Mai 14

Algumas cenas do presente salazarismo dito democrático, em ritmo de pá que já não é porreiro

O estilo dos debates quinzenais no parlamento, nesse pugilato verbalístico de um divino Sócrates contra tudo quanto é diabo oposicionista, onde o clímax foi o regresso do “pá”, mas pouco “porreiro”, depois das rasteiras de Rangel, pouco iluminou os atalhos sombrios que nos conduziram à presente encruzilhada, onde, apesar de todos saberem escrever as frases que hão-de salvar Portugal, nenhum conseguirá salvar mesmo Portugal, dado que voltámos à rotina de uma decadência e da falta de autenticidade. Aliás, os irmãos-inimigos da social-democracia e do socialismo democrático, onde escasseiam os nobres fundadores do regime e abundam os fidalgotes que delapidam a herança, gostam de mascarar-se da rábula do senhor contente e do senhor feliz, adorando que se discuta o regresso do Bloco Central. Acresce que também Portas (Paulo), tal como o PCP e o Bloco de Esquerda são unânimes interesseiros quanto a esse “agenda setting”, o tal que dá ilusões ao comentarismo político quanto à salvação do sistema por estes actores da presente partidocracia. Contudo, quem põe o regime acima destes bonzos, endireitas e canhotos e equaciona como altamente provável a impossibilidade do PS atingir a fasquia da maioria absoluta, começa a espreitar cenários que se aproximam do actual estado de coisas na República Checa.

 

Qualquer observador minimamente atento da nossa história partidária é capaz de compreender que o Partido Socialista não vai acabar se o Licenciado em Engenharia José Sócrates for forçado a pedir a demissão da liderança, se assim o povo o ordenar. Não porque ele corra o risco de ser substituído por Manuel Alegre ou por António José Seguro, mas antes por uma conjugação de esforços que livrem o partido de tipos como Carlos Candal, José Lelo, Augusto Santos Silva e outra tralha socrática, mas sem a habitual síntese cangalheira, como a que poderia receber o nome de Jaime Gama. O PS tem suficiente energia para escolher uma personalidade pouco ávida da personalização do poder e capaz de gerar confiança representativa tanto da respectiva ala esquerda, como da maioria de militantes pouco dados ao negocismo. Basta que esse servidor da ideia de obra consiga poder ser primeiro-ministro num governo de acordo interpartidário com o PSD e o PCP, dado que Portas deve ser condenado a escolher o caminho marginal do Bloco de Esquerda, por serem quiméricos os resultados eleitorais mínimos que lhe permitiriam negociar um acordo de maioria com José Sócrates.

 

Por outras palavras, a partir de Outubro, a democracia portuguesa vai ter resultados eleitorais que a forçarão à procura de uma regeneração que nos livre da demagogia eleitoralista de leis feitas à pressa, onde tanto se procura a criminalização do enriquecimento ilícito, como, no dia seguinte, se permite a imagem do deboche no financiamento partidário. Assim, quando alguns dos nossos companheiros de blogosfera, coerentes no seu anti-socratismo primário, logo se volvem em seguidistas dos bons sinais de mudança vindos do PSD, cá por mim continuo a não estar disposto a passar um cheque em branco a quem ainda não pediu perdão ao povo por ter sido causas dos mesmos vícios que agora cantarola contra o PS. Basta assistir a uma charla de Ângelo Correia, a um discurso de Alberto João ou a um choradinho de Manuel Dias Loureiro, para concluir que algumas andorinhas como Rangel ou certos discursos de Manuela Ferreira Leite ainda não são suficientes para medalhar com confiança um partido que continua a proibir a expressão da vontade popular, nomeadamente num referendo sobre as determinações que a multinacional do PPE impõe à autodeterminação portuguesa.

 

Do PP (Partido Portas), não vale a pena falar: basta a comparação com a energia do PCP e do Bloco de Esquerda. Os porteiros nem sequer conseguiram a autenticidade dos discursos de alguns bispos sobre a crise social e a crise da globalização, perdidos em causas como o securitário e o chauvinismo doces, de que os primos do Bloco Central logo se proveitarão quando acharem conveniente. Até nem conseguiram fazer uma justa defesa da ética do capitalismo democrático, porque cederam ao oportunismo do liberalismo a retalho, subscrevendo a cobardia daquela economia mística e salazarenta que gosta de privatizar os lucros e de socializar os prejuízos. Paulo Portas, o tradutor para português de Novak, esqueceu-se das fichas que então o doutrinavam, quando as associações católicas de empresários tentavam traduzir em vaticanês a ética protestante do capitalismo.

 

Aliás, ainda ontem ouvia o Professor Fernando Rosas, mantendo a sua coerência de marxiano, sublinhar que a esquerda autêntica era o último reduto dessa abstracção chamada Estado, contra os malefícios do mercado, emitindo um discurso que, sem ser de esquerda ou de direita, seria o mais próximo daquele que um Salazar renascido emitiria e até ultrapassaria, denunciando “a fina flor da plutocracia”. Julgo que quase todos os situacionistas de esquerda e de direita não reparam que o Estado a que chegámos já não é apenas o Estado da República dos Portugueses, porque, aqui e agora, a maior parte dos factores de poder já não são nacionais, havendo uma pluralidade de estadualismos, grande parte deles incaptável pelo dever-ser dos constitucionalistas. E não é a regulação estadualista dos portugueses que consegue colmatar a lacuna do vazio de Europa e da falta de uma urgente república universal capaz de controlar a geofinança e a geo-economia.

 

Por mim, que sou liberal e, como tal, defensor de um público e de um político mais eficazes, não situo essa necessidade de distribuição da justiça apenas no fantasma do Marquês de Pombal, de Fontes Pereira de Melo, de Afonso Costa e de Salazar. A regulação que nos falta não cabe no parlamento português, no governo português ou no presidente português. Precisa deles, mas situa-se na supra-estadualidade que só culturas políticas pluralistas, poliárquicas e fedralistas conseguem captar. Tentar matar elefantes com fisgas é gastar energias desnecessariamente. O Estado português é pequeno demais para os desafios da presente crise e utilizá-lo como grande demais para que se esmague a autonomia da sociedade civil é remar contra o tempo e liquidar a hipótese de uma pilotagem do futuro.

Mai 14

Conferência sobre o Brasil

 

Memória 1

O Brasil não é só presidente, mas uma realidade federal, onde tanto contam os Estados como os cinco mil municípios que, numa originalidade constitucional face ao modelo norte-americano, fazem parte da própria federação. E nesta mistura entre federalismo municipalista com poder moderador, surge um oceano político federalista, onde a imaginação continua a ser um elemento que além faz alguma diferença. Até o presidencialismo tem muito a ver com a velha herança imperial, da democracia coroada ou da monarquia republicana, onde os presidentes tentam reassumir esse sentido de pai dos pobres, à imagem e semelhança do Senhor D. Pedro II.

Memória 2
Isto é, para chegar à alma do Brasil, mesmo um português tem que fazer um esforço de conversão interior que o tente compreender, não como terra estranha e estrangeira, mas como algo que, provindo da mesma raiz se reproduziu noutras direcções e com outras gentes, mas a que nos continua a prender uma irmandade de afectos que gera esta profunda comunidade de significações partilhadas que, em paralelo, nos pode permitir caminhar, de nação em nação, para a super-nação futura.

Memória 3

Além, Silvestre Pinheiro Ferreira é mestre, José Bonifácio, um estandarte e até se conta a história de Avelar Brotero, o jurista, não o botânico, o tal que para aqui veio em 1825, depois de uma actividade de magistrado na pátria de origem, e que se transforma no primeiro lente da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi secretário durante quatro décadas.Será que nos esquecemos dele, só porque pediu a nacionalidade brasileira em 1833.Mas mestre Agostinho da Silva sempre exibiu, até morrer, o seu passaporte da terra de Vera Cruz…

Memória 4
É por via destes paradoxos que poucos repararam na reunião cimeira do Brasil, Índia e África do Sul, aqui ocorrida há dias. Este símbolo de uma emergente realidade que pode levar ao estabelecimento de um novo processo de relações entre o Norte e o Sul, com estas três grandes potências a mobilizarem o tertium genumreunido em torno dop grupo dos vinte. Todos querem esquecer as Tormentas e assumir a Boa Esperança.

O Brasil tem a vantagem de se assumir como uma espécie de espelho do mundo inteiro, este cadinho de povos entre o Velho e o Novo Mundo, onde a fome de justiça que se manifesta pode ser o sinal de um amanhã pós-ideológico, sem os falsos messianismos que mercaram o sectarismo do século XX.

 

Memória 5

Todos os dias quando acordo, aqui na residência universitária, vejo da janela uma família que habita sob um oleado, encostado ao parque de estacionamento do “campus”. Mais adiante, vai chagando carroça com um desses saloios dos arredores que vem à cidade vender verduras e fruta. Reparo como o povão destas grandes massas ainda vive em regime de “docta ignorantia”, não entendendo o discurso da elite politiqueira, mesmo a que vai cantarolando a causa operária. Também aqui este zé povinho não entende o exotismo de quem faz desta terra sítio de episódico turismo tropical que procura manconha, espiritismo ou sexo abrasador, quando burgueses e “yuppies” do mundo WASP se embedam de hedonismo terceiromundista, apagando, com dólares, euros e cartões de crédito a ética do puritanismo protesto que os fazem produtores austeros e cidadãos pacatamente silenciosos no dia a dia dos seus cinzentos nórdicos.

Porque o grande espaço deste Estado Continental, sem perspectivas hegemónicas ou expansionistas, apenas está condenado a crescer por dentro, transformando o povão em baixa classe média, mas correndo o risco de se fechar sobre si mesmo, sem assumir a missão que lhe cabe no mundo, que é a de contribuir para a mobilização da comunidade lusíada e, a mesmo tempo, sustentar a solidariedade com o mundo dos hispanos, para que valores universais como a democracia e o pluralismo, não continuem a ser traduzidos pelos calão, do anglo-americano.

Memória 6

 

Muitos esquecem que a mudança da capital de Lisboa para o Rio de Janeiro não ocorreu por pressão de Junot, dado que a mesma era uma alternativa estratégica desde 16140, várias vezes acalentada por D. Pedro II e aparecendo até no Testamento de D. Luís da Cunha como objectivo nacional.

Porque nesta banda lusíada do Atlântico Sul, naquilo que foi a América Portuguesa, sempre se publicaram obras de exílio da Europa Portuguesa. Desde os trabalhos do miguelista José da Gama e Castro, ao primeiro volume dos Ensaios de António Sérgio. Por aqui peregrinaram ilustres nacionalistas místicos de estirpe maçónica, como Jaime Cortesão e Agostinho da Silva ou densencantados do 28 de Maio como Fidelino de Figueiredo. E por cá até morreu Marcello Caetano, semeando discípulos como Ubiratan Borges de Macedo, por acaso ligado familiarmente ao próprio Fidelino.

À esquerda e à direita, entre os sonhos do progresso ou as nostalgias da reacção, o Brasil sempre foi espaço, não de exílio, mas de refúgio e alento para transfigurações e redescobertas da arte de ser português. Sem este espaço de alento, conforto e reconciliação, com doçura tropical, muito do que melhor se produziu entre certos portugueses tinha ficado no limbo das boas intenções. Espero que a vida continue. Navegar é preciso. Viver também.

É que por cá se não cravaram fundas as garras inquisitoriais, ou o clericalismo anticlericalista dos que proíbiram vestes talares ou o toque de sinos. A tolerância é condição ontológica do Brasil. O novo mundo só existiu para que os europeus nele pudessem fugir a perseguições de dogmatismos e fundamentalismos,.

Não consta que nesta banda do mundo tenham emergido os totalitarismos, nem por cá se contabilizam democídios, como os que mataram cerca de 200 milhões de seres humanos no século XX, para que as doutrinas se pudessem martelar.

Memória 7

Bem tenho pensado nesta emergência de um novo mundo lusíada do político e ainda ontem meditava na circunstância da formação do Brasil ter acompanhado a própria emergência do modelo pós-medieva, com Estado e Soberania, coisas que não existiam quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, antes de Maquiavel ser ditado postumamente e de Bodin ter teorizado a soberania. Aliás, no âmbito das revoluções demo-liberais do espaço ocidental, as revoluções sul-americanas, ficam situadas depois da inglesa, da norte-americana e da francesa, mas antes da primavera dos povos da Europa Central e Oriental, tendo o Brasil até exportado para Lisboa uma cópia constitucional que, entre nós, durou mais de meio século, nestas trocas e baldrocas políticas que nos fazem irmandade efectiva.

Mandaram-nos para a Lusitânia a Carta Constitucional, o partido dos brasileiros, ou chamorros, vencedor da guerra civil de 1828-1834, e a nossa querida D. Maria II, bem como, depois nos atiraram o positivismo republicano, com os brasileiros Sebastião Magalhães Lima e Bernardino Machado, tal como nós mandámos o Imperador, o Estado Novo e os constitucionalistas de 1976, talvez para compensar a circunstância de os últimos tempos do regime derrubado em 1974, ter sido pautado ideologicamente pelos modelos do Estado de Segurança Nacional de Golbery, para não falarmos nas relações de Gilberto Freyre com o almirante Sarmento Rodrigues, no lusotropicalismo. Está na hora de continuarmos este esforço, agora em conjunto com a própria CPLP. Basta relermos o Padre António Vieira, o José Bonifácio ou o Agostinho da Silva, para percebermos a urgência de superarmos a velha retórica dos Estados Unidos da Saudade, dado que os mesmo deixarão de existir se não fizermos investimentos culturais de povo a povo.

 

Memória 8

Volto a sublinhar como por estas paragens sempre se deu grande destaque à produção internacional de sociologia e de politologia, talve por causa da República Positivista que transformou em lema nacional a divisa de Comte e pôs na bandeira o verde que ele propunha para a salvação da humanidade. Mas talvez tenha sido por causa disso que o lado antipositivista aqui também floresceu, nomeadamente o neotomismo maritainista, bem represemtado pelo fulgor de Alceu Amoroso Lima. Nesta terra de contrastes, a sobrevivência impõe que se pratique o pluralismo e impede a unidimensionalidade, mesmo quando o Estado tem uma doutrina e se transforma numa força que a difunde a partir do vértice.

Confissão

Sou, infelizmente, daqueles que não sabem o que querem nem para onde vão, porque julgo que vale mais a autenticidade da procura, mesmo quando não se acha. Não sou dos que lamentam já não haver doutrinas que tenham força, nessas linhas que davam racionalidade ao pretenso processo histórico que não tinha previsto o fim da URSS e uma globalização com neoliberais e fundamentalistas islâmicos. Chamar caos ao que tem sido o presente baralhar do construtivismo de certas concepções do mundo e da vida talvez seja uma caricatura.

Na principal potência metafísica da Terra, com um abraço armilar

 

 

Reparo como o Brasil é, ao mesmo tempo, a principal potência católica do mundo e o sítio onde há mais espíritas, à Kardec, com direito a banca de divulgação nas universidades ou nos “shoppings”. E também não é por acaso que, por cá, as actividades da maçonaria são tão naturais como o ar que se respira, ao memso tempo que os canais evangélicos nos entram pela casa dentro.

Por outras palavras, esta mistura do português sonhador, à procura do paraíso, com a nostalgia das nações índias, dos afro-descendentes e dos muitos e variados povos das outras partes do mundo, gerou esta complexidade crescente, cada vez mais metafísica. Uma entidade espiritual que, começando por ser o mero mundo que o português criou, se tornou, felizmente, uma criatura liberta do criador que foi e continua a dar novos mundos ao mundo, cumprindo seu destino como comunidade nacional ao serviço do universal, como sítio de passagem para a super-nação futura.

E eu, português antigo, refeito nestas paragens como português à solta, conforme a definição de brasileiro dada por Manuel Bandeira, me revigoro de cosmopolis, sendo quem sempre fui, mas procurando diluir-me em todos os outros, de acordo com o conselho de mestre Gilberto Freyre.

Como heterodoxo lusitano, passível de condenação por heresia, é com uma cumplicidade de afectos plurissecular que assisto a este cadinho de explosões metafísicas que é o Brasil.
Apenas espero que o Brasil sonho tornar-se na principal potência espiritual do mundo. Porque assim o nosso compatriota comum, o Padre António Vieira pode voltar a ter razão.

E que viva o Reino Unido!

 

Além que é aqui continuo neste grande mar do sertão, onde os bandeirantes deram aos locais deste novíssimo mundo os nomes dos ventos de Atlântico Sul, aqui onde navegar é preciso para que viver possa continuar a ser possível, através de uma inevitável submissão para a sobrevivência, através de uma gestão das redes de influência em que se vão fragmentando as teias dos donos do poder. Onde quanto mais localmente feudal se situa o senhorio mais este tem de disfarçar-se de estadão.

 
Muitos esquecem que a mudança da capital de Lisboa para o Rio de Janeiro não ocorreu por pressão de Junot, dado que a mesma era uma alternativa estratégica desde 16140, várias vezes acalentada por D. Pedro II e aparecendo até no Testamento de D. Luís da Cunha como objectivo nacional.

Porque nessa banda lusíada do Atlântico Sul, naquilo que foi a América Portuguesa, sempre se publicaram obras de exílio da Europa Portuguesa. Desde os trabalhos do miguelista José da Gama e Castro, ao primeiro volume dos Ensaios de António Sérgio. Por lá peregrinaram ilustres nacionalistas místicos de estirpe maçónica, como Jaime Cortesão e Agostinho da Silva ou densencantados do 28 de Maio como Fidelino de Figueiredo. E por lá até morreu Marcello Caetano, semeando discípulos como Ubiratan Borges de Macedo, por acaso ligado familiarmente ao próprio Fidelino.

À esquerda e à direita, entre os sonhos do progresso ou as nostalgias da reacção, o Brasil sempre foi espaço, não de exílio, mas de refúgio e alento para transfigurações e redescobertas da arte de ser português. Sem esse espaço de alento, conforto e reconciliação, com doçura tropical, muito do que melhor se produziu entre certos portugueses tinha ficado no limbo das boas intenções. Espero que a vida continue. Navegar é preciso. Viver também.

É que por lá se não cravaram fundas as garras inquisitoriais, ou o clericalismo anticlericalista dos que proíbiram vestes talares ou o toque de sinos. A tolerância é condição ontológica do Brasil. O novo mundo só existiu para que os europeus nele pudessem fugir a perseguições de dogmatismos e fundamentalismos,.

Não consta que nesta banda do mundo tenham emergido os totalitarismos, nem por cá se contabilizam democídios, como os que mataram cerca de 200 milhões de seres humanos no século XX, para que as doutrinas se pudessem martelar.

Por isso, o sonho construtivista de cidades voando para o paraíso, onde Brasília tem algo do sonho de Norton de Matos no Huambo, à procura de uma Nova Lisboa, para se transformar num eventual Rio de Janeiro e que algumas vozes da actual Luanda querem continuar, com a edificação de uma Angólia. Porque a terra que tem por capital uma cidade com nome de São Paulo alimenta algumas das sementes deste desejo de novo mundo e de novo grande espaço para o sonho dos que gostam de navegar no sertão. Viva o Reino Unido!

Foi numa viagem à Índia que Pedro Álvares Cabral descobriu oficialmente a terra brasil, foi por causa do triângulo Portugal, Brasil, Índia que demos novos mundos ao mundo, escapando-nos da tenaz das cruzadas que marcava Roma e a Europa do Norte. Decidimos ir além, baralhando e dando de novo, fugindo, então, à tradicional crise do Médio Oriente. Hoje, entramos na fila dos que costuma tratar os assuntos do Levante com os pés.

 

1. Quando dizemos que Portugal tem oito séculos e meio, estamos a fazer uma interpretação retroactiva da história, estamos a contar uma história que tem mais a ver com a literatura de justificação do presente e com certa saudade de futuro do que a dizer verdade.

 

2. Portugal foi não apenas uma fundação, mas uma sucessão de refundações, porque a continuidade nos segredou que valia a pena assumirmos aquilo que Alexandre Herculano qualificou como a vontade de sermos independentes.

 

3. Eu que, neste meio século, assisti ao Portugal que alguns diziam dos anos do fim, foi-me dado concluir que, apesar de tudo, nos reinventámos, tal como em 1822, depois do traumatismo do fim do Reino Unido, conseguimos navegar na balança da Europa, gerindo dependências e aproveitando marés das interdependências, mas contando, no final do século XIX com a geração do heróis do mar e da reconstrução de mais um ciclo imperial, depois do marroquino, depois do indiano e depois do brasiliense.

 

4. Dizer o que vai ser Portugal daqui a vinte e cinco anos, com algum lume da razão, é muito menos do que vislumbramos do que, sobre Portugal, pode ser dito com algum lume da profecia.

 

5. Por mim, apenas digo que vai continuar a ser reinventado e reidentificado, desde que a geração dos inactivos e enjoados do situacionismo possa dar lugar aos indisciplinadores da nossa tradicional criatividade do abraço armilar.

 

6. Neste sentido, faço parte do partido dos velhos crentes e continuo a defender o quinto-império, o do poder dos sem poder, em que voltarão a reinar as crianças, podendo cumprir-se o máximo do sonho de Portugal que é o diluir-nos em todos os outros, sendo brasileiros, angolanos, moçambicanos ou timorenses.

 

 

 

Foi com emoção que, ontem, tive a honra de conferenciar num dos templos da pátria e da liberdade, no Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, fundado há 170 anos por exilados liberais portugueses, agora instalado num edifício neomanuelino, inaugurado em 1887, onde se guarda uma primeira edição d “Os Lusíadas” de 1572, ou o manuscrito do “Amor de Perdição”, que o presidente António Gomes da Costa me permitiu consultar. Porque esta instituição, de matriz azul e branca, isto é, liberal e liberdadeira, ainda vive como pensa, como um pedaço de Portugal à solta, tentando cumprir a ideia maior do abraço armilar, fiel à matriz dos homens livres que a fundaram e sucessivamente recriaram (aqui deixo algumas imagens do espaço e das pinturas que nela se guardam, de Camilo a um quadro de Malhoa sobre a descoberta do Brasil). E não foi por acaso que esta instituição teve a coragem de recordar alguém que, no ano de 1980, teve o seu corpo em câmara ardente nesse local.

 

Prefiro entender os sinais do tempo que nos permitem o diálogo entre homens de boa vontade, que isto da metafísica vai lá mais com esforço próprio do conhecimento modesto sobre verdades supremas e bem menos com sentenças, blogues e sermões mediáticos.

 

 

Por isso, me apetece passear sobre a viagem de mil e quinhentos, quando a armada de Pedro Álvares Cabral carimbou o registo visível da descoberta, antes de rumar ao subcontinente indiano e de deixar o estabelecimento dos portugueses na antiga feitoria chinesa. Porque, na altura, com os flexíveis navios que tínhamos recebido de um verdadeiro choque tecnológico, conseguimos o “abraço armilar”, permitindo que o rei de Portugal e dos Algarves fosse senhor do comércio e da navegação e não dono do estadão, seus domínios e conquistas, contra a geometria habsburguiana da monarquia única de Carlos V que, em 1580, nos apoucou e abocanhou.

 

 

Foi assim que a descoberta do caminho marítimo para todos os cantos do mundo teve prioridade sobre a eventual descoberta, por juncos chineses, da ponta de Sagres. obrigando-os a optar pelas lojas dos trezentos, o contrabando do tabaco e a grande “hackerie”. Porque vivíamos o tempo de Maquiavel, que também foi o tempo de Thomas More e da Utopia, de Erasmo e de Lutero, de D. Jerónimo Osório e de Bodin, dos Jerónimos e de Luís de Camões, onde a Utopia lusitana tinha as sensações do aqui e agora da Ilha dos Amores, desse vale mais experimentá-lo do que julgá-lo, embora continue admitir o julgamento dos que não podem, ou não querem, experimentá-lo. E lá me passeei de Maquiavel para Bodin, para o fim da “respublica christiana”, essa elipse que tinha dois focos (o Papa e o Imperador) e que foi destruída quando o florentino baptizou o Stato e o francês da soberania inventou a teoria conveniente para Henrique IV, libertando-o da dependência de Roma e dos Habsburgos.

 

 

Depressa concluí que tanto o Estado como a Soberania foram os dois principais inimigos do sonho português. E recordo como os “greatpowers” da história nunca tiveram essas algemas: o imperialismo democrático ateniense de Péricles; a “respublica” romana; os projectos de Alexandre executados por portugueses e britânicos; ou o mais recente regresso da república imperial norte-americana aos modelos dos senhorios manuelinos do comércio e da navegação. Porque todos eles foram anti-absolutistas, contra os absolutismos de monarcas, de partidos ou do próprio povo, resistindo em poliarquia. Porque absolutismos sempre foram os poderes em soluto, à solta, mesmo que seja a diarreia dos autoritarismos subestatais em que se enredaram estes pigmeus que invocam Sócrates, sempre mais papistas do que o pretenso papão.

 

 

Os grandes poderes do mundo, que sempre souberam rimar com democracia e consensualismo, nunca caíram nos vícios deste crescente salazarismo dito democrático que o nosso situacionismo vai conjugando, ao exaltar as lendas do estadão e do crescimento governamentalizado do respectivo intervencionismo maizena.

 

 

Por isso, mantenho-me como cidadão do Reino Unido da esfera armilar e quase me apetece voltar a pedir a integração da república portuguesa nos Estados Unidos do Atlântico Moreno, com Cabo Verde e Angola, mas com a capital no Rio de Janeiro. Porque me recordo que foram os brasileiros que fizeram regressar Luanda a este triângulo estratégico. Porque me apetece saudar José Bonifácio, o Padre António Vieira e D. Pedro I, que foi o nosso D. Pedro IV, e que aos dois deu a mesma constituição da democracia da sociedade civil.

 

Estes analistas dos prognósticos depois do apito final das crises, ditos, algumas vezes politólogos das relações internacionais, não há meio de compreenderem que só pela compreensão (Verstehen) podemos voltar a abraçar o armilar. Estão fora do tempo que passa porque não sabem conjugar o no princípio era o verbo do animal de discurso que tem ritmo de eternidade. Até nem sabem que a história, a do processo histórico das utopias e das ideologias, é bem menos verdadeira, no sentido de menos filosófica, do que a poesia. Precisam de ler mais sermões de Bento XVI, embora eu prefira os do Padre António Vieira, de avó mulata, em pleno Maranhão, porque assim me recordo que 1640 teve no Brasil a primeira das consequências, como me ensinou mestre Agostinho.

 

 

 

Nos próximos cinquenta anos continuaremos as escrever muitas frases que hão-de salvar a humanidade, mas a humanidade continuará por salvar. Porque continuaremos a chamar política a certas degerescências que não concebem que o Estado está acima do cidadão, mas que o homem está sempre acima do Estado.

 

Imaginei que, nos próximos cinquenta anos, voltarão os velhos cavaleiros do Apocalipse, como a fome, a peste e a guerra, mas que o homem de sempre, depois da queda, levantar-se-á e continuará a ler Platão, Buda, Confúcio, Cristo, Maomé e Rousseau, não tanto nas letras que matam o espírito, mas nos livros de folhas brancas que foram escritos pela eternidade, por aquele conceito que nos deve fazer reconhecer que a poesia é mais verdadeira do que a história.

 

Quisemos ser anjos, em nome das utopias, mas acabámos por incrementar as bestas.Temo que as utopias nos trarão novos autoritarismos e novos totalitarismos, mas que a força do bem, a beleza de sempre e a eterna sabedoria nos continuarão a mobilizar. Mesmo em tempo de crise, haverá sempre a “spera”, a “sphera” e a “sperança”, conforme a divida da armilar que D. João II deu ao futuro D. Manuel. Tentei apenas exprimir as minhas crenças e as minhas concepções do mundo e da vida, dessa procura do universal pela diferença. Esquecemos os homens como eles são e caímos na estreita perspectiva das ideologias, dos cientismos e da utopias, porque só a partir da humildade de nos reconhecermos como imperfeitos é que poderemos caminhar para a perfeição, atendendo mais às acções dos homens do que às rescpectivas intenções, construtivistas ou planeamentistas.

 

Todos temos, humildemente, que aprender com a ditadura dos factos. As tais realidades que quebraram todos os caixilhos ideológicos que nos tentavam explicar o processo histórico, onde alguns pensavam que a história é que moldava o homem. Todos temos de reconhecer que pode ser o homem a fazer a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Por mim, apenas confio. E, como liberal à Kant, mantenho a esperança dos desesperados. Prefiro assistir a estas reuniões cimeiras, onde dois dos vinte actores falam português e outros dois, castelhano, com seis anglo-saxónicos e apenas um em francês. Julgo que a nova língua universal da aliança de civilizações pode entrar no ritmo da justiça, se a política continuar superior à economia, mas sem que nos esqueçamos que os problemas económicos e financeiros se resolvem com medidas económicas e financeiras, mas não apenas com medidas económicas e financeiras. Acho que, apesar de tudo, depois de amanhã, o mundo vai ficar melhor. Sinto.-me da pátria do Padre António Vieira do Maranhão e do Zé Bonifácio do meu Conselho Conservador.

 

Contudo, se perspectivarmos o Portugal universal, poderíamos dizer, como ensinava Agostinho da Silva, que 1640 teve outra mais importante consequência: permitiu a criação do Brasil, permitiu que as principais energias do independentismo lusíada assentassem no lado de baixo do Equador e que se preparasse a mudança da capital do reino para o Rio de Janeiro, conforme uma estratégia nacional que estava amplamente delineada por D. Pedro II, bem antes de D. João VI. E foi do Brasil que saiu Salvador Correia de Sá para fundar outra cidade de São Paulo, a de Luanda, assim se dando corpo ao novo triângulo estratégico atlântico do oceano lusíada, entre o Rio, Luanda e Lisboa.

Quando a capital de Portugal foi de barco para a América do Sul e desembarcou no Brasil (1808), nessa operação inédita que nos tornou no único país da Europa que já teve a cabeça noutro continente, há duzentos anos. Na altura, a integração europeia obedecia ao ritmo imperialista de Paris, com um italiano afrancesado chamado Napoleone que, só por acaso, não estava casado com a Carla Bruni, embora também já tivesse a intenção de se assumir, pelas parangonas, rei do continente.

 

 

 

Mai 13

O subscretário da propaganda e turismo da ditadura não diria melhor!

Porque o ministro, o porta-voz, o provedor das empresas de trabalho temporário estão onde estava o marquês e o pina manique: estão por cima, são de cima. Contudo, até estão acima do que era a “alteza” dos processadores, dado que atingiram o impune da “majestade”. São um ponto geométrico soberano que paira como satélite abstracto na estratosfera, ensombrando a planície dos súbditos, esses unidimensionalizados opositores a quem vamos dar o nome odiado de “os partidos”. Porque nós, nós, os do partido do governo, nós somos o Estado. E o que nós dizemos tem valor de lei. E nós até estamos dispensados da própria lei que fazemos. Nós e os nossos representantes é que podemos processar e nenhum dos nossos agentes pode ser processado. O Estado são eles, o “lui”, os que passaram para o mandarinato, esquecidos que em democracia o Estado devíamos ser nós, a república, a comunidade, porque os cidadãos inventaram a política para deixarem de ter um dono e apenas entregaram aos ministros, aos deputados e ao porta-voz, um depósito, um “trust” transitório, mantendo o poder original da revolta. Resta saber se o espelho invisível do amiguismo pode apagar todos os vestígios desse corta-fogo discursivo, para que Pilatos continue a lavar as mãos com os falsos credos maquiavélicos do arrependimento do sim-senhorismo. Os donos do poder parecem esquecer que a democracia não é sabermos quem manda, mas como é possível controlar o poder dos mandarins, dos que pegam na mesa do orçamento e convidam certos opositores para comensais, transformando inimigos de ontem em aliados de hoje, para que os aliados de ontem que passaram a dissidentes ou a opositores possam ser devidamente processados no caso de usarem o discurso da racionalidade contra as notas oficiosas do chefe e dos respectivos porta-vozes. Prefiro continuar a ouvir o Amália Hoje, sem discos riscados…

 

Mai 12

Conjugando o abraço armilar, ao ritmo da heresia, contra o intervencionismo do estadão

Observo o Papa em visita à Jordânia e a Israel e noto como um homem de filosofia não consegue ser um homem de teatro e púlpito, embora o compreenda como homem das verdades absolutas da religião, mesmo que seja de uma religião que é mais do que minha, porque, indo por Roma dentro, cheguei aos estóicos, como me recordou Albert Camus. E prefiro entender os sinais do tempo que nos permitem o diálogo entre homens de boa vontade, que isto da metafísica vai lá mais com esforço próprio do conhecimento modesto sobre verdades supremas e bem menos com sentenças, blogues e sermões mediáticos. Europeísmo, por europeísmo, prefiro a bandeira do Padre Vieira e estou a preparar uma intervenção que farei na embaixada do Brasil daqui a poucos dias sobre a minha perspectiva lusitana sobre a teoria do Brasil. Por isso, me passeei sobre a viagem de mil e quinhentos, quando a armada de Pedro Álvares Cabral carimbou o registo visível da descoberta, antes de rumar ao subcontinente indiano e de deixar o estabelecimento dos portugueses na antiga feitoria chinesa. Porque, na altura, com os flexíveis navios que tínhamos recebido de um verdadeiro choque tecnológico sem QREN nem Gago, conseguimos o “abraço armilar”, permitindo que o rei de Portugal e dos Algarves fosse senhor do comércio e da navegação e não dono do estadão, seus domínios e conquistas, contra a geometria habsburguiana da monarquia única de Carlos V que, em 1580, nos apoucou e abocanhou. Foi assim que a descoberta do caminho marítimo para todos os cantos do mundo teve prioridade sobre a eventual descoberta, por juncos chineses, da ponta de Sagres. obrigando-os a optar pelas lojas dos trezentos, o contrabando do tabaco e a grande “hackerie”. E recordo as aulas que dei sobre o tempo de Maquiavel, que também foi o tempo de Thomas More e da Utopia, de Erasmo e de Lutero, de D. Jerónimo Osório e de Bodin, dos Jerónimos e de Luís de Camões, onde a Utopia lusitana tinha as sensações do aqui e agora da Ilha dos Amores, desse vale mais experimentá-lo do que julgá-lo, embora continue admitir o julgamento dos que não podem, ou não querem, experimentá-lo. E lá passei de Maquiavel para Bodin, para o fim da “respublica christiana”, essa elipse que tinha dois focos (o Papa e o Imperador) e que foi destruída quando o florentino baptizou o Stato e o francês da soberania inventou a teoria conveniente para Henrique IV, libertando-o da dependência de Roma e dos Habsburgos. Depressa concluí que tanto o Estado como a Soberania foram os dois principais inimigos do sonho português. E recordei como os “greatpowers” da história nunca tiveram essas algemas: o imperialismo democrático ateniense de Péricles; a “respublica” romana; os projectos de Alexandre executados por portugueses e britânicos; ou o mais recente regresso da república imperial norte-americana aos modelos dos senhorios manuelinos do comércio e da navegação. Porque todos eles foram anti-absolutistas, contra os absolutismos de monarcas, de partidos ou do próprio povo, resistindo em poliarquia. Porque absolutismos sempre foram os poderes em soluto, à solta, mesmo que seja a diarreia dos autoritarismos subestatais em que se enredaram estes pigmeus, sempre mais papistas do que o pretenso papão. E penso-o, principalmente, nesta loucura teórica do desespero do estadão, dito de esquerda ou de direita, quando elas se transformam em mera hemiplegias mentais, para citar Ortega y Gasset, esse espanholito que residiu oficialmente na Avenida 5 de Outubro e que Sócrates tentou há dias balbuciar em comiciês, mas sem garra de autenticidade. Os grandes poderes do mundo, que sempre souberam rimar com democracia e consensualismo, nunca caíram nos vícios deste crescente salazarismo dito democrático que o nosso situacionismo vai conjugando, ao exaltar as lendas do estadão e do crescimento governamentalizado do respectivo intervencionismo maizena. Por isso, mantenho-me como cidadão do Reino Unido da esfera armilar e quase me apetece voltar a pedir a integração da república portuguesa nos Estados Unidos do Atlântico Moreno, com Cabo Verde e Angola, mas com a capital no Rio de Janeiro. Porque me recordo que foram os brasileiros que fizeram regressar Luanda a este triângulo estratégico. Porque me apetece saudar José Bonifácio, o Padre António Vieira e D. Pedro I, que foi o nosso D. Pedro IV, e que aos dois deu a mesma constituição da democracia da sociedade civil. E para homenagear Cavaco, até poderia recordar que o mais fiel amigo dos turquinhos foi o segundo imperador, o D. Pedro II, embora prefira salientar que gosto mais do fazer e estou muito orgulhoso com o curso de turco cujo nascimento influenciei numa secção da universidade pública portuguesa. Estes analistas dos prognósticos depois do apito final das crises, ditos, algumas vezes politólogos das relações internacionais, não há meio de compreenderem que só pela compreensão (Verstehen) podemos voltar a abraçar o armilar. Estão fora do tempo que passa porque não sabem conjugar o no princípio era o verbo do animal de discurso que tem ritmo de eternidade. Até nem sabem que a história, a do processo histórico das utopias e das ideologias, é bem menos verdadeira, no sentido de menos filosófica, do que a poesia. Precisam de ler mais sermões de Bento XVI, embora eu prefira os do Padre António Vieira, de avó mulata, em pleno Maranhão, porque assim me recordo que 1640 teve no Brasil a primeira das consequências, como me ensinou mestre Agostinho.

Mai 11

Um de Agosto de 1938, a revolta continua…

Hoje, há mais para viver do que para dizer, porque a hierarquia dos valores assim o exige. Porque a esperança começa a conjugar-se sem necessidade das mesmas escadarias do hospital, uma, duas, três vezes por dia. Está tudo mais próximo e a recuperação continua. Daí que, espreitando os jornais e as televisões, considere totalmente artificial estas retóricas eleitoraleiras, governamentaleiras, presidencialeiras e politiqueiras. Pior ainda são as literaturas de justificação dos patifes que ainda há semanas tinham como inimigos os principais aliados. Bastou uma compra de votos, uma troca feudal de favores e a cooperação devorista à mesa do orçamento, de acordo com o plano do mais recente espião desempregado que nas horas vagas se costuma dedicar a passar a teoria das conspiração para uma mancha pé-de-página num qualquer jornaleco de província. Sua excelência volta a ter sonho secretarial no ministerialismo que inevitavelmente se vai renovar e tanto faz o social-democrata como o rosa, o comuna como o porteiro, já o vi meter cunhas adversário quando procurava manter o emprego. Por isso, sorrio.

 

 

Vou às aulas já com mais força, apesar dos corredores e finalmente, sem aviso prévio, lá me chegaram as provas de um livro que há mais de dois anos ando no prelo, sem ser por mim culpa, mas pelas volutas que também o fizeram jazer outros tantos anos à porta da decisão orçamental. Vale-me que o tempo beneditino do professor nada tem a ver com o curto-prazo dos maquivélicos detentores de um poder que precisa de ser pactado pelas pequenas e médias oligarquias das assembleias das pequenas e médias oligarquias. Os mandarins passam, as obras trabalham-se, mesmo quando se tem um nome estrangeiro como o meu.

 

 

Ontem espreitei na livraria o recente ficheiro dos condenados pelo salazarismo que Fernando Rosas mobilizou. E lá estava o avoengo que me deu um dos nomes que ainda consta no bilhete de identidade (“Eufrásio”). Confirmei que foi sentenciado em 1 de Agosto de 1938 e vou agora tentar compulsar o processo que não é referenciado no livro, dado que onde não havia organização do PCP e sucedâneos não ficavam registos nas efemérides anti-ditatoriais. Uma pequena revolta local contra o poder estabelecido, se não tivesse escritor, não ficava na história e o nome do sentenciado para mim não é mais um. Em qualquer caso, um obrigado ao Fernando Rosas por me lembrar o combate do Olho Marinho, onde meus avoengos resistiram, mantendo o espírito da Revolta do Grelo das gentes dos Campos de Coimbra de que sou mera consequência. Foi logo a seguir ao que a imagem comemora, o massacre de 1937. E os foros e costumes que defendiam eram umas regras medievais sobre regas e louvados, contra a interferência do estadão e das espingardas da GNR.

Mai 09

Entre São Domingos, Aljustrel e a Panasqueira, com passos trocados, sem a disciplina das correias

Quebrado o velho armístício, as duas correias de transmissão de interesses, pressões e canalizações do nosso situacionismo, continuam os insultuosos bailados de campanha, sem este garboso marcar passo dos restos de estalinismo bombista da revolução por cumprir. Por mim, que sempre prefiria um partido pirata, vou tentando ouvir as palavras da Professora Manuela Magno, as intervenções do Frederico do PPM, ou os ensaios de dinâmica de grupo da Laurinda Alves, em nome do respeito pelo princípio básico da igualdade de oportunidades. Rio-me com a polémica que rodeia o imposto vital, quase tão nebuloso para as massas que vão às feiras, quanto o testamento também vital que o parlamento ontem aprovou na generalidade, graças aos esforços da minha querida amiga Maria de Belém.

 

Noto que, na verdade, há muito pagamos impostos europeus, sem qualquer clandestinidade, como muito bem poderia explicar qualquer especialista em IVA. Porque qualquer transferência de soberania para uma qualquer comunidade política supra-estadual implica a inevitável democracia fiscal desta, apenas lamentando não haver um adequado imposto mundial que bem poderia incidir sobre as transacções bolsistas, conforme propostas de um prémio Nobel que sabe mais economia do que eu. Um qualquer federalista e um qualquer adepto de certos segmentos de república universal não pode desejar outra coisa, caso não padeça do pecado da hipocrisia.

 

Claro que não vou falar da poeira de Dakar, que as notícias transformaram em lama, nas desventuras das briosas avenças, ou naqueles lamentáveis comentários de um juiz sobre o caso da criança russa, onde ele confessou que apenas julgou por papéis fornecidos pelos burocratas do apoio social. Se a administração da justiça em nome do povo não resistir a estas tentações do microfone de “talk show” ao ritmo pimba, tais declarações ombrearão com as bocas dos ministros do trabalho e da justiça sobre a matéria. Isto é, são todas lamentáveis e susceptíveis de mais um choradinho do senhor bastonete dos abacates.

 

Claro que o Professor Vital, ao pisar o risco dos qualificativos serenos e ao confundir o partido concorrente com as zonas de roubalheira, ficou tão excitado que até trocou o Leste com o Oeste alentejanos dizendo que as Minas de São Domingos são as de Aljustrel, talvez porque no subconsciente estavam as da Panasqueira, com a inevitável lembrança das roubalheiras dos romances do volfrâmio de mestre Aquilino Ribeiro, que até rimam com Cova da Beira. Naturalmente, o mais jovem docente Rangel chama um figo a esses jogos florais do espumante da Bairrada e, com o verrinoso da Foz do Douro, mas sem pronúncia à moda do Norte, replicará com nova facada verbal, para que Manuel Alegre conclua, e muito bem, que nenhum deles está a querer discutir o mandato para a Europa que pedem ao povo.

 

Por estas e por muitas outras, somos obrigados a concluir que esta campanha não tem passado de um péssimo filme de série B, dependente das cenas de outras longas metragens, desde o BPN ao longo parto da eleição do novo Provedor de Justiça, dado que os sobreiros do BES, os submarinos e os sucessores do Chaimite ameaçam fazer concorrência de parangonas a Constâncio, a Berardo e ao futuro treinador do Sport Lisboa e Benfica, neste mais do mesmo que nos vai minguando em entusiasmo cívico.

Mai 08

As fotografias erradas da parecerística do nosso processo de desinstitucionalização em curso

Um diário de hoje parece ter tirado, da arca do politicamente incorrecto, um dos segredos mais badalados há décadas de certo bloco central de interesses, onde, aliás, poucos pormenores conheço, a não ser os que me bateram à porta e que foram, naturalmente, porta fora. Destes, apenas recordo que nunca mais poderia falar de certo autarca à  moda do Minho se aceitasse discorrer cientificamente sobre o racismo, depois de uma acusação com que Pacheco Pereira justamente o brindou. Tal como não poderia abrir a boca sobre o persurso político de um antigo ministro do ambiente, se tivesse ousado opinar remunerativamente sobre o Plano Nacional da Água. Ou sobre um outro grande político do PS se caísse na esparrela de teorizar sobre as prisões, como me foi proposto por um ilustre presidente de Conselho Directivo, ex-director-geral do ministério. Não sou intelectual nem nunca tive tentações de intelectuário.

 

Daí achar curiosas as pidescas pesquisas que algumas alimárias têm feito junto de estações de rádio e televisão, bem como junto de certas revistas e jornais, procurando determinar as quantias que recebo pelo comentarismo a que me dedico. Todas as tentativas chegaram à verdade do número zero e desafio quem quer que seja a perder a cobardia das pesquisas da espionite pidesca. Apenas considero o meu publicismo como extensão da vida universitária em prestação de serviço à comunidade, colocando-o no mesmo plano da investigação aplicada que torno disponível nas minhas páginas e portais. Podem consultar até à vírgula a minha declaração de IRS, pelo que desafio todas as universidades a colocarem nas  vitrinas as quantias recebidas por ilustres colegas, não apenas na parecerística, mas, sobretudo, nas alcavalas remunerativas da engenharia de subsídios públicos para a  investigação e viagens de turismo científico, incluindo as que são subsidiadas por certas fundações que com tais instituições públicas têm protocolos.

 

Julgo que muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos, incluindo subidas na carreira e protecção  nas subidas de familiares directos dos protocolantes, bem como certas indicações para alguns cargos, todas essas clandestinidades que têm a mesma natureza das zonas ocultas do financiamento partidário, dado que participam, de forma indirecta, neste sistema de compra do poder em sentido amplo. Basta recordar que já Alves dos Reis comprou para o respectivo banco ilustres e catolicíssimos professores universitários, conforme podemos ler no processo, onde um deles se safou graças aos magníficos depoimentos de António de Oliveira Salazar e D. Manuel Gonçalves Cerejeira. O nosso querido sistema derramou as suas faltas de autenticidade não apenas entre deputados e partidocratas, mas por todo o regime, numa operação de desinstitucionalização que sugou a autonomia tanto dos grandes corpos de Estado como das velhas autonomias da sociedade civil.

 

Quem consultar a lista dos membros dos conselhos fiscais e das mesas das assembleias gerais de certos bancos e de importantes grupos económicos confirma a hipocrisia de uma sistema de gamela devorista, onde o público e o privado, irmanados pela empregomania, vivem em conúbio de economia mística, estendendo as suas nebulosas por todos os campos, incluindo o universitário, com este modelo dos conselhos gerais, onde os hierarcas instalados escolhem determinadas figuras da banca e do grande empresariado, para que o bloco central escolha quem os escolheu, em regime de endogamia, é quase tão pouco transparente quantos certos concursos públicos com fotografia. O artigo que hoje aparece no “Diário de Notícias” não é o princípio de muitos outros artigos, porque a armadura do silêncio vai fazer aliar a extrema-esquerda à  extrema-direita com a consequente unanimidade do boicote informativo, que é a alma do negócio desse Olimpo. Aliás, a pedrada nem sequer trouxe as fotografias certas, porque, dos principais, nem sequer há fotografias. Tentem outras zonas de parecerística e consultadoria, como a economia, a finança, as verduras, o ordenamento do território, as lixeiras e muitas engenharias e engenhocas. É um fartar de informações à espera do urgente jornalismo de investigação.

 

Actualizando um dito de certo general espanhol contra Unamuno, não direi, como ele disse, que, quando me falam de inteligência, puxo logo da pistola. Agora, puxam logo do livro de cheques e do cartão de crédito…

Mai 08

Muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos

Julgo que muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos, incluindo subidas na carreira e protecção  nas subidas de familiares directos dos protocolantes, bem como certas indicações para alguns cargos, todas essas clandestinidades que têm a mesma natureza das zonas ocultas do financiamento partidário, dado que participam, de forma indirecta, neste sistema de compra de poder em sentido amplo. Basta recordar que já Alves dos Reis comprou para o respectivo banco ilustres e catolicíssimos professores universitários, conforme podemos ler no processo, onde um deles se safou graças aos magníficos depoimentos de António de Oliveira Salazar e D. Manuel Gonçalves Cerejeira. O nosso querido sistema derramou as suas faltas de autenticidade não apenas entre deputados e partidocratas, mas por todo o regime, numa operação de desinstitucionalização que sugou a autonomia tanto dos grandes corpos de Estado como das velhas autonomias da sociedade civil. Quem consultar a lista dos membros dos conselhos fiscais e das mesas das assembleias gerais de certos bancos e de importantes grupos económicos confirma a hipocrisia de uma sistema de gamela devorista, onde o público e o privado, irmanados pela empregomania, vivem em conúbio de economia mística, estendendo as suas nebulosas por todos os campos, incluindo o universitário, com este modelo dos conselhos gerais, onde os hierarcas instalados escolhem determinadas figuras da banca e do grande empresariado, para que o Bloco Central escolha quem os escolheu, em regime de endogamia, é quase tão pouco transparente quantos certos concursos públicos com fotografia. Actualizando um dito de certo general espanhol contra Unamuno, não direi, como ele disse, que, quando me falam de inteligência, puxo logo da pistola. Agora, puxam logo do livro de cheques e do cartão de crédito…

Mai 07

Uma folha do meu cadastro, contra canhotos, endireitas e bonzos…

Com tanta gripe porcina e anúncios a papas de farinha de milho, o espaço do comentário político, mesmo quando lírico, fica comprimido por falta de adequados conhecimentos médicos e psicanalíticos. Aliás, um jornal de referência, que gentilmente transporta um comentário que emiti sobre Manuel Alegre, qualifica-me como alguém do centro-direita e inclui, na minha biografia, uma coisa que nunca fui: adjunto de secretário-geral ou secretário-geral de um partido cujo alvará ainda é acenado numa determinada bancada parlamentar. É evidente que este ultimo cargo foi ocupado por um conhecido autarca e agora comentador televisivo das segundas-feiras futebolísticas, o meu querido amigo Fernando, que actualmente é do PSD, tal como o que antecedeu, Vieira de Carvalho. Fora esta correcção, que me permitiria locubrar com mais densidade sobre financiamentos partidários e almoçaradas no “Ti Matilde” dos adjuntos de secretário-geral, detesto ser qualificado como do centro-qualquer-coisita, pelo que prefiro ser mesmo dito de direita, porque é bem mais democrático ocupar este espaço, mesmo quando me sinto à esquerda da actual esquerda, só porque me situo, como me ensinou o professor Miguel Reale, na esquerda da direita, isto é, um liberalão radical do centro excêntrico, sobretudo perante este situacionismo feito de governos de esquerda com mentalidade de direita e de oposições de direita que se dizem da esquerda moderna, dado que de tanto andarmos com preconceitos canhotos, restam os endireitas da demagogia, para que dominem estes nem carne nem peixe que, no PS e no PSD, se devem qualificar como autênticos bonzos.

 

Por esta e por outras, fui reler uma carta minha, datada de 30 de Novembro de 1985. Quase mantenho tudo quanto nela escrevi, numa altura em que Vital Moreira ainda era cunhalista e muitas das gentes que hoje se dizem do centro-esquerda e do centro-direita ainda andavam pela extrema-esquerda e pela extrema-direita, longe dos ministerialismos que hoje os envaidecem e pombalizam. Mesmo deixando transparecer algumas ingenuidades, sobretudo quanto aos neomaquiavélicos e talleyrands, não deixo de publicitar aqui e agora esta folha do meu cadastro:

 

 

Exº Sr. xxx.

 

Porque Deus escreve direito por linhas tortas, os desígnios do “acaso” e o providencial da “necessidade” fizeram eleger V. Exª como Presidente da Comissão Política do yyy, com uma nova equipa directiva, a que tenho a honra de pertencer. Mudança de líder e, porque o estilo é o homem, uma inevitável alteração do discurso ideológico do partido, com redução da chamada sensibilidade liberal à dimensão de mera sensibilidade. Acontece que, no partido, sempre me afirmei como alguém da direita liberal, desde a moção que subscrevi no último congresso a várias intervenções na comissão política e nos conselhos nacionais.

 

Sempre estive próximo das linhas de força do discurso do Dr. Lucas Pires, menos pela amizade que a ele me liga, do que pela identidade de origens e de percurso políticos. Não considerei e continuo a não considerar tal posição como incompatível com o apoio ao Senhor xxx e, muito menos, incompatível com o fazer parte da equipa que V. Exª dirige. Não foi por acaso que, no primeiro conselho nacional depois das últimas eleições, fui um dos primeiros conselheiros a propor expressamente a liderança do Senhor xxx e, simultaneamente a proclamar a minha solidariedade activa para com as posições políticas do Dr. Lucas Pires.

 

Mas para que não surjam equívocos e eventuais acusações de oportunismo, sinto o dever de manifestar-lhe expressamente estas posições. É que podem mudar-se os tempos, mas as “viradeiras” não me fazem mudar de vontade e, muito menos de ideário. Ora, o silêncio pode gerar nebulosas e não queria deixar de clarificar situações, até porque não sei comprometer-me com reservas mentais. Com efeito, apenas aderi ao yyy na sequência do V Congresso, acolhendo-me à sombra da bandeira do nacionalismo liberal. Porque, até então, nunca me seduziu o carisma de Freitas do Amaral (carisma, por carisma, sempre fui sá-carneirista), nem os preconceitos de esquerda do centrismo que afectavam os dirigentes históricos do yyy.

 

….

 

Foram estas as raízes de direita cultural que nos marcaram, permitindo-nos observar a revolução de 1974 como inevitável consequência do império da esquerda. O PREC foi para nós a continuação da resistência e, atirados para o exílio, a prisão, o saneamento ou a simples marginalidade, não pudemos, ou não quisemos, ser actores da encenação partidária ocorrida a partir de 1974. Muitos de nós vieram apenas a reencontrar-se com a política activa através da imaginação criadora do Dr. Lucas Pires, já depois da chamada revolução conservadora ter feito renascer a direita ocidental.

 

A história vivida e a história estudada fez-me anti-revolucionário e o pendor tradicionalista fez-me acentuar o anti-absolutismo. Permaneci de direita e assumi-me como liberal. No meu caso, fui especialmente marcado pelo estudo da história das ideias políticas portuguesas e pela redescoberta do nacionalismo liberal de Garrett, Herculano, Pascoaes e Leonardo Coimbra. E não é por acaso que, conquenta anos antes do Dr. Lucas Pires, já Fernando Pessoa teorizava o nacionalismo liberal. Não se trata evidentemente do neoliberalismo estrangeirado, citador dos Hayeks e outros autores da moda. E muito menos da cedência a qualquer costela jacobina.

 

Considero, aliás, que a nossa direita integralista e salazarista sempre teve preconceitos em convergir com o liberalismo regenerador e o republicanismo conservador, esquecendo que grande parte dos nossos liberais apenas procurou restaurar o consensualismo pré-pombalino. É este o meu “ser de direita liberal”.

 

Marcado pela mesma fonte axiológica que levou à democracia-cristã original, ainda corporativa e hierarquista (não é por acaso que o nosso primeiro partido democrata-cristão se chamou nacionalista); fiel à mesma matriz que gerou a democracia social do pós-guerra, institucionalista e personalista, considero que este fundo permanente de valores pode agora iluminar a sensibilidade liberal, acentuando a luta contra o estatismo, socialista, social-democrata ou simplesmente tecnocrático. É esta a principal frente de combate, depois de outrora ter acentuado o anti-individualismo e o anti-colectivismo.

 

Aquilo que considero como a terceira geração da democracia-cristã, a síntese entre a perspectiva liberal e a perspectiva cristã, por enquanto apenas se prenuncia, ainda sem claros contornos doutrinários. Mas o renascimento liberal e conservador do Ocidente vai impulsionar essa convergência que, nos países de tradição católica como o nosso, revestirá formas diversas das sínteses alcançadas em sociedades marcadas pelo conservadorismo laicista dos partidos liberais clássicos. Nacionalista por princípio e apenas liberal por conclusão, considero que o yyy só se enraizará na sociedade portuguesa quando se portugalizar doutrinariamente.

 

Senti-me no dever de expressar esta minha posição através do presente meio. Julgo que a melhor forma de apoiar o Senhor xxx, para servir o partido e a nação, é não ser xxxista, no sentido de yesman. Não sou catavento doutrinário nem imobilista ortodoxo. Acredito. E uma equipa é tanto mais unida quanto melhor potenciar a integração de diferentes sensibilidades e gerações. Julgo que, na essênciam nada do que aqui afirmo constitui uma novidade para o Senhor xxx. Com todo o respeito e consideração (sic).

 

P.S. 1. Dois anitos volvidos, saí do partido, com o regresso de Freitas do Amaral. Ainda foi antes da queda do muro e até fui deputado à AR quando passava minhas férias de Verão no Valbom dos Gaviões, junto a São Julião de Mateus Álvares. Mas o líder parlamentar, que era adjunto do senhor XXX, só mo disse depois de acabar o período de suspensão do deputado que fui substituir. Na altura, o grupo parlamentar era numeroso: cabia todo num táxi. Mas ainda guardo o cartão de membro desse clube de soberania e o dístico para o parque de estacionamento do palácio. Mais acrescento que não estive quieto durante o PREC e logo a seguir ao 25 de Novembro ainda tive tempo para ser adjunto de um dos gabinetes do governo provisório, como o fui dos três governos eanistas. Mas formal militante de partido, só o fui enquanto ele era oposição. Sempre fui do contra.

 

P.S. 2. Quando saio de uma instituição, saio mesmo, até antes de formalmente sair, especialmente quando ela perde a ideia de obra, não cumpre as regras de processo e entra em vazio de manifestações de comunhão entre os colegas ou campanheiros. Por exemplo: apesar de ter formalmente saído em 1984, nunca saí animicamente da Faculdade de Direito de Lisboa. Tal como da de Coimbra, como aluno, “status” que larguei em 1974. E estas continuam a ser as duas escolas que me fazem pertencer à “alma mater”. Por isso, agradeço as manifestações de comunhão que os colegas e companheiros me transmitiram nestes últimos dias. Mesmo quando as excepções confirmam a decadência..

Mai 07

Porque Deus escreve direito por linhas tortas

Exº Sr. xxx.  Porque Deus escreve direito por linhas tortas, os desígnios do “acaso” e o providencial da “necessidade” fizeram eleger V. Exª como Presidente da Comissão Política do yyy, com uma nova equipa directiva, a que tenho a honra de pertencer. Mudança de líder e, porque o estilo é o homem, uma inevitável alteração do discurso ideológico do partido, com redução da chamada sensibilidade liberal à dimensão de mera sensibilidade. Acontece que, no partido, sempre me afirmei como alguém da direita liberal, desde a moção que subscrevi no último congresso a várias intervenções na comissão política e nos conselhos nacionais.  Sempre estive próximo das linhas de força do discurso do Dr. Lucas Pires, menos pela amizade que a ele me liga, do que pela identidade de origens e de percurso políticos. Não considerei e continuo a não considerar tal posição como incompatível com o apoio ao Senhor xxx e, muito menos, incompatível com o fazer parte da equipa que V. Exª dirige. Não foi por acaso que, no primeiro conselho nacional depois das últimas eleições, fui um dos primeiros conselheiros a propor expressamente a liderança do Senhor xxx e, simultaneamente a proclamar a minha solidariedade activa para com as posições políticas do Dr. Lucas Pires.  Mas para que não surjam equívocos e eventuais acusações de oportunismo, sinto o dever de manifestar-lhe expressamente estas posições. É que podem mudar-se os tempos, mas as “Viradeiras” não me fazem mudar de vontade e, muito menos de ideário. Ora, o silêncio pode gerar nebulosas e não queria deixar de clarificar situações, até porque não sei comprometer-me com reservas mentais. Com efeito, apenas aderi ao yyy na sequência do V Congresso, acolhendo-me à sombra da bandeira do nacionalismo liberal. Porque, até então, nunca me seduziu o carisma de Freitas do Amaral (carisma, por carisma, sempre fui sá-carneirista), nem os preconceitos de esquerda do centrismo que afectavam os dirigentes históricos do yyy.  …. Foram estas as raízes de direita cultural que nos marcaram, permitindo-nos observar a revolução de 1974 como inevitável consequência do império da esquerda. O PREC foi para nós a continuação da resistência e, atirados para o exílio, a prisão, o saneamento ou a simples marginalidade, não pudemos, ou não quisemos, ser actores da encenação partidária ocorrida a partir de 1974. Muitos de nós vieram apenas a reencontrar-se com a política activa através da imaginação criadora do Dr. Lucas Pires, já depois da chamada revolução conservadora ter feito renascer a direita ocidental.  A história vivida e a história estudada fez-me anti-revolucionário e o pendor tradicionalista fez-me acentuar o anti-absolutismo. Permaneci de direita e assumi-me como liberal. No meu caso, fui especialmente marcado pelo estudo da história das ideias políticas portuguesas e pela redescoberta do nacionalismo liberal de Garrett, Herculano, Pascoaes e Leonardo Coimbra. E não é por acaso que, conquenta anos antes do Dr. Lucas Pires, já Fernando Pessoa teorizava o nacionalismo liberal. Não se trata evidentemente do neoliberalismo estrangeirado, citador dos Hayeks e outros autores da moda. E muito menos da cedência a qualquer costela jacobina. Considero, aliás, que a nossa direita integralista e salazarista sempre teve preconceitos em convergir com o liberalismo regenerador e o republicanismo conservador, esquecendo que grande parte dos nossos liberais apenas procurou restaurar o consensualismo pré-Pombalino. É este o meu “ser de direita liberal”. Marcado pela mesma fonte axiológica que levou à democracia-cristã original, ainda corporativa e hierarquista (não é por acaso que o nosso primeiro partido democrata-cristão se chamou nacionalista); fiel à mesma matriz que gerou a democracia social do pós-guerra, institucionalista e personalista, considero que este fundo permanente de valores pode agora iluminar a sensibilidade liberal, acentuando a luta contra o estatismo, socialista, social-democrata ou simplesmente tecnocrático. É esta a principal frente de combate, depois de outrora ter acentuado o anti-individualismo e o anti-colectivismo. Aquilo que considero como a terceira geração da democracia-cristã, a síntese entre a perspectiva liberal e a perspectiva cristã, por enquanto apenas se prenuncia, ainda sem claros contornos doutrinários. Mas o renascimento liberal e conservador do Ocidente vai impulsionar essa convergência que, nos países de tradição católica como o nosso, revestirá formas diversas das sínteses alcançadas em sociedades marcadas pelo conservadorismo laicista dos partidos liberais clássicos. Nacionalista por princípio e apenas liberal por conclusão, considero que o yyy só se enraizará na sociedade portuguesa quando se portugalizar doutrinariamente.  Senti-me no dever de expressar esta minha posição através do presente meio. Julgo que a melhor forma de apoiar o Senhor xxx, para servir o partido e a nação, é não ser xxxista, no sentido de yesman. Não sou catavento doutrinário nem imobilista ortodoxo. Acredito. E uma equipa é tanto mais unida quanto melhor potenciar a integração de diferentes sensibilidades e gerações. Julgo que, na essênciam nada do que aqui afirmo constitui uma novidade para o Senhor xxx. Com todo o respeito e consideração (sic).