Set 06

Manifesto de um jovem nascido em 1985. Por acaso é o meu filho que pensa pela própria cabeça e o emitiu, em revolta, no “Facebook”

Eu não nasci no tempo do Salazar, nem nasci na altura em que o comunismo era um risco real para a democracia. Nasci e cresci depois disso e não sei o que isso é ou foi, portanto não posso falar disso.

O que eu sei é que economicamente (em termos de crescimento) a década de 90 foi pior que a de 80, e a década de 2000 foi pior que a 90. E excepto para aqueles que estão filiados ou estiveram nos governos, câmaras municipais ou empresas públicas, as coisas não estão melhor, nem vão ficar melhores.
Não quero saber se o PS é melhor que o PSD (ou os seus apêndices), nem vice-versa, tal como não queria ter que escolher entre morrer afogado ou queimado. Também não quero saber de demagogos que são doutorados em economia ou que leram o Capital na juventude, mas esquecem-se de dizer que vivemos num mundo globalizado e competitivo à escala mundial, e que o capital , esse, escorre mais depressa dum país do que areia de uma mão aberta quando lhe apetece.
Não quero saber se um bando de militares conquistou a democracia em 1974 e decidiu chamar-lhe a revolução do povo, se hoje, em 2009, vivemos numa cleptocracia, onde o socialismo do estado é na teoria tirar aos ricos para dar aos pobres, mas na prática é tirar aos falsos ricos para dar uma pequena parte aos pobres, outra parte aos pouco produtivos e uma grande parte aos muito ricos.
Porque distribuir riqueza na sua maioria por outros critérios que não o mérito só faz este país mais pobre e miserável, e é usado como a desculpa perfeita para continuarmos a viver numa sociedade onde uns vivem à custa dos outros, e por detrás uns ainda enriquecem à custa de outros.
Não me acusem de ser egoísta e não querer saber dos mais pobres e desprotegidos. Por me preocupar com eles é que me revolta a farsa deste socialismo que promete que todos serão doutores mas depois só entregam um mercado de trabalho reduzido e precário, que é resultado desta economia.
Revolto-me porque sei que muitas empresas que dão emprego a muito gente, poderiam dar muito mais (empregos e rendimentos) se não tivessem que dar tanto a um estado que não dá nada de jeito em troca.
Revolto-me também com esses demagogos da esquerda que acham que os ordenados podem subir por decreto-lei, sem considerarem que, numa economia global, o papel do estado na definição da escala em que o mérito (monetário) é retribuído às pessoas é irrelevante, quando já nem o valor da nossa moeda controlamos.
Revolto-me porque esses demagogos estupidificam a discussão que não têm nada a ver com comunismo e capitalismo e proletariado. Que esquecem-se de dizer no fim que o estado social é um luxo de economias produtivas, e podem ser também o fim das mesmas.
Mas o que me revolta mais é as pessoas acharem que não existe solução, que sempre foi assim e sempre será, que o PS e o PSD vão sempre mandar nisto e quando aparecer um novo vai ser igual.
Revolto-me quando se comparam as decisões políticas (conquistas democráticas) de outros países com as nossas e o que eles fizeram de melhor é minimizado ou relativizado e desculpado com tudo (Salazar, povo português, o nosso tamanho geográfico, económico ou político), tudo menos com o carácter e decisões dos políticos que tivemos (porque elegemos). Assim, vivem eles em paz de espírito, pensando que não fazer nada é justificável, porque não há nada que se possa fazer para mudar.
Revolto-me quando se fala disto e se ouve coisas como “não há nada a fazer”, “mesmo que se faça alguma coisa vai sempre ser a mesma coisa”, “ele é corrupto mais ao menos fez mais que o anterior”. Mas quem disse isso?
Não, eu não sei qual é o caminho, nem sei qual é a solução, muito menos as melhores soluções, e ainda sei menos no curto prazo. Só sei para onde quero ir como país e cidadão e sei que esta não é a direcção nem o percurso.
Às vezes, penso, o melhor é sair deste país e nunca mais voltar. Já pensei assim, e penso na ideia muitas vezes, principalmente quando penso o quão rápido e há quanto tempo caminhamos para um abismo. Mas não quero, nasci neste país e não sou culpado de nada. Para além disso não sou nem fui escravo de ninguém. Não tenho e não quero ser escravo e servir nobres para o resto da vida, nem quero que os meus descendentes o sejam enquanto todos empobrecem e uma minoria enriquece.
Também não desejo fazer parte dessa vida fácil, dessa nobreza que só enriquece à custa dos mesmos sem mérito nem vergonha na cara. Nem me metem medo, não têm Pide nem militares armados prontos para me matarem. Protegem-se apenas com a nossa passividade e ignorância, e ainda precisam de nós para votar neles e para contribuir para o orçamento. Ter medo para quê e de quem e porquê?
E estou farto de pertencer à minoria de pessoas que já está farta disto, deste vira-o-disco-e-toca-o-mesmo e que sabe quem não tem de ser assim e não é assim em grande parte do mundo

(…)
Não entendo a maioria das pessoas que paga mais impostos e taxas e têm menos emprego, menos serviços, menos educação, menos saúde e menos segurança e mesmo assim dá maiorias absolutas à esquerda e à direita e aqueles que nos governam há 30 anos de uma maneira cada vez pior
(…)
Mas não quero partir porque tenho esperança que a caneta seja mais forte que a espada, e que o português possa perceber que decidindo juntos e justamente o nosso futuro somos mais felizes, ricos e inteligentes.
PS: O autor é o tipo de azul na fotografia que é pública. É o primeiro texto político que li dele. Assim é que é desconstruir campanhas e viver democracia. Não faço ideia onde ele vai votar, porque já votou, mesmo que não vá votar. Como escreveu Camus, no ano em que nasceu o pai deste cidadão, cujo texto somos nós, um homem revoltado é um homem que diz não. Mas se ele recusa, ele não renuncia: é, assim, um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento…

Set 04

Depoimento a Semanário

José Adelino Maltez
“Ferreira Leite fica feliz quando lhe chamam Cavaquista”
“O artigo do Passos Coelho é para marcar a agenda, tanto podia pedir uma maioria absoluta ao PSD, como podia pedir que Ferreira Leite descobrisse a Índia. Ela ainda nem assegurou a maioria relativa quanto mais a maioria absoluta. Isso é um bom jogo dialético para continuarmos a falar dele. Não acho que uma maioria absoluta libertasse Ferreira Leite do peso do Cavaquismo. Em primeiro lugar, parece que a coitada da dr. Manuela Ferreira Leite tem o Cavaquismo a persegui-la, quando foi ela que inventou o cavaquismo sem Cavaco – até lhe interessa. As razões dos eventuais êxitos que Ferreira Leite possa ter é precisamente porque ela se assume com um cavaquismo sem cavaco. Há, pelo contrário, uma colagem dela à imagem de Cavaco. Cavaco tem uma indiscutível confiança popular como se manifesta em todas as sondagens muito mais do que ela, não sei se o dobro se o triplo. Tudo o que seja insinuação subliminar como está patente em todos os discursos de Ferreira Leite é bom para ela. Tudo o que seja um ataque a chamar-lhe cavaquista ela fica feliz. Quem sai prejudicado no meio disto tudo é o dr. Cavaco porque fica com um espaço (reduzido) onde pode ser atacado por ver o seu nome envolvido na discussão político partidária. O artigo do Passos Coelho é uma provocação ao sistema que não é aleatória, porque aquele artigo é aquele que não se estava à espera e é aquela que mais atrapalha. Não é um artigo de impulso é um artigo político de provocação ao sistema.”

Set 04

Quem semeia ventos lá vai colhendo as tempestades…

Dizem que o irmão do Primeiro-Ministro comanda uma rede de jornais e que, perante a campanha negra que, ao mano-chefe lançaram os oposicionistas, o mano-subchefe se pôs e vigilância, armazenando papéis de campanha negra contra os outros, para espetar a farpa na altura certa aos sucessivos adversários, também especialistas nas sombras da vida privada do comandador. A meio do campeonato, as cadeias de jornais e televisões da Igreja, directamente dependentes de um bispo delegado da Conferência Episcopal, entrou no combate, denunciando a falta de moralidade do chefe do governo, com editoriais de moralismo catolaico bem emocionante. A resposta foi bombástica: apanhou-se o laico director de jornais e televisões, o tal moralista de sacristia, num caso de tribunal que mete assédios e homossexualidade. O editorialista em causa demitiu-se. Os bispos lavaram as mãos como Pilatos, defendendo o demitido.

Esta onda ainda não chegou a Portugal, com todos os seus contornos de Sade. O português suave apenas apanhou Manuela Moura Guedes. E ontem logo o comentei para o DN de hoje: Mesmo quem não seja um fã de M. M. Guedes e da restrita companhia da tribo “independente” que Moniz elevou a grandes educadores do nosso proletariado intelectual não deve hesitar: a liberdade exige plenitude de acção a propagandistas da situação e da oposição! Quando a entidade capitalista se desculpa com ordens vindas da patroa espanhola, mais se lamentam as anteriores palavras usadas pos Sócrates sobre a “campanha negra”, não sendo possível justificar o corte de pio com casos anteriores, como a cena dos santanistas com Marcelo Rebelo de Sousa.

Não há evidentemente censura, mas liberdade do mercado, neste socialismo a retalho, que é interventor nos dias pares e licencioso nos dias ímpares, conforme os heterónimos convenientes dos donos do poder. Mas Sócrates, a partir de agora, deixa de ter debates, passa a ser o bombo da festa, a não ser que tenha a hipocrisia de mandar um porta-voz defender a liberdade de expressão da M. M. Guedes, para se assumir como bode expiatório. Julgo que alguns, mais papistas do que o papão, continuam a fazer golos na própria baliza, pensando que ter o poder é ter a palavra. Talvez acabem por comunicar ao país que a peça sobre o Freeport será emitida pelos tempos de antena do PS. De outra maneira, darão razão a todos os que acham que esse elemento é o calcanhar de Aquiles do ministerialismo. Por mim, gostava mais que não “desviassem a atenção” da política, nesta campanha eleitoral!
Em conlusão, a campanha tem imensas minas e armadilhas, onde chafurdam os habituais artistas das campanhas negras, não faltando o vício da espionite. Só que, de tanta autogestão de consultores e espiões, entrou-se naquilo que em estratégia se chama “out of control”, e talvez em “point of non return”. Até Louçã e Jerónimo aparecem como carneiros do pluralismo, fazendo parecer que Sócrates, Manela e Portas são animias ferozes. Por outras palavras, precisavam todos de mudar o guião e até os actores, limpando profundamente os bastidores.
A televisão em causa foi formatada por D. José Policarpo, com Roberto Carneiro e Zé Ribeiro e Castro, antes de passarem o testemunho a Carlos Monjardino, e antes da chegada de Moniz. Os espanhóis, que a compraram, não querem velinhas a este ou àquele partido, querem “share”, mas sem que conspirem contra a igreja estabelecida ou os donos do poder. Ouviram falar nos saneamentos que José Saramago, ao serviço do PCP, fez no velho Diário de Notícias, mas hoje não o reconhecem como tal. Sabem as técnicas que o PSD teve para com Marcelo. E até entendem os meandros negociais do cardeal com a comissão que afastou do canal o Daniel Proença de Carvalho, onde o dialógo da Santa Madre e da maçonaria não era pecado grave, embora houvesse risco de excomunhões, pelas duplas pertenças, de acordo com o cânon 2335 do Codex de 1917, aggiornato pelo 1374 de 1983.
O episódio da outra Manela, a que já foi deputada do Manel Monteiro, é apenas sintoma da decadência, não é causa de nada, porque eram interessantes os debates que nos traziam os ilustres colegas de trabalho do marido de Constança, como o presidente e os seus colaboradores num dos mais importantes institutos estatais de investigação universitária, com um a educar a direita, outro, o centro do cavaquismo, e o terceiro, com saudades do seu velho colaborador-tarefeiro, Paulo Portas, quando era um bom aprendiz de académico. Pelo menos, mostravam como pensa o capitaleirismo sobre o resto do país, que é etimologicamente província, isto é, terra a conquistar.
O Sócrates tinha que ser o “gajo” a denunciar, por não ser suficientemente “radical chic” para continuar “feitor dos ricos”. Desenhou casas muito feias, obteve a licenciatura numa privada, que acabou encerrada pelo Gago, e tem uns tios e primos de susto. Entre bons pastores e péssimos criados, a burguesia fidalgota, não perdoa, sobretudo quando não esquece as tácticas maoístas e trotskistas, segundo as quais um bom revolucionário nunca pode ser um humanista. Importam mais as técnicas de cortar na viracasaca das intrigas da sociedade de corte, com os seus adesivos.

É evidente que o feitiço volta-se sempre contra o feiticeiro. Sócrates apanhou em cheio as tempestades que desencadeou, especialmente quando pôs a pata na poça ao não assumir, com toda a clareza, a sua atribulada vida académica. Ele, como doutorado em vida política, não precisava dos pergaminhos da licenciatura ou do doutoramento e devia ter-nos declarado isso mesmo, olhos nos olhos, denunciando a luta de invejas. Como devia mostrar tudo o que sabe sobre os meandros do Freeport, sem cair na esparrela da campanha negra, especialmente quando, no congresso do PS declarou que o povo é quem mais ordena. Sofreu agora a tempestade que desencadeou.

Santos Silva e ele próprio, Sócrates, estiveram bem, ontem, no tempo e no tom da resposta. Mas a memória do malhador e das trapalhadas não limitaram suficientemente os estragos. Apenas espero que não surja a espiral da contra-resposta com outros elementos ainda ocultos, mas que os campanheiros guardam para as contra-ofensivas. Porque tudo foi desencadeado pela conversa de alguém da casa civil da presidência sobre os arcanos do relacionamento entre os principais órgãos de soberania. Não acrescentemos à tragédia, o ritmo da comédia e da ópera bufa. Ainda não estamos em ritmo de Berluscolini e de Boffo.

Set 03

Depoimento à Visão

Segundo as declarações que prestei à revista Visão, publicadas hoje,  o Chefe de Estado quer revisitar «o cavaquismo em versão presidencial, reabilitando a teoria do homem comum de sucesso e do tecnocrata com desprezo pelos políticos». Acrescentei que, com tal fórmula, Cavaco não consegue ser «suprapartidário». É, alegoriza, «um árbitro que não resiste a dar uns pontapés na bola».

Até porque que José Sócrates «foi incrivelmente ingénuo, ao pensar que o bom relacionamento com o Presidente estava para durar e não previu o tacticismo de Cavaco que, mais cedo ou mais tarde, lhe iria tirar o tapete». Com Mário Soares na chefia de Governo, «isto jamais teria acontecido». E também achei que Cavaco «corre o risco de ficar para a História como o PR que ressuscitou o conflito entre a política e a religião», embora verifique que certas decisões do Presidente têm recebido alguns surpreendentes apoios «Até o PCP já o aplaudiu».

Finalmente, advogo ser desnecessária qualquer mexida no regime semipresidencialista, mesmo num cenário de governabilidade precária saído das próximas legislativas. «Se isso acontecer, os dois maiores partidos vão ter de arranjar energia para expulsarem Ferreira Leite e Sócrates das lideranças. Há uma criatividade na democracia que a partidocracia do eucalipto ainda não secou.»

Set 03

Os donos do poder

Os Donos do Poder

 

por José Adelino Maltez

 

Mesmo quem não seja um fã de M. M. Guedes e da restrita companhia da tribo “independente” que Moniz elevou a grandes educadores do nosso proletariado intelectual não deve hesitar: a liberdade exige plenitude de acção a propagandistas da situação e da oposição! Quando a entidade capitalista se desculpa com ordens vindas da patroa espanhola, mais se lamentam as anteriores palavras usadas pos Sócrates sobre a “campanha negra”, não sendo possível justificar o corte de pio com casos anteriores, como a cena dos santanistas com Marcelo Rebelo de Sousa. Não há evidentemente censura, mas liberdade do mercado, neste socialismo a retalho, que é interventor nos dias pares e licencioso nos dias ímpares, conforme os heterónimos convenientes dos donos do poder. Mas Sócrates, a partir de agora, deixa de ter debates, passa a ser o bombo da festa, a não ser que tenha a hipocrisia de mandar um porta-voz defender a liberdade de expressão da M. M. Guedes, para se assumir como bode expiatório. Julgo que alguns, mais papistas do que o papão, continuam a fazer golos na própria baliza, pensando que ter o poder é ter a palavra. Talvez acabem por comunicar ao país que a peça sobre o Freeport será emitida pelos tempos de antena do PS. De outra maneira, darão razão a todos os que acham que esse elemento é o calcanhar de Aquiles do ministerialismo. Por mim, gostava mais  que não “desviassem a atenção” da política, nesta campanha eleitoral!