi. É tudo transparência e contador de electricidade, onde o amor programático com adequada voltagem se retribui.

Elite em Portugal conserva o sabor original de não meritocracia. São os “élus”, isto é, os escolhidos por quem manda. Incluindo, os que já ultrapassaram o prazo de validade, para que se conserve o perfume da brigada da gerontocracia.

Por alguma razão, em 1834, surgiu o epíteto de devoristas. A quem também chamavam chamorros, nome antigo, de 1383-1385, sobre os que não alinharam com os ventres ao sol, preferindo o pacto feudal de Salvaterra…

Garanto-vos coisa segura: não posso ser excomungado nem pratico pecado grave. Aliás, os que acumulam só de um dos lados é que são passíveis de sanção. Problema do sancionador e do sancionado. Talvez mais do sancionador, como é óbvio. O que revela o essencial.

Confirmo que muitos comentadores deste mural adorariam que voltasse este espírito do legislador: “a Maçonaria, e especialmente a Maçonaria em Portugal, deve ser reprimida, porque pretende substituir a civilização cristã pela civilização maçónica, aspira à dominação do Estado e possui organização exagerada e perigosamente internacionalista”. Porque tem como base um “ideal igualitário, sem superioridades sociais, nem distinção de classes, baseada no racionalismo ateísta dos materialistas, ou na religião humanitária da razão e da natureza herdada nas antigas tradições esotéricas, transmitidas pela cabala judaica”. Parecer em que se fundamentou uma lei de 1935, dita da extinção.

“Os parvos entram onde os anjos temem entrar.”

O senhor Fernando Pessoa também me segredou: “o Estado está acima do cidadão, mas o Homem está acima do Estado”.

Fui ler uma velha sentença proibicionista que dizia: temos de extinguir aqueles crentes que no dia pagão do deus do sol Rá, se ajoelham aos pés de um instrumento de tortura antigo e consomem símbolos rituais de sangue e carne.

Para ajudar alguns meus comentadores, aqui vai argumento fatal: eles tudo explicam “pelo panteísmo e pela Cabala, o culto da natureza sob formas simbólicas de repugnante obscenidade, a torpe falolatria, gerando uma turba imunda de falofaros, numa espécie de prostituição sagrada, discriminando como causas, a heresia sociniana, os templários, propagadores do maniqueísmo e do gnosticismo, o canal pelo qual as práticas e ritos infames do politeísmo passavam do velho mundo pagão para o mundo cristão.”. Manuel Fernandes Santana, em 1908.

A ironia consiste em dizer as coisas que declaramos não dizer, ou então em dizê-las com palavras que afirmam o contrário do que queremos exprimir.

A minha vizinha do lado é loira. Noutro dia torturou um gatinho pardo. O presidente da junta, que acumula com a protectora dos animais, convidado pela rádio local, defensor do bem comum, ainda há pouco declarou: “sempre disse que todas as loiras batem nos bichos, umas criminosas”. O sindicato das loiras prepara uma grandiosa manifestação de protesto, em nome do lema: “de noite, todos os gatos são pardos!”

Jan 04

Farpas 4 de Janeiro de 2012

O Marquês do Lavradio acaba de escrever uma História Abreviada das Sociedades Secretas, dá-se a primeira experiência de caminho de ferro, e o papa Pio IX, em Singulari Quaedam, considera os membros das sociedades secretas como inimigos da fé cristã, por desejarem exterminar o culto religioso. Estamos no ano da graça de 1854.

 

Jan 02

Artigo DN

O orçamento zero da pós-democracia, ou como a pororoca não desemboca no Tejo.

“Porque o PS tarda em assumir-se como pós-socrático, e nem sequer é pós-soarista; tal como o PSD não consegue ser pós-cavaquista; enquanto o PCP continua retro-cunhalista; o CDS, amarrado ao pós-moderno reaccionário; e o BE, a indignar-se com devoção ao socialismo catedrático.”(JAM, DN, hoje).

“…a partidocracia persiste na auto-clausura reprodutiva, entre uma direita que convém à esquerda, a da mera oposição empírico-analítica ao fantasma do inimigo, para que este, em preconceito, acirre o pensamento RGA, o da nostalgia da revolução por cumprir, onde o Maio 68 continua a algemar a libertação de Abril” (JAM, DN, hoje).

Para efeitos de registo: “Estas mensagens são homilias que puxam outras homilias, não são propriamente discursos políticos de intervenção”, afirmou, considerando que, nas reações, os dirigentes do PSD e do PS falaram para dizer “praticamente nada”. “Os próprios partidos não colocaram a comentar o discurso do Presidente as suas figuras cimeiras, revelaram que, ou ainda estão de férias, ou por alguma razão puseram reservistas a falar”, disse.
Aliás, “o discurso foi uma espécie de condensado daquilo que têm sido intervenções parcelares, nomeadamente, críticas ao Orçamento e imediata promulgação do Orçamento”, sendo, “portanto, um reconhecimento da impotência do Presidente neste contexto de organização do sistema político”.

Jan 01

Farpas de 1 de Janeiro de 2012

Bom dia, bom ano, neste país das maravilhas de uma Europa em bolandas. O mundo continua a girar em torno do seu próprio eixo. E cada um de nós pode rodar em dignidade. Basta que a espinha não torça, mesmo que ameace quebrar. Eu prefiro estar preparado para olhar o sol de frente, quando passar o nevoeiro.

A última princesa nórdica dinamarquesa a que prestei menagem chamava-se Ebba Merete Seidenfaden. Helle Thorning-Schmidt nasceu vinte e seis anos depois. Ainda acredito no mito do rapto da Europa.

A nossa presidenta é graduada em ciência política, nórdica e líder de um dos velhos reinos medievais da Europa que ainda resistem.

“A instabilidade e a incerteza na recuperação da economia mundial está em crescendo, os assuntos internacionais e regionais sucedem-se, e a paz e o desenvolvimento do mundo enfrentam oportunidades e desafios sem precedentes”. Excerto da mensagem presidencial, depois de um português ter caído do cavalo.

Presidente falou. Fala, dizendo que outrora falou. E promete que falará. Confirma-se que, na prática, a teoria é outra.

Jan 01

Presidente falou

Presidente falou. Falou, dizendo que outrora falou. E prometeu que falará. Confirma-se que, na prática, a teoria é outra. Secretário-geral do PSD falou. E falou. Não me lembro de nada que ele tenha dito. Porta-voz do PS falou. E falou. Não me lembro de nada que ele tenha dito. PCP falou não sei através de quem. Diz que disse o que dirá. Os cimeiros de todos os partidos ainda devem estar a passas. Puseram as reservas a falar. Presidente não o merecia. Segundo os mesmos partidos, parece mesmo que mereceu. Homilia puxa homilia. Mostram muita dó pelo menor.

Jan 01

neste país das maravilhas de uma Europa em bolandas

Bom dia, bom ano, neste país das maravilhas de uma Europa em bolandas. O mundo continua a girar em torno do seu próprio eixo. E cada um de nós pode rodar em dignidade. Basta que a espinha não torça, mesmo que ameace quebrar. Eu prefiro estar preparado para olhar o sol de frente, quando passar o nevoeiro. 2012 poderá ser “horribilis” para o portugalório da Ilusitânia, mas será, em contraciclo, um mundo melhor, para a maior parte da humanidade, com menos fome, menos peste e menos guerra.  Mesmo que não beneficiemos directamente com a ascensão a grandes potências de alguns dos nossos plurisseculares parceiros de história, a que chamaram emergentes, pode chegar uma nova idade, a do poder dos sem poder, com os até agora vencidos da vida a revogarem a velha história dos vencedores.  Mesmo que o sonho de um Atlântico crioulo não desemboque no Tejo, porque preferimos o conforto do Bugio à aventura da pororoca, os novos sinais dos tempos prenunciam uma nova idade, de que fomos armilarmente profetas.  Daí que o verbo Portugal continue a ser substituído pelo nacionalismo patriotorreca, que alguns psicopatas sentenciadores vão conjugando, em pretérito de revisionismo histórico, enquanto a partidocracia persiste na auto-clausura reprodutiva, entre uma direita que convém à esquerda, a da mera oposição empírico-analítica ao fantasma do inimigo, para que este, em preconceito, acirre o pensamento RGA, o da nostalgia da revolução por cumprir, onde o Maio 68 continua a algemar a libertação de Abril.  Todos com historiografias do caixote de lixo das ideologias, neste país dominado por enjoados manhosos, que sonham instrumentalizar a luta de invejas, pela tradicional subversão a partir do aparelho de Estado.

Jan 01

O orçamento zero da pós-democracia

O orçamento zero da pós-democracia
por José Adelino Maltez

 

 

2012 poderá ser “horribilis” para o portugalório da Ilusitânia, mas será, em contraciclo, um mundo melhor, para a maior parte da humanidade, com menos fome, menos peste e menos guerra. Mesmo que não beneficiemos directamente com a ascensão a grandes potências de alguns dos nossos plurisseculares parceiros de história, a que chamaram emergentes, pode chegar uma nova idade, a do poder dos sem poder, com os até agora vencidos da vida a revogarem a velha história dos vencedores. Mesmo que o sonho de um Atlântico crioulo não desemboque no Tejo, porque preferimos o conforto do Bugio à aventura da pororoca, os novos sinais dos tempos prenunciam uma nova idade, de que fomos armilarmente profetas. Por cá, apenas tenderemos a entrar no orçamento zero da pós-democracia. Porque o PS tarda em assumir-se como pós-socrático, e nem sequer é pós-soarista; tal como o PSD não consegue ser pós-cavaquista; enquanto o PCP continua retro-cunhalista; o CDS, amarrado ao pós-moderno reaccionário; e o BE, a indignar-se com devoção ao socialismo catedrático. Daí que o verbo Portugal continue a ser substituído pelo nacionalismo patriotorreca, que alguns psicopatas sentenciadores vão conjugando, em pretérito de revisionismo histórico, enquanto a partidocracia persiste na auto-clausura reprodutiva, entre uma direita que convém à esquerda, a da mera oposição empírico-analítica ao fantasma do inimigo, para que este, em preconceito, acirre o pensamento RGA, o da nostalgia da revolução por cumprir, onde o Maio 68 continua a algemar a libertação de Abril. Todos com historiografias do caixote de lixo das ideologias, neste país dominado por enjoados manhosos, que sonham instrumentalizar a luta de invejas, pela tradicional subversão a partir do aparelho de Estado.